terça-feira, outubro 03, 2006

Vê-me

Eu sei que vens cá hoje de noite.
Eu sei que pensas num vestido branco e na densidade dele e na mudez depois da porta se fechar para entrar outra pessoa. Ou: eu quero que penses neste ser que te falou sem medo do peso da ansiedade. Ou: eu preciso que penses neste ser que te quis todo pelos olhos.
O entardecer de hoje tem o peso de não seres quem fantasiei, como fantasiei, pronto para a vertigem de uma história qualquer. Esta.

(Eis a história:
uma mulher cansada de histórias chega a um cenário que marcou com antecedência à conta de um olhar de meses antes. Não sabe nada sobre quem sustenta aquele olhar. Sabe apenas que lhe sabe bem estar ali sentada e desejar tudo nele. Sem saber nada dele. Quem avistou o demónio no corpo que lhe era doméstico agita-se toda na empatia de um estrangeiro)

O que me fere é reconheceres-me. É saber, sem saber nada de ti, que estarias bem a beber um copo e a perder a cabeça nestas costas.
(A alegria arquivada volta a arranhar-lhe as pálpebras quando não existe o tentáculo da sua história e alguém, uma pessoa só, diz: que bonita. Excita-se melodiosamente se a frase vai exigida pelo olhar cativo)
A tarde parece-me manhã porque a frase fatal sobre a tua vida interrompeu-me a fantasia.
(Isso é a vida: ter dela e nela dores feitas tumores que exigem a vocação da pele, do imeditado, a sede de episódios destemidos, sem sombras acossadas, como hoje, ela, ele, para ali sentados, na salinha da consulta, sem saberem nada um do outro, apenas que sabia bem estar ali e que saberia bem saber mais, como ela ter ido ali parar num raio de memória quando o carro cruzou aquela esquina)
As perdas antigas doeram muito. As pequenas perdas de agora atiram-me para o canto da solidão que me descobriste nos olhos. São simulações de uma vida. Desta. Da que podia ser. Aqui. Agora. Como nunca foi. Como nunca é. Como eu posso ser. O que eu tenho para mostrar. A minha casa. Este silêncio. Por um dia. Um jantar. Hoje: sem te conhecer de lado algum, contar-te a minha vida e beijar-te enquanto tudo. Um vida nisso. Um texto depois.
(ponto final. sorriso.gostou do texto. espera que ele goste. espera que a agarre. um dia.)

1 comentário:

Jack van Hutten disse...

Às vezes uma pessoa sente-se bem quando lê um texto que a faz sentir mal. Excelente criação e maravilhoso quadro de melancolia. Parabéns, Isabel...