Estamos a viver o presente e dizes vamos fazer com que isto dure. Quando o dizes tens um odor na tua frase e quando te escuto é hoje, e parece uma impossibilidade que exista um amanhã que faça da tua frase uma relíquia pisada por odores que se mexeram pelo espaço do teu som em tempos que são de repente ontem, um novo hoje, a fazerem de ti antigamente e mesmo assim, às vezes, diluídos numa parede de azulejos falsos ou perdidos nos acordes de um violoncelo o teu rosto quando a porta se abria; o que tens? Desapareces e um pingo de chuva acerta-lhe em cheio na ponta do nariz, reapareces quando o lambe na descida para os lábios, há um homem que lhe assegura recordar-se do seu cheiro a dois metros de distância, a três anos de distância, e há um homem que não usa senão o cheiro que a pele lhe empresta. Estamos a viver o presente e dizes vamos fazer com que isto dure, não dói absolutamente nada, tens a distância das cidades gregas, és o advérbio antigamente, mas rasgas a memória de uma rapariga que não gosta de quem vive bem com uma condenação à morte sem pedir a palavra.
segunda-feira, abril 27, 2009
segunda-feira, abril 20, 2009
praia grande
quem se não lembra do precipício apanhado num instante e de cair num golpe sem misericórdia e de finalmente sobreviver por acaso, depois de engolidos pela onda pesada, inteira, sonora, velha? quem se não lembra de temer morrer e ainda assim arriscar uma paralisia nas carreirinhas que tínhamos como as mais perigosas do mundo? assim se apanhavam ondas, na praia grande. haverá e sabe e soube que há quem se lembre e quem saiba o que é acordar a apanhar uma onda de medo a crescer para um gigante de pânico que nos leva em pensamentos mais velozes do que os métodos que nos ensinaram para os controlar. haverá e sabe e soube que há quem se lembre e quem saiba o que é cair a pique e sentir a dor do embate no corpo, a morte anunciada no pensamento, gemer-se no fundo da areia a dizer-se adeus, para repentinamente vir-se à superfície. ainda a tremer recorda-se o que seja: o sonho da véspera – a rapariga morta ao fundo do corredor emoldurada por uma porta, sentada a sorrir para ela –; a voz que se escuta com atenção a recordar-lhe que a sua luta é maior do que a luta contra um cancro. ou então vive-se uma história: canções que lhe recordam dois ouvidos funcionais, músicas a encherem um automóvel, músicas que fazem a caminhada de uma mulher descoberta nos acasos da sua vida. ou então luta-se e reencontra-se uma pessoa e apanha-se assim uma onda suave até terra firme, alguém que lhe conhece uma sorriso juvenil, anterior a todos os lobos, anterior às carreirinhas assassinas, uma mesa e duas mulheres, às vezes um tremor, às vezes um aviso na ponta dos dedos, mas vence a cumplicidade da memória do afecto que se faz presente e diz-se, no fim: obrigada. luta-se, luta-se, luta-se: caminha de gatas, encharcada, com areia no cabelo embaraçado, até ao início da areia húmida, ainda não seca, mas pelo menos já húmida, e encontra-se o desenho de um sentimento. a parede de pânico quer empurrá-la para trás, mas luta, luta, luta e diz: vou abrir a caixa do correio. haverá e sabe e soube que há quem se lembre e quem saiba o que é.
quarta-feira, abril 15, 2009
a voz
está escuro. a voz que escuta com mais atenção surge-lhe num corpo colado ao dela, que se dobra como dentro da mãe. começa a chorar uma solidão de vinte anos. chama pela voz que escuta com mais atenção.
- não o queria acordar.
- isso é irrelevante.
- são vinte anos a ouvir essa voz e eu preciso tanto dela aqui e agora a sufocar-me com braços e pernas, a não permitir uma desintegração.
- eu gosto muito de si, muito, isso não é uma consolação?
- é, há vinte anos que a voz que escuto com mais atenção é uma consolação, mas a solidão infectou-me os ossos, a pele, a cabeça, agarre-me, passe-me as mãos pelo cabelo.
- eu não conheço esses gestos.
- e se eu morrer antes de a sua voz morrer?
