segunda-feira, julho 02, 2007

Luto

É excessivo o cerimonial em torno da morte, dizia.

(Velório, missa de corpo presente, funeral, missa do sétimo dia, missa do mês, visitas a casa, choro social, dor colectiva, pancadas a percorrerem um teatro de flagelação)


Um dia, a morte pesou-me como nunca e também aí me pareceu excessiva a marcha lenta em redor daquele corpo, ou daquele acontecimento.

(No entanto, nesses dias é permitido e esperado que se chore de pleno direito, sem espaço para mais nada, o nosso rosto é um espaço exclusivo da dor da perda, dos beijos de consolo, das mãos dos amigos que por ali passam, que compreendem, que se afundam connosco na tragédia do adeus que se adia nas cerimónias inventadas para isso mesmo, entendes?)

Depois de encerrado o capítulo do coração aberto aos amigos próximos e distantes, vem a tragédia do regresso à vida habitual.

(É uma tragédia, porque se vive com o rosto posto na saúde e o coração enterrado na aflição)

Pouco a pouco, é esperado de nós que voltemos a sorrir sem a sombra daquela morte que nos atirou para uma cama a soluçar, porque já passou o dia, a semana e o mês em que o choro tem lugar para ser abraçado, ou para antes disso ser comunicado, ou para antes disso ser esperado, ou para antes disso ser normal. As perguntas acerca de como vai o nosso coração sem ela começam a espaçar, porque cumprimos o devido.

(sorrimos, trabalhamos, bebemos, fumamos, fodemos, somos, em suma, pessoas devolvidas ao mundo dos outros)

Mas, na verdade, há a hora em que chegamos a casa.
(Passado o tempo em que deixa de ser razoável que se pergunte por ti, ou passado o tempo em que a pergunta por ti é uma raridade que espera uma resposta feliz e antes descobre uns olhos a explodirem a dor quotidianamente disfarçada, passado esse tempo, o espaço chama-se silêncio, ou duplicidade, e a verdadeira dor, ou solidão, então começa)

9 comentários:

Anónimo disse...

percebo tão bem o que dizes...
saudades. v.

Baudolino disse...

Ocorre-me a sensação da anestesia perante a inevitabilidade generalizada do choro. E depois, quando todos começam a tirar os melhores sorrisos do armário (o bem que o passar do tempo faz, dizem), as minhas lágrimas grossas num dia de sol radioso, no carro, quando tudo se encaminha para um dia feliz e até os semáforos estão todos verdes, só para mim. Sempre me doeu tanto este 'delay' das lágrimas, esta chegada como fruta fora de época, com sabor amargo, este lavar da alma quando parece já não fazer sentido. Mas faz. Ainda hoje faz.

Anónimo disse...

Querida Isabel,

O tempo pára, pára realmente para uns, mas não para os outros. Quem tem motivos para sorrir, sorri, quem para chorar ou gritar, que chore e grite, que viva num limbo, mas da vida.
Fico impressionada com põe em palavras algo que todos aqueles que passaram por essa experiência sentem, mas nem sempre dizem, ou não com tanta percepção e clareza sobre o que se está a passar, a tentativa de regresso à normalidade, que pode não chegar nunca, ou demora um tempo muito longo. Às vezes tem-se vergonha de ainda chorar por algo que devia já ter passado...
Retiro-lhe (à morte) qualquer visão romântico-literária de lágrimas charmosas de óculos escuros, pois não a tem, nem melhores sorrisos a sair de armário algum.
Percebo que o seu desabafo é muito sentido.
O consolo, nas palavras humildes do outro anónimo, talvez... parece saber exactamente o que diz.
Beijos

Anónimo disse...

às vezes o que escreve parece-me tão encenado que acho pouco real... espero que o sinta e não que imagine.

Anónimo disse...

A vantagem dos comentários anónimos é cada um poder realmente dizer o que pensa e aquele que escreve, se for bom, submete-se a esse escrutínio.

Quanto aos comentários identificados servem, muitas vezes, outros propósitos, nomeadamente, a promoção pessoal.

Anónimo disse...

Por quem choras? Por quem sofres?

Subterranian \ Ultravioleta disse...

o tema é pesado, e o texto fala por si. merece silencio.

Anónimo disse...

Não posso concordar com essa história do anónimo e do identificado. Menos ainda com a diferença entre o real e o ficcional. Importa apenas o que nos retira da indiferença, o que nos faz dar o momento em que lemos como uma conquista face à apatia.

A Isabel escreve muito, muito bem e a leitura dos seus textos torna os meus dias diferentes. Se é tão duro que parece irreal... materializou-se apenas.

a.filoxera disse...

Há lágrimas que se estendem pelo leito da nossa dor e lágrimas que ficam retidas.
Normalmente, outro qualquer pretexto soltará as actuais e as passadas, com retroactivos...