sábado, outubro 20, 2007

Sábado

E chega uma dessas manhãs. É nelas que se abatem os cinco dias sem tempo para abaterem, sem corredores onde respirar. Respirar. A tristeza é um cobertor que varia em camadas: uma manta fina sexta de noite que acorda feita em lã grossa, muito pesada. As noites de sexta são então o início da tristeza.
E chega uma dessas manhãs. É nelas que se abatem os planos da véspera, morrem, um a um, o peso atira-nos para o chão. Sem ar. Há uma febre que nasceu de noite, quando a vida ficou mais ou menos absurda: uma nova licenciatura por cumprir, à conta de provas de esforço ou uma, duas, três rejeições choradas sem equilíbrio, um não quero ver-te a fazer sangue, a mãe a internar a filha, e assim chega uma dessas manhãs.
É nela que dor a dor se faz cada raiz de cada cabelo. Consciência do corpo é o mandamento em cima de um tapete azul, por isso consciência absoluta da febre, dos pulmões fechados, dos poros sebáceos. Dói, dói, dói e assim começa o início do meio da tarde. Os cinco dias sem tempo, sem tempos, a engrossarem o cobertor até ao segundo muito situado em que a música nos ouvidos fica mais baixa: este grito lancinante acompanha a febre que cresce e o corpo chora pelos olhos, vagueando entre os móveis abandonados, olhando uma fotografia até a desfazer em pedaços.
E acaba uma dessas manhãs. Quase, quase louca: afinal de pé, com todos os planos por incumprir.

3 comentários:

pedro »» disse...

Na minha cama o cobertor é sempre demasiado fino, o aconchego esperado nunca passa disso, esperado, desesperado, por 8 horas atribuladas em que a consciência dele desaparece ainda que ele nunca tenha realmente existido - talvez fino, aí sim, um pouco, mas perante os dias que se abaterão nem uma fibra resta para cada hora, cada minuto que passa, cada frio que se sente repetido indefinida interminavel e incomensuravel - mente. Mente quem me diz que não - mente o perdido entre ele e o colchão.

Planos incumpridos não deixam de valer por ter existido. Mas sim, inevitavelmente tornam-se confundiveis com os que já existiram e os que aí virão.

Baudolino disse...

A dor de respirar...

sibila disse...

Que assustadora maravilha...