- é esse o meu medo. mas não se morre quando se é amado.
- por uma voz.
- por esta voz.
- não o queria acordar.
- isso é irrelevante.
- são vinte anos a ouvir essa voz e eu preciso tanto dela aqui e agora a sufocar-me com braços e pernas, a não permitir uma desintegração.
- eu gosto muito de si, muito, isso não é uma consolação?
- é, há vinte anos que a voz que escuto com mais atenção é uma consolação, mas a solidão infectou-me os ossos, a pele, a cabeça, agarre-me, passe-me as mãos pelo cabelo.
- eu não conheço esses gestos.
- e se eu morrer antes de a sua voz morrer?
- é esse o meu medo. mas não se morre quando se é amado.
- por uma voz.
- por esta voz.
- não morra.
- sobreviva.
- venha viver comigo.
- eu vivo num país que não existe. e numa casa que também não existe.
- está a doer menos. sabe? alguém pediu pela minha palavra.
- a sua palavra é o seu poder. o seu caminho. o de uma alegria cheia de lâminas.
- venha viver comigo.
- eu vivo num país que não existe. e numa casa que também não existe.
- está a doer menos. sabe? alguém pediu pela minha palavra.
- a sua palavra é o seu poder. o seu caminho. o de uma alegria cheia de lâminas.
terça-feira, abril 14, 2009
sexta-feira, abril 03, 2009
2 de Abril: nota pessoal
A 25 de Abril de 1974, o Movimento das Forças Armadas, coroando a longa resistência do povo português e interpretando os seus sentimentos profundos, derrubou o regime fascista.
Libertar Portugal da ditadura, da opressão e do colonialismo representou uma transformação revolucionária e o início de uma viragem histórica da sociedade portuguesa.
A Revolução restituiu aos Portugueses os direitos e liberdades fundamentais. No exercício destes direitos e liberdades, os legítimos representantes do povo reúnem-se para elaborar uma Constituição que corresponde às aspirações do país.
A Assembleia Constituinte afirma a decisão do povo português de defender a independência nacional, de garantir os direitos fundamentais dos cidadãos, de estabelecer os princípios basilares da democracia, de assegurar o primado do Estado de Direito democrático e de abrir caminho para uma sociedade socialista, no respeito da vontade do povo português, tendo em vista a construção de um país mais livre, mais justo e mais fraterno.
A Assembleia Constituinte, reunida na sessão plenária de 2 de Abril de 1976, aprova e decreta a seguinte Constituição da República Portuguesa:
Libertar Portugal da ditadura, da opressão e do colonialismo representou uma transformação revolucionária e o início de uma viragem histórica da sociedade portuguesa.
A Revolução restituiu aos Portugueses os direitos e liberdades fundamentais. No exercício destes direitos e liberdades, os legítimos representantes do povo reúnem-se para elaborar uma Constituição que corresponde às aspirações do país.
A Assembleia Constituinte afirma a decisão do povo português de defender a independência nacional, de garantir os direitos fundamentais dos cidadãos, de estabelecer os princípios basilares da democracia, de assegurar o primado do Estado de Direito democrático e de abrir caminho para uma sociedade socialista, no respeito da vontade do povo português, tendo em vista a construção de um país mais livre, mais justo e mais fraterno.
A Assembleia Constituinte, reunida na sessão plenária de 2 de Abril de 1976, aprova e decreta a seguinte Constituição da República Portuguesa:
Escrevo na primeira pessoa e considero que apesar de o relógio apontar já para o dia 3 de Abril, psicologicamente ainda estamos no dia 2 de Abril. Ainda não adormeci. Há 33 anos foi nasceu a Constituição actual e há 33 anos nasci eu, por ironia do destino hoje uma docente de Direito constitucional. Nas minhas aulas fazemos a brincadeira de perguntar o que é que de importante aconteceu no dia 2 de Abril de 1976. Naturalmente, foi aprovada a Constituição, que tem este preâmbulo cujo valor jurídico dá discussão para meia aula. Hoje, fala-se muito na Constituição: deve ser revista; é muito complexa; é asfixiante em matéria económica; em bom rigor, deveria ser substituída por outra; há mesmo quem já tenha um projecto de Constituição com menos de 20 preceitos; é velha; já foi usada e abusada; tem mesmo de ser mudada! Já lá vão 33 anos... Eu gosto dela, a sua complexidade não me assusta, acho que bem lida é muito mais aberta do que se diz, acho que nos serve. Sobretudo, parece-me que os problemas que inquietam as pessoas que falam em rever ou mudar de constituição continuariam a existir caso conseguissem levar a sua avante.
