domingo, outubro 19, 2008

domingo só

chegou a única mensagem que não lhe traz nada senão a morte. o dia começou azul fresco numa praia onde ao longe as gaivotas não ameaçadas a deixaram dormir em vez de morrer. às cinco da tarde já viu um filme enrolada numa manta a recordar-se de como a temperatura mudou entre o meio-dia e aquela hora: começa a pensar e a fumar. está descalça e o coração acelera sem aviso. o silêncio é tão espesso que as lágrimas correm de fora para dentro. lembra-se do princípio dos três dias que matam as semanas e não sente calor. lembra-se da única mensagem que não lhe traz nada senão a morte. à hora do almoço sorria com um amigo e uma voz interior perguntava-lhe se pensava mais na morte ou se pensava mais na velhice. quando chegar a velha os vizinhos terão paz. mas a sua voz sussura-lhe que não verá num espelho uma velha. não recebe a carta que lhe daria talvez uma semana de vida. não recebe a mensagem que lhe daria talvez uma hora de alegria. chegou a única mensagem que não lhe traz nada senão a morte. morde a língua para fingir que quebra o cimento do silêncio. quando era pequena, havia a missa das sete. agora bebe um copo à mesma hora. de manhã, bem vistas as coisas, já estava enjoada. secou-se após o banho a ver a sua amiga morta mesmo antes de rumar à praia. fazia o creme circular à volta dos olhos e via aqueles olhos verdes. hidratava a boca seca e ouvia a boca da amiga morta falar da certeza da vida eterna. então perguntou-se nua se a amiga morta ainda a amaria integralmente, agora que podia ver tudo o que por cá fazia. esse pensamento foi o roupão a cobri-la da tristeza que cresceu em silêncio pelo dia fora. quase seis da tarde e a dor, ou o vazio, que são sinónimos, é enorme.

sexta-feira, outubro 17, 2008

Sonhos IV

cada Sábado um instante, mas depois uma facada, enche-se de sangue, as palavras estão gastas, são muitos séculos e muitas pessoas a utilizarem palavras, por isso é com muito ódio que se força a dizer que depois do sangue vem o tal cansaço e a raíz da ansiedade semanal, mais um frasquinho de veneno para a soma dos instantantes inúteis, como este homem, que lhe ataca os vícios como um soco nos rins e que está de perfil. ela olha-o e vê quatro olhos na sua face. dois onde devem estar e mais dois um pouco mais abaixo e o homem fala como se ter quatro olhos fosse normal, mas ele tem mesmo quatro olhos, e talvez ao acordar ela se dê conta que aquele peixe gigante que a sangra como nenhum outro tem sempre duas intenções, e daí o horror de quatro olhos; casa sábado um instante e o sangue dá nestes sonhos. deita-se no divã e perguntam-lhe pelo seu poder. a música soa sempre muita alta, ela tem, sim, muito poder, mas depois vem uma facada, enche-se de sangue, sonha com um rosto com quatro olhos, atira as pessoas pela janela, faz de todos os rituais o retrato da sua tese sobre os afectos e vai à sua vida, com a raíz da ansiedade semanal bem semeada.
bebe muita água.

quinta-feira, outubro 16, 2008

"talvez a ternura nos salve"

um dia ela estava como uma balão por soprar e o escritor escreveu-lhe talvez a ternura nos salve. ela explica-lhe que são quase dois mil dias de balão por soprar, essa coisa de já não amar mas de ter a imagem tão certa do que foi isso, mesmo que lhe digam talvez ficciones o passado, tanto faz, são quase dois mil dias de balão por soprar, e lá atrás havia um poema de manhã, sempre, ou muitas vezes, colado no espelho da casa de banho. de noite havia um veludo escurecido pelo tempo, não era só genética, umas costas que olhava depois de adormecidas para falar com elas e dizer-lhes tão-só obrigada. são quase dois mil dias de balão por soprar, mas talvez a ternura nos salve, de certeza que a ternura nos salva, diria, porque as pernas sabem do ofício de andar, não desistem. são quase dois mil dias, são, mas a ternura talvez nos salve, por exemplo numas mãos que deslizam a construir a palavra ternura numa pessoa que nos diz como estás? é muito.

