domingo, julho 15, 2007

angústia

O Céu não é humano
Bohumil Hrabal (Uma solidão demasiado ruidosa)
O mundo tem o tamanho da angústia
(na nossa mesa, ontem, perdi-me dele)
acordei às cinco da manhã
entre a nossa mesa de ontem
(onde me dói sempre menos o medo
onde me dói cada vez mais a mesa)
e uma troca de mensagens ousadas
saindo um pouco nelas
vindo-me depois delas
num espasmo de medo, de desequilíbrio
O mundo tem o tamanho da angústia
hoje diria, meia nua, meia louca:
O céu não é humano
e pediria de volta a puta da mesa
para te recordar nela o livro que te ofereci
O mundo tem o tamanho da angústia
e hoje estou nem mais nem menos
os sacanas enraivecidos, os sinais de trânsito
atiraram-me para uma berma
e eu disse-te: vem visitar-me, como se de partida
vou morrer
– grito, na minha Avenida de Berna
e o sangue corre dentro disto
com força, com pressa, com maldade
um veneno
O mundo tem o tamanho da angústia
O céu não é humano
a angústia dói, corrói, infecta, inflama
sou medopositiva, angustiadopositivia
escorro este demónio atrás dos óculos escuros
hoje acordei às cinco da manhã
e o gajo que me excitava toda
parece que afinal não
o dia amanheceu com uma desilusão banal
muito invulgar, nesta cabeça por um fio
a angústia tem o tamanho do mundo
o céu não pode ser humano
e hoje não há orgasmo que me safe

3 comentários:

Anónimo disse...

apetece recuar uns anos.
apetece voltar à (que achávamos) eterna serenidade de criança.
aquela que elas perderam.
dói por dentro.
entendo-te tão plenamente bem.
bjs v.

anitah disse...

às vezes é curioso como alguém que nem conhecemos parece que vê o que nos vai na alma...!? Parabéns pelo blog.

Baudolino disse...

a angústia dói, corrói, infecta, inflama

Sim. E, às vezes, a falta dela é estranhamente desconfortável. Parece que nos incorpora o sangue...