domingo, outubro 15, 2006

Salve-se quem puder

Não há surpresa nesta posse doente de pessoas sobre pessoas. Os casais. Os atrelados. Os casados. Os donos-um-do-outro. A pesquisa da vidinha que sobra do horário comum. Quando chega a crise. O desamor. O ter de haver culpa nisso. O telefone confiscado. Os bolsos revistados. As carteiras reviradas. Os odores reconhecidos. Cães e cadelas a mijar à volta do poste: a relação. Não há surpresa nesta posse. Nesta asusência de sentido do outro. A liberdade reduzida a desvalor. O compromisso elevado a sacrifício. A propriedade. O amor forçado. Os avisos. Os mal-amados farejantes. A dignidade de quem vê o casamento em crise encosta-se a um poste com saia curta. Não há surpresa nesta dominação.
Respeitar a escolha, como? Pois não é o nosso Deus quem salva compromissos condenando à morte o próprio filho?

4 comentários:

José Duarte disse...

...são pessoas!O/A q confisca,o/a que revista,o/a que revira,o/a que mija à volta do poste,o/a que domina e o/a que é dominada/o são pessoas!Cada qual com o seu passado(que nunca será de mais alguem!),com as suas curvas do e no cérebro,os seus ritmos,as suas angustias e medos...e,quando se chega ao que o texto descreve,com o medo da perda(geralmente a perda de poder sobre o outro).Não há portanto outra solução para alem da liberdade:a coincidencia dos "olhares" a plasmar-se em vontade.É possivel?É crivel? A origem do imbróglio é que raramente os ritmos e os tempos do "desamor" coincidem.Acaba por haver o forte e o fraco e o fraco culpa o forte.É inevitável.Forte acaba por ser quem tomou a decisão ou a iniciativa.Mas quem revista telefones e bolsos,carteiras e horários (porque não consegue revistar "almas") tambem sofre e é da nobreza dos fortes ser generoso para com o sofrimento alheio.Só a conjugação da vontade livre é salvadora porque permite ir alem de(sse) deus. Continue a fazer pensar..

Лев Давидович disse...

Esta visão devia ser incluída no tratado de certo académico, na parte de direitos reais, provando, isto polémicamente, que os seres-humanos, para além dessa condição, acumulam o estatuto de "coisa", visto serem objectos de relações, não só jurídicas como todas as outras.
Não concordo nada com o que escreveu.

Isabel Moreira disse...

Meus amigos,
Que honra...
Não faço juizos de valor...isto é uma mera descrição...gostei muito do comentário do José Duarte. O confiscador, a que perde a dignidade, pode ser qualquer um. Limito-me a observar o perigo que o não saber deixar partir representa para a dignidade pessoal, para a liberdade, e as raízes culutrais dessa obsessão em ter o outro como seu. Mas a dor que justifica querer ter é absolutamente humana e ninguém, nem eu, está livre destas misérias.

José Duarte disse...

..."absolutamente humana e ninguem,nem eu"...como disse? ouvi bem? Mas esperemos que sim,que esteja livre dessa miséria,for the sake of "our" blog...