quarta-feira, maio 02, 2007

Côncava

Assusta muito conhecer uma pessoa.
Assusta muito que nos conheçam.
Assusta muito que nos assaltem.
Assusta muito a intimidade: a primeira indignação
Chama-se intimidade.
E assusta muito
Os gestos imperfeitos a ganharem uma forma.
Assusta muito recordarem-nos de uma memória curta
Para ter por igual, por idêntico, por normal
O que nesse dia nos atiram, de repente, num gesto perfeito
Com uma forma que tem um nome:
Intimidade
E que assusta muito: dar como sempre
O corpo antes da cabeça, ou da alma,
Do que se queira chamar a isso
A isso que dizemos eu
A que o outro chama de tu
Essa palavra quase impossível
Assusta muito que se escureça a distância
Entre um corpo muito veloz nas curvas
E um tu a que se chega por uma estrada longa
E nessa escuridão sai um gesto perfeito
Com a forma da intimidade
Antes de existir um eu ou um tu
E por isso assusta tanto
Assusta, assalta, ataca
E mata o gesto muito imperfeito
Que ia a caminho, no seu caminho
Da intimidade outra,
Que é esta mais à frente
E que assusta muito.
E que assuta tanto.

6 comentários:

Лев Давидович disse...

Sublime.

jorge vicente disse...

assusta muito o abraço. que é um assalto da intimidade.

texto fantástico

jorge vicente

Anónimo disse...

A intimidade é um território que constrói as próprias fronteiras e que só é possível perceber quando nos pedem abruptamente visto e documentos. Para uns um abraço é um assalto à intimidade. Para outros a exposição pública da intimidade daqueles que um dia se amou não é exposiçao pública da intimidade daqueles que um dia se amou.

Moura Aveirense disse...

Este texto tocou-me bem fundo. Muito bonito.

Anónimo disse...

Estou farta de tentar viver, cada dia que passa só me afundo ainda mais no buraco da minha existência. Se a vida me tenta dar coisas boas...bem então eu estrago tudo!Talvez não tenha sido feita para criar algo de bom...
O meu nascimento devia ter sido amaldiçoado com certeza, até porque não vim ao mundo desejada por ninguém (ainda antes de nascer criei problemas)...
Assim que cresci criei problemas, não faço senão isso!
Há a história de uma rapariga que em tudo o que tocava morria e eu sou parecida, porque se as pessoas não morrem plo menos desaparecem da minha vida...sempre foi assim...
Neste mundo onde eu nasci e de onde ainda nenhum fruto bom eu consegui tirar, espero com a cobardia de uma alma perdida, plo dia da minha libertação pela morte!

Isabel Moreira disse...

não há existências inúteis. nem há a possibilidade, como escreve (anónima), de ser responsável, como pensa ser, pelo mal que vê em seu redor.