quarta-feira, outubro 03, 2007

Evangelho

silêncio. silêncio. silêncio. depois, adormeceu. então, o silêncio deixou de dizer-lhe o que magoa.
de manhã, o silêncio chama-se contenção. à hora do almoço, o peso do silêncio finalmente parte-se. consegue. chorar.
dá com o evagelho de hoje. lembra-se de quando era seguidora.
lê:
Evangelho segundo S. Lucas 9,57-62.
Enquanto iam a caminho, disse-lhe alguém: «Hei-de seguir-te para onde quer que
fores.»
Jesus respondeu-lhe: «As raposas têm tocas e as aves do céu têm ninhos, mas o
Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça.»
E disse a outro: «Segue-me.» Mas ele respondeu: «Senhor, deixa-me ir primeiro
sepultar o meu pai.»
Jesus disse-lhe: «Deixa que os mortos sepultem os seus mortos. Quanto a ti,
vai anunciar o Reino de Deus.»
Disse-lhe ainda outro: «Eu vou seguir-te, Senhor, mas primeiro permite que me
despeça da minha família.»
Jesus respondeu-lhe: «Quem olha para trás, depois de deitar a mão ao arado,
não está apto para o Reino de Deus.»
termina a leitura. recorda-se das interpretações que salvavam o texto.
sente uma vaga náusea.
e regressa ao silêncio.

10 comentários:

Manuel Bruschy Martins disse...

As interpretações de que se recorda esta ex-seguidora não salvavam o texto: salva(va)m os que nele crêem, os que nele procuram uma forma de reger a vida e encontrar consolo. E para muitos é a derradeira CONSOLAÇÃO. Não salvam, aqui, da náusea, do silêncio. As palavra têm o poder que têm, ou que as pessoas querem que tenham.

Como sempre, obrigado pelo prazer da leitura.

Get Real! disse...

Ainda bem que as "interpretações" salvam o texto!... Realmente não pode seguir-se à letra. Preocupa-me é que esse CONSTANTE exercício não esteja, certamente, ao alcance de todos. E preocupa-me o aparente alheamento dessa urgência de clareza pela Igreja e por tantos fiéis (Sim, porque a Igreja é feita de pessoas). Afinal, não é só o Antigo Testamento (A.T.) que carece de interpretação. Mas, 2007 anos depois da vinda de Cristo à Terra, impressiona verificar que este ainda é lido e escutado de fio a pavio em todas as Eucaristias. Jesus veio ao Mundo exactamente para deixar-nos um mandamento NOVO: "Amai-vos uns aos outros, como eu vos amei". Em linguagem universal, isto significa a "abolição" do A. T. e do "olho por olho, dente por dente"! Quantos anos mais serão precisos para perceber esta incoerência na leitura diária destes escritos? Será possível que, entre tantas cabeças pensantes e almas iluminadas, ainda ninguém se tenha lembrado de actualizar a mensagem de Cristo com exemplos ACTUAIS de santidade? Para quem acredita que Deus está VIVO e nos fala todos os dias, por que razão terá hoje a sua voz (através de vidas impressionantes como Madre Teresa de Calcutá, S. João Bosco e S. Francisco de Assis, por exemplo) menos importância que há 2007 anos? É a mesma voz! É a mesma mensagem! Alguém me explica como será que se pretende cativar jovens que vêem os "Morangos com Açúcar", escrevem com "k's" e falam em português de 6ª geração (repleto de "bués" e imensas "cenas e assim") com as eternas histórias de "N'Aquele Tempo", sinagogas, cenáculos, redes de pesca, barcos, cenáculos e parábolas? Será que Deus não pode falar-nos no "Shopping", no Chiado ou numa aula de "Body Balance"? Acho que é preciso acordar urgentemente desta inércia, pois a missão é e será sempre só uma: salvar almas. Get Real!

sibila disse...

Escreva, escreva...não deixe que a sua pena se canse. Tenha, porém, a noção de que não há consolação suficiente no mundo para quem escreve.

Parabéns pela sua escrita.

Лев Давидович disse...

Náusea mais que justificada.

Manuel Bruschy Martins disse...

Muito obrigado, pela sua visita, pela simpatia do comentário.

A forma como explora a dor é maravilhosa... como a agitação das ondas num dia de tempestade. Cada rebentar é um suspiro de busca de paz. Cada onda autodestrói-se. Depois vem a magia do silêncio que nos sussura no ouvido: «SÊ!».

Alexandre disse...

O silêncio sonoro é o mais difícil de suportar! E de explicar! Porque o silêncio requer filtros de que nem sempre estão ao nosso alcance!

Sou adepto intrépido do SILÊNCIO! Só funciono com ele - o Silêncio!

Um grande beijinho!!!

pedro »» disse...

Sinto-me no dever de comentar. Se as fases más todos as sentimos, e as dores a todos nos rasgam, ainda que tantas vezes não de fora para dentro, mas de dentro para fora, também o aprazível assim deve ser intitulado; o aplaudível deve ser louvado; este blog deve ser elogiado - não por um mero exercício de polimento, mas por uma cumplicidade de quem se identifica na dor, mas não poucas vezes a deixa rasgar o corpo que é nosso, por não ter tal dom de escrita. Os meus sinceros parabéns. Não pela capacidade de assim escrever, porque a ilusão da cura pela escrita não passa disso mesmo, mas pela construção de um monumento artístico que é este blog - para quem o percebe, seja de que maneira for.

pedro.

Fantasma da Ópera disse...

É uma passagem muito bonita do Livro Sagrado. Mas eu gosto de a ler como uma mensagem de força. Os mortos a Deus pertencem, o facto de querermos ficar presos à sua memória acaba por se um acto de egoismo...e um egoismo que dói.

Get Real! disse...

"Um acto de egoísmo"?

Fantasma da Ópera disse...

Sim, o facto de dificilmente aceitar-mos a Morte e querer-mos ficar eternamente agarrados a uma memória revela a nossa dificuldade em largarmos as coisas quando é altura de as largar...