terça-feira, outubro 14, 2008

A não perder

Ver: alguns dos quadros do Zé Lourenço que vão amanhã a exposição na Sociedade de Geografia de Lisboa na Rua das Portas de Santo Antão às 16h30

segunda-feira, outubro 13, 2008

Mudança

Ela às vezes olha para o lençol e diz-se assim: que cansaço. Ela às vezes apaga aquele cansaço com uma noite a sorrir. Nessa noite a sorrir não está só, como estava na noite do lençol com quatro meias perdidas, por ali. Que cansaço. Nessa noite, a sorrir, encosta a cabeça numa cintura que tem mais de trezentos dias e ampara no colo a cabeça com um cabelo que já foi mais curto, mais comprido, mais curto, mais comprido. Respira devagar e a ansiedade da memória da véspera vê-a derreter-se num gelado que não comeu, porque ela às vezes olha para o lençol e diz-se assim: que cansaço. Há um perfil que não sabe que tem o perfil que lhe empresta o olhar dela, vira-o de frente e atira-o para trezentos dias antes, numa cadeira um em frente ao outro, apenas para recordar um olhar que foi tão sorvedor que fez de mãos, ali, numa sala ao lado -lembras-te?Respira um pouco mais depressa e depois entrega-se ao silêncio, com a boca muito seca, por isso é que respirou por instantes mais depressa, é que ela à vezes olha para o lençol e diz-se assim: que cansada.

quarta-feira, outubro 08, 2008

Belgrado II

nós, sempre na linha da frente
há mais de quatro séculos nisto - é assim, é por isso, que é assim que nos vêem
dizes
in time of roses drink my wine, Dragan
os poemas teus em cima da mesa do pai morto
tinhas dezanove anos e soavam todos a garganta de velhos
falas, falas, falas, dás uma aula de literatura sérvia a um grupo de alunos croatas
e os alunos foram repudiados pelas suas famílias - o ódio, tanto ódio, e soa a guitarra
we should stop this and listen to your fado, Isabel
nós combatemos sempre na linha da frente, entendes? - e soa a tua guitarra
in time of roses drink my wine, Dragan
pode nem sempre ter sido como disseram que foi, é isso?
não choras
não gritas
curvas-te todo numa guitarra- vamos?
vou falar-te dos meus poemas sobre mortes acidentais
elas todas têm um sentido, mas aqui não se fala de mortes acidentais
vou falar-te da morte de um dentista
não choras
não gritas
mordes os lábios, mordes mais de quatro séculos na linha da frente
e eu digo: põe esse peso sobre mim
eu aguento

quarta-feira, outubro 01, 2008

volta, antes que me ponha a rezar, volta, antes que me ajoelhe, ali onde não gosto, volta com a energia dos meus vinte anos perdidos em projectos enganados, volta, por favor volta, pára de morrer, minha querida, volta, volta, volta, amanhã, quem sabe, não desistas, não desistas, mas isto dói, mas isto dói, mas isto dói, não caias, não caias, amanhã, juro-te, amanhã, nessa cara um sorriso, eu não aguento até amanhã, eu não vivo até amanhã, pensa nos furos que tens nas orelhas, pensa no número que calças, pensa nos centímetros da tua cintura, podes ir chorando assim, assim, assim, assim, isso, isso, isso, volta, volta, por favor volta-me!

terça-feira, setembro 30, 2008

sou eu

bombas, armas, bombas, estilhaços, tiros, um tiro não certeiro, um tiro, o corpo atirado para o canto do sofá, bombas, armas, bombas, estilhaços, um grito a fazer de cogumelo atómico, às vezes um alívio, pode ser um brigadeiro, uma linha de sangue a percorrer-me as costas, passa por lá as mãos e dá-me um dedo a lamber as memórias, bombas, armas, bombas, estilhaços, tiros, o corpo dobrado na ponta do sofá, os nervos à flor da pele, tenho medo de todas as linhas brancas, bombas, armas, bombas, estilhaços, tiros, tenho medo de todos os fumos ilícitos, bombas, bombas, bombas, não tenho medo do momento em que me levas, tiros, tiros, tiros, tenho sempre medo de amanhã, um tiro certeiro, não me chupes lágrimas antecipadas, pode ser um brigadeiro, armas e bombas, bombas e armas, o meu cabelo no chão e uma barata que passa, bombas, uma bomba, um estilhaço, um corpo suado no chão, sou eu.

domingo, setembro 28, 2008

Exposição de pintura de Zé lourenço


No dia 15 de Outubro, pelas 16h30, na Sociedade de Geografia de Lisboa, inicia-se a exposição de pintura de Zé Lourenço, que decorrerá até dia 19. É imperdível. Tem de se ir cedo, porque em cada dia encerra às 18h. Coube-me escrever umas palavras sobre os quadros em questão e são as seguintes:


A Cidade Regressada
Isabel Moreira

O conjunto de quadros em questão, feitos em técnica mista acrílicos e óleos sobre tela, subordina-se ao tema A cidade regressada. Concretizando, há, em todos eles, uma predomínio do observador próximo dos ângulos, das cores, das fissuras, das geometrias do urbano, aqui e ali assumindo-se aquele como voyeurista de espaços interiores, que por sua vez são eles mesmos interiores de outros – o que aprofunda um olhar quase impossível no quotidiano urbano –, até as tonalidades da proximidade do olhar se poderem perder no limite do céu, que é também o limite natural do urbano respirável.
As fronteiras dos elementos arquitectónicos têm uma analogia perceptível com a complexidade do pensamento, também ele labiríntico e multicolor. É nesta perspectiva analógica que o olhar sobre os quadros é de sobrevoo, isto é, como que o espectador é convidado a perder a gravidade e a planar sobre as imagens, como acontece com o quadro em que uma lua transparece num céu de edifícios em vez de um céu de nada.
Num certo sentido, os quadros poderiam estar deitados no chão e o espectador deitado sobre os mesmos a uma curta distância sem o peso da gravidade. Esta, a gravidade, só não salva - pela força analógica dos espaços cruzados, quadrados, aflitos, uns dentro dos outros - a vida interior de cada um, que se projecta de imediato para cada uma das telas, e nelas se perde, porque a vida de cada um é, como aquelas linhas, intrincada, infinitamente sujeita a aprisionamentos imprevistos e labirínticos.
Numa palavra, ainda que sem gravidade, quem vê estes quadros, se não cai, não pode não se ver neles mergulhado, fazendo retrospectivas e prospectivas da sua própria vida pensada.
Há, pois, aqui uma tese. A cidade regressada é o urbano visto pelo olhar interior, que sendo complexo é ele também urbano e assim (des)configura uma nova forma de ser cidade.

sábado, setembro 20, 2008

fim

encontra-me lá em baixo sem camisa que é como quem diz sem espererança e força-me a tirar o resto de mim para cima de uma mesa ao sabor do meu gin de sempre assim de repente sem pontos nem vírgulas mata-me no fim das escadas contra a parede dos meus sonhos sem pontos nem vírgulas fura-me a pele com a ponta do teu charuto diz-me ao ouvido com a tua insensibilidade fingida cheiras a frango agarra-me o cabelo num gesto todo até eu duvidar que amanhã ainda o tenho e duvida tu da minha certeza de que te estou a dizer adeus assim no fim de umas escadas contra a parede dos meus sonhos sem pontos nem vírgulas sem camisa dói-me o pingar de alcool nas pernas encontra-me cá em baixo a abrir os olhos para uma história com mais chicotadas do que palavras assim sem pontos nem vírgulas vou cair antes de morrermos para te recordar do sangue e da humidade bebe bebe bebe dizes e dizias vou rebolar nos teus braços picados antes de morrermos sem camisa que é como quem diz sem esperança amanhã eu acordo sozinha o sol já morreu ou já te queimou o rosto que antes de cair em cinzas no último degrau esboça um sorriso ao meu grito quando me furas a pele com o teu velho charuto hoje não me moves as pernas hoje encontra-me lá em baixo sem camisa porque sem esperança faz um pouco de ontem e assim sem pontos nem vírgulas inala-me e sai

quarta-feira, setembro 17, 2008

tem o futuro no passado e no entanto está quase morta pela liquidez do amanhã. os projectos a escorrerem entre os dedos como sangue de um corte nas sua extremidades, antes mesmo de terem o corpo que é a palavra projectos. às vezes um telefonema recorta-lhe um sorriso, às vezes o bater da música do engate salva-lhe um choro apátrida. nunca a consistência de uma mesma mão na nuca a dizer estou aqui contigo, nunca o plural.
da sua janela sai uma prancha branca muito estreita e nela um convite ventoso: um salto para o passado.

sexta-feira, setembro 12, 2008

matar o sangue que nos une a quem nos mata

matar o sangue que nos une a quem nos esmaga. eis a aflição de hoje, a de sempre inacabada, aqui pelos poros a sofrer de novo e outra vez o seu parto com dor. abre as pernas a mãe de tanta dor e a sala agita-se com a gritaria infernal do sangue que um dia vai ser um corpo a pedir: matar o sangue que nos une a quem nos esmaga. sair do ventre a bracejar numa sala cheia de água e não de ar, anos a fio sem respirar, ontem a pensar: talvez morrer a dizer: fiquem com os meus restos e não se atrevam a um suspiro rezado sob o meu corpo. a sala agita-se na gritaria recordada e o sangue espalha-se de baixo para cima até ao tecto, para cair em linhas tortas num mapa de maus presságios, uma criança esventrada por palavras a vida toda a dizer um dia: matar o sangue que nos une a quem nos esmaga. adormecer numa cama enorme, enrolada no corpo desconhecido pela vizinha arrogante, chorar sangue como a sua virgem e matar quem nos matou a fechar as pernas da mãe para uma saída cheia de dor, para percorrer a vida a dizer a palavra dor, uma e outra vez, com a pele mesmo em cima do sangue, que é o mesmo do polvo que nos mata.

terça-feira, setembro 09, 2008

anonimato

no silêncio do anonimato aparecem os novos aspirantes a déspotas.
eles estão por aí.
Kapos.

quarta-feira, setembro 03, 2008

Sonhos III

Tenho cem anos e estou viva.
Tenho 100 anos e estou viva.
Tenho exactamente cem anos e respiro a pensar: ele ainda bate, ele ainda bate