terça-feira, setembro 05, 2006

O terror da luz

-Que fazes aqui, cambaleante?
- Manuseio o meu cansaço. Emigro, de pé, a fadiga do meu cérebro para os meus joelhos.
- Que palavra essa que não soletras?
- Já não chego à claridade?
- Pareces esmagada pelo terror da luz. Ele é o terror da luz?
- Não. O mundo ser povoado deles é esse terror.
- Tens as costas cheias de palavras por cumprir. Falas?
- Passou o tempo. As palavras eram para um ouvinte que fazia sentido porque as ecoava. Agora ando assim, como sempre me acontece, quando o verbo não se solta. As palavras geram uma corcunda e acabam por escorrer pelas minhas costas.
- Como uma cruz. O que fazes com os dedos?
- Recordo o meu avô. Recordo a claridade nele sem zonas de incerteza.

3 comentários:

Diogo Almeida disse...

A prosa em poesia destes textos é sublime. E este texto... sente-se um terror a consumir-nos.

Isabel Moreira disse...

Diogo,
Obrigada pelo comentário...é-me difícil explicar como me encheu de luz. Percebo puco destas coisas de net. Nem sei como introduzir um link...se não já tinha posto o seu.
Obrigada

Diogo Almeida disse...

O meu nome é Jorge, embora o David me deva ter apresentado como Jô. Foi ele quem me disse para dar uma vista de olhos no site. Ainda bem.