segunda-feira, abril 30, 2007

diálogos

acordar a chover, por dentro, e alguma sintonia no frio, numa água muito precisa a bater-lhe no rosto. pensar a vida ou escrever a vida passa por ti, por ela, tão novinha, pela outra, que pena, por um avô a tossir, uma visão, por um centenário anacrónico, pelos tios que não conheceu, deles só as mortes violentas, a marcarem os rostos dos que ficaram, a tuberculose maldita, no norte do norte de um país cem anos atrás, a tia de que lhe fala, adolescente, a morrer tossindo, numa cama aflita, lá onde pão queria significar centeio.
pensar na vida ou escrever a vida passa sempre por um diálogo com os mortos, os conhecidos dela, os conhecidos dos conhecidos, os passos na calçada a ecoarem as caminhadas desaparecidas, nos carris dos eléctricos parece-lhe ver a criança procurar o berlinde, antes de morrer sem ar, tão pequena, uma pena, e tanto ruído calado pelos mortos, com a arma do seu silêncio que é um grito contínuo, abafado, a suportar a imagem, a suportar o calor, a suportar o cheiro a peixe frito da vizinha velha, da vizinha má, da vizinha simplesmente cansada.
pensar na vida e escrever a vida com a voz dos mortos é muito deprimente, ouve, mas deprimente parece-lhe antes não ver a vida cheia de mortos, ou não querer dar por eles, ou não dar som ao seu silêncio. os mortos de cada um, cada um dos mortos, a desenharem as paisagens de manhã, a adormecerem numa almofada paralela à nossa, a viverem, a viverem com muita força entre os nossos corpos.

2 comentários:

Moura Aveirense disse...

Através do artigo da Única (Expresso), vim cá parar... muito bonito. Pararei aqui muitas outras vezes...

Moura Aveirense

Anónimo disse...

http://www.youtube.com/watch?v=gRtmkNuQ7h8