E eu? Eu preciso de ser revista. Ontem fui operada a um rim. Saí do Hospital, muito frágil, para os meus amigos, muito fortes. Mas preciso de ser revista. 33 anos. Vou descansar. Já volto.
Um dia destes.
segunda-feira, março 30, 2009
lobo
chegou ao fim, finalmente. sábado de manhã o seu corpo perdeu as forças. a sua inimiga indegolável defendeu-se e fez-se em células, para dormir, dormir, dormir. nos sonhos o homem é um lobo, pergunta por ela à sua mãe, quer saber, como é que está a sua filha?, depois mistura-se com a face do criminoso, inala uma linha de coca, o lobo que a matou, volta às vestes do criminoso, pousa na sua cama e sorri, e mata-a, como todos os lobos, também ele nos diálogos passados com pele de cordeiro, antes de ser lobo, lobo mau, lobo mau, onde vais, onde vais?
vai para a casa da sua infância, janta na cozinha, olha de lado a gravata do pai, encolhe-se toda na sua dor, pensa que partilhou tanto, mas não as sua bulas perdidas na gaveta, a sua doença, olha de lado a gravata do pai, que é como quem diz o colo do pai, vê o pai pestanejar enlouquecido com a sua morte, começa a chorar, lobo mau, lobo mau, foge para a copa,
mãe, desculpa, esta dor que nasceu comigo, mãe, abraça-me para sempre, esta dor que ninguém conhece, mãe, socorro, o meu cancro foi acordado, lobo mau, lobo mau, deixa-me adormecer, adeus, mãe, adeus, mãe, o problema não é o lobo, é o que o lobo me recorda, mãe, mãe, mãe.
vai para a casa da sua infância, janta na cozinha, olha de lado a gravata do pai, encolhe-se toda na sua dor, pensa que partilhou tanto, mas não as sua bulas perdidas na gaveta, a sua doença, olha de lado a gravata do pai, que é como quem diz o colo do pai, vê o pai pestanejar enlouquecido com a sua morte, começa a chorar, lobo mau, lobo mau, foge para a copa,
mãe, desculpa, esta dor que nasceu comigo, mãe, abraça-me para sempre, esta dor que ninguém conhece, mãe, socorro, o meu cancro foi acordado, lobo mau, lobo mau, deixa-me adormecer, adeus, mãe, adeus, mãe, o problema não é o lobo, é o que o lobo me recorda, mãe, mãe, mãe.
sábado, março 28, 2009
manhã de sábado
dança, dança, dança, um copo de água tónica na mão, o seu gin a fingir, dança,dança, dança, um milhão de mosquitos colados à sua pele, um milhão de beijos tentados, dança, dança, dança, acende um cigarro proibido, pensa: como terei sobrevivido a este dia, ao meu cansaço?dança, dança, dança, nunca olha para o relógio, lembra-se da véspera, cola os pés ao chão
(a minha magreza)
dança, dança, dança, às vezes, muitas vezes, o medo de um surto de medo, dança, dança, dança, mas também alegria
(na minha fragilidade)
dança, dança, dança, ri perdendo o ar, dança, dança, dança, o seu amigo, está feliz por não cair, está feliz por se não ver na sua dança o seu cansaço, dança, dança, dança, pensa: terei forças para um volante? dança, dança, dança, a pensar no cansaço de amanhã.
é sábado de amanhã, mete a chave na porta e diz: fui eu que entrei.
sexta-feira, março 27, 2009
dedos
- não me lembro de isto estar aqui, nem isto nem aquilo.
- como não?
- não te via há dois anos.
- como não?
- não dás pelo tempo?
- não dou por mim.
- o que te aconteceu?
- no ano passado lembro-me de um aniversário a dormir.
(reconhecer o espaço que é um pessoa: cabelos, nariz, boca, peito, pernas, cabelo, olhos; reconhecer os movimentos que fazem uma pessoa: uma mão a afastar a franja, o peito a suar sobe desce sobe desce, duas pernas a empurrarem um prazer, o olhar seguro a reconhecer uma mulher)
- estás igual, sabes?
- não dei por nada. dois anos, dizes?
- estás cansada?
- não.
(dar atenção ao tempo naquele quadrado, fazer do espaço um ensaio de tempo, dez unhas a comerem umas costas revisitadas dizem meia noite e meia, mas também dizem um sorriso de três minutos, ou um grito de trinta segundos, muita atenção nos dedos entrelaçados que foi todo o tempo de todos os gestos: as mãos dele)
- eu estava apreensivo e tu foste como que ontem.
(os olhos dela nos dedos embrulhados)
- também eu.
- por que olhas tanto para os meus dedos?
- porque estão livres. porque estão livres.
- como não?
- não te via há dois anos.
- como não?
- não dás pelo tempo?
- não dou por mim.
- o que te aconteceu?
- no ano passado lembro-me de um aniversário a dormir.
(reconhecer o espaço que é um pessoa: cabelos, nariz, boca, peito, pernas, cabelo, olhos; reconhecer os movimentos que fazem uma pessoa: uma mão a afastar a franja, o peito a suar sobe desce sobe desce, duas pernas a empurrarem um prazer, o olhar seguro a reconhecer uma mulher)
- estás igual, sabes?
- não dei por nada. dois anos, dizes?
- estás cansada?
- não.
(dar atenção ao tempo naquele quadrado, fazer do espaço um ensaio de tempo, dez unhas a comerem umas costas revisitadas dizem meia noite e meia, mas também dizem um sorriso de três minutos, ou um grito de trinta segundos, muita atenção nos dedos entrelaçados que foi todo o tempo de todos os gestos: as mãos dele)
- eu estava apreensivo e tu foste como que ontem.
(os olhos dela nos dedos embrulhados)
- também eu.
- por que olhas tanto para os meus dedos?
- porque estão livres. porque estão livres.
quinta-feira, março 26, 2009
depois do jogo
não sabe. sabe. sempre soube. não sabe. ou: não investiga e só sabe depois, e depois diz sempre soube. hoje quando descobriu o que sempre soube passeou por uma rua difícil, vestida de branco, um bom amigo agarrava-lhe o braço. sorria o calor da tarde, ela sorria o calor da tarde e explicava: a minha memória anda tão mal, tão mal, ontem recordaram-me ao jantar de coisas minhas, soltaram-se gargalhadas, eu ri muito, não me lembrava de nada, depois apanhei um táxi.
não sabe. sabe. sempre soube. não sabe. um restaurante e um amigo bom. tinha saudades deste amigo. uma mesa, dois copos, dois pratos, peixe cru, peixe cru, uma pessoa crua, não esta, a diluir-se como um pedaço de arroz no molho de soja, por cima desse corpo palavras inteiras, corpos inteiros, por isso, sem a ameaça do toque, e a confissão dela. uma borboleta na janela, branca como o vestido dela. conta, conta, ouve-se. mas talvez já não se lembre. porque não foi o que foi, porque era para ter sido um caso único e não um episódio desportivo.
- passa-me a manteiga.
- passa-me a bola, disseste?
não sabe. sabe. sempre soube. não sabe. um restaurante e um amigo bom. tinha saudades deste amigo. uma mesa, dois copos, dois pratos, peixe cru, peixe cru, uma pessoa crua, não esta, a diluir-se como um pedaço de arroz no molho de soja, por cima desse corpo palavras inteiras, corpos inteiros, por isso, sem a ameaça do toque, e a confissão dela. uma borboleta na janela, branca como o vestido dela. conta, conta, ouve-se. mas talvez já não se lembre. porque não foi o que foi, porque era para ter sido um caso único e não um episódio desportivo.
- passa-me a manteiga.
- passa-me a bola, disseste?
segunda-feira, março 23, 2009
depois do incêndio
a casa está desarrumada, por exemplo: umas meias do avesso a dizerem o gesto que foi despi-las, uma mulher cansada à beira da cama desequilibrou-se e quase caiu, lá viu as pernas e a sua pele que é muito lisa. a casa está desarrumada, por exemplo: um vestido caído no chão, recorda-se hoje já maquilhada de se ter virado na véspera para um espelho e de ter visto umas costas magras e uma fotografia possível, um princípio de nádegas, um princípio de atrevimento. a casa está muito desarrumada, por exemplo: hoje o edredão não diz que dormiu só no cantinho esquerdo da cama, e o fumo dos cigarros da sala confessam que se não deitou à primeira, andou de um lado para o outro, muitos copos, muita água, abre a janela e um pássaro grita e lembra-se ou pergunta-se: gritei e desarrumei o ar?
quinta-feira, março 19, 2009
quarta-feira, março 18, 2009
escuro
viu o escuro do seu sono. não tirou as lentes de contacto e viu as pálpebras de rosadas a pretas. pedia muito dorme, dorme: 5 e qualquer coisa e um polvo nos olhos. volta a adormecer cansada de se dizer cansada tão cansada. encolhe-se reunida com os joelhos, abre os olhos e vê a mãe na parede. fecha os olhos e vê a barriga da mãe. abre os olhos e vê a mãe na parede. fecha os olhos e tem saudades de um outro tempo. adormece e entra em salas com pecados, com recados, com pecados. fecha e abre as portas. corre dali para fora. pedia muito: dorme, dorme: há um amigo numa sala que a olha de lado. pecado e recado. começa a chorar. acaba a gritar.
vai trabalhar.
vai trabalhar.
terça-feira, março 17, 2009
vou dedicar-te um texto
vou dedicar-te um texto após alguns textos sobre as horas e os minutos e sobre o meu coração a morrer neles de madrugada tão aflita a pedir por um cardiologista já era por ti que chamava um texto hoje estou a correr para um ataque cardíaco sem pontos nem vírgulas na minha boca a comer o ar sem o deitar fora de cada vez vou dedicar-te um texto ou fazer de ti um texto
ontem acordou e pôs as mãos entre as pernas sentiu o quente do sangue e pensou passou um mês exactamente ou quase exactamente e também pensou disse mesmo não terias nojo deste sangue passou um mês exactamente és um texto de um mês e lá vai ela pela calçada a recordar-se de um texto zás uma mão zás uma perna zás o movimento de ancas zás a voz do texto a avisar que não aguenta mais é agora sua doida zás e agora o texto acabou e lembra-se que começou com uma frase absurda a comandar que não podemos não podemos isto e aquilo e em cada movimento o anúncio certo disso e daquilo e agora adeus antes que morta na alma como já se escreveu tantas vezes e agora adeus na mesma posição no cantinho esquerdo da cama à direita o teu sorriso ou gargalhadas e muita humidade e muita humidade e muita saudade
ontem acordou e pôs as mãos entre as pernas sentiu o quente do sangue e pensou passou um mês exactamente ou quase exactamente e também pensou disse mesmo não terias nojo deste sangue passou um mês exactamente és um texto de um mês e lá vai ela pela calçada a recordar-se de um texto zás uma mão zás uma perna zás o movimento de ancas zás a voz do texto a avisar que não aguenta mais é agora sua doida zás e agora o texto acabou e lembra-se que começou com uma frase absurda a comandar que não podemos não podemos isto e aquilo e em cada movimento o anúncio certo disso e daquilo e agora adeus antes que morta na alma como já se escreveu tantas vezes e agora adeus na mesma posição no cantinho esquerdo da cama à direita o teu sorriso ou gargalhadas e muita humidade e muita humidade e muita saudade
quinta-feira, março 12, 2009
a Voz
são 22h e 55 m. ela pensa talvez hoje a dor ocupe o lado esquerdo da cama e fique quieta e eu possa dormir. navega pelas páginas dos seus livros, tão odiadas pelo familiar de faca na mão, ao fundo vê, como sempre vê, uma ilha deserta, que não lhe dá conforto, mas o desconforto psicanalítico da memória mal escondida de um afogamento lá atrás. na véspera pediu consolação. não: amabilidade. é muito, para muitos.
são 4h e 32 minutos. cai uma lágrima lenta a escutar o coração tum, tum, tum, não dormi, não dormi, não dormi. vira-se de costas para o espelho e vê a voz que escuta com mais atenção, a tantos voos de distância, tão doente, a voz dos seus livros todos, a voz que diz: talvez a ternura nos salve. não se telefona a uma voz; escuta-se essa voz que lhe diz sempre ironize, ironize, e ela a olhar para os pêlos brancos no cimo de uma camisa de pescador, a olhar para as extremidades de quatro mãos que se tocaram pela ponte de um passarinho que pousa sempre nas nossas mesas, não é, meu amor? ela a pensar que a voz que escuta com mais atenção é a voz que escuta com mais atenção porque tem consistência: é amável há 20 anos; é verdadeira há 20 anos; é honesta há 20 anos; é autêntica há 20 anos; não tem outra estratégia que não a da verdade há 20 anos, a voz que ela escuta com mais atenção. às 4h e 34 minutos pede-lhe que ao fim de 20 anos deixe de ser uma voz e que se transforme num ombro. e num ouvido, no qual possa soprar sabes?, mais uma banalidade, mais uma inconsistência, e há um familiar com as veias do pescoço de fora que me não deixa dormir e o meu coração está por um fio.
tum, tum, tum, volta-se de frente para o espelho. sabe o que ouviria: integre a sua condição.
São 4h e 35 minutos, embrulha-se na voz que escuta com mais atenção e a banalidade fica assim: uma banalidade.
são 4h e 32 minutos. cai uma lágrima lenta a escutar o coração tum, tum, tum, não dormi, não dormi, não dormi. vira-se de costas para o espelho e vê a voz que escuta com mais atenção, a tantos voos de distância, tão doente, a voz dos seus livros todos, a voz que diz: talvez a ternura nos salve. não se telefona a uma voz; escuta-se essa voz que lhe diz sempre ironize, ironize, e ela a olhar para os pêlos brancos no cimo de uma camisa de pescador, a olhar para as extremidades de quatro mãos que se tocaram pela ponte de um passarinho que pousa sempre nas nossas mesas, não é, meu amor? ela a pensar que a voz que escuta com mais atenção é a voz que escuta com mais atenção porque tem consistência: é amável há 20 anos; é verdadeira há 20 anos; é honesta há 20 anos; é autêntica há 20 anos; não tem outra estratégia que não a da verdade há 20 anos, a voz que ela escuta com mais atenção. às 4h e 34 minutos pede-lhe que ao fim de 20 anos deixe de ser uma voz e que se transforme num ombro. e num ouvido, no qual possa soprar sabes?, mais uma banalidade, mais uma inconsistência, e há um familiar com as veias do pescoço de fora que me não deixa dormir e o meu coração está por um fio.
tum, tum, tum, volta-se de frente para o espelho. sabe o que ouviria: integre a sua condição.
São 4h e 35 minutos, embrulha-se na voz que escuta com mais atenção e a banalidade fica assim: uma banalidade.
quarta-feira, março 11, 2009
e assim se vai
vai-se embora só com o dedo indicador, enquanto o homem de 80 anos lhe prende a mão esquerda ao telefone, uma amargura a vida dele, a luta de milhares de contos para a ver perdida na burocracia de um país menos deserto do que ele: morto; vai-se embora, só com o dedo indicador, o coração não descansou desde a véspera, sabe que não viverá muito mais. vai-se embora, assim, a escrever, enquanto 82 rugas lhe falam ao ouvido esquerdo, a dizer de um projecto de uma vida, do qual não se desiste nem depois de morto; trezentos volumes de requerimentos, qual a miséria maior? é secundário. ouve não lhe tiro mais tempo e até à próxima e pensa: - vou-me embora com o indicador comido a 120 batidas por minuto, fora os minutos em que fumo, vou embora não sem antes visitar o abismo de um cigarro e em cada morte inspirada recordar a inspiração do velho que me fala morto pela burocracia.
ela morta por um coração que não tem mais forças para o seu corpo que é todo ele uma cabeça.
terça-feira, março 10, 2009
defesa
o que ela queria mesmo era um cardiologista. não é possível viver muito mais tempo neste estado em que todos os vizinhos lhe escutam as batidas fora do normal. não há cardiologista algum na sua lista de telefones, há apenas a memória do desgosto de uma fúria que o familiar abateu sobre ela e que como sempre teve os seus danos tardiamente a fazerem estragos num coração que bate tanto, tanto, tanto. pelo meio, um homem inesperado que lhe promete e que a faz prometer a frase imatura, usual, mas à conta da promessa e à conta de não haver cardiologista algum, entra-lhe um jovem pela casa que lhe sopra ao ouvido, como um poema complicado, a tua vista é fixe; ela a dizer-lhe calada que a tua função é retirares função ao homem inesperado, mas o comando é muito difícil para a simplicidade de quem só se preocupa com o sol de sábado e com a previsão de um amanhã igual. a tua vista é fixe; lembra-se de um texto antigo, três mulheres e um tapete, e faz a metamorfose do rapaz em rapaz literário: dois amantes e um tapete? não chega, mas ajuda, ele bebe cola, ela bebe água, ele é muito bonito, soletra frases com três palavras, um rapaz bom. (a tua função é retirares função ao homem inesperado, ao homem da frase imatura que sempre se diz). disseste alguma coisa? ela responde que não disse nada e acompanha-o à porta.
segunda-feira, março 02, 2009
uma mensagem
a sua casa e a de todos os vizinhos ficou sem luz. a sua casa, que já é preta, escureceu contra a luz que lhe diz amanheceu e a rapariga, a mulher, pousou com vagar os pés por onde andava, meia nua, escutando o vento que nasce no cemitério. demorou a entender que a escuridão não era só da sua casa preta, mas do prédio inteiro, e ali ficou, sentada numa cadeira, molhada, meia nua, encontrada na luminusidade aglutinante do ecrã de um telemóvel.
uma alegria.
uma mensagem.
uma alegria.
uma alegria.
uma mensagem.
uma alegria.
terça-feira, fevereiro 17, 2009
a palavra que mata
diante dos seus olhos, os olhos familiares a cuspirem a palavra que mata, que é a que nos faz confirmar a suspeita que se havia confessado à mulher sábia: eu amo quem não me ama. a palavra desenha-lhe o corpo em muitos anos abafados através de uma garganta jovem, bonita, hoje castigada de veias de ódio a dizerem-lhe: tu não tens o direito de ser assim, que é como quem diz: tu não tens o direito de ser. invoca-se o passado da agedida para agredir e consegue-se agredir, e é nesse instante que o sangue de cristo que nos amou desde há 25 anos pode ser puxado por um cano de esgoto. os pulsos dela estão cortados por mãos alheias, as mesmas que lhe ampararam a cabeça, lá atrás, quase morta. essas mãos, hoje, são jovens, têm botões de punho, vivem com medo do medo dos outros, do que os outros vão dizer-lhe à conta dela, e por isso não estão a cuidar dela, mas delas, das mãos que se descobrem nos novíssimos botões de punho, das mãos que hoje ameaçaram bater numa mulher.
sexta-feira, fevereiro 13, 2009
dois anos ontem
ontem não escrevi a dizer-te: beijo a tua fotografia há dois anos (já?). ontem fiquei antes em silêncio, até uma criança tua cantar com a força que eu não tenho, recusando-se a dizer adeus. volto a prometer-te que nunca te conjugarei no futuro e daqui a um ano direi o mesmo. ainda a semana passada senti a tua mão sobre a minha, quando passei numa estrada e não via como manobrar as mudanças do meu carro. meu amor.
terça-feira, janeiro 27, 2009
depois
no dia seguinte, vem o medo de si. afinal (afinal?!, ainda não aprendeu?) não tem controlo sobre os efeitos dos seus feitos e diz: vem aí a minha doença, mãe. vem aí tudo, tudo outra vez, a minha conquista a desfazer-se de frente para trás, que medo.
agarra a respiração e recorda-se dos longos curtos minutos em que escapou à solidão e vê no plasma em frente do cadeirão velho o seu preço sob a forma de um colete de forças.
não começa a chorar, antes confessa-se àquela mulher, que lhe diz: eu não te deixo cair, estás muito bonita, forte, chegaste até aqui, já passou, eu não te deixo cair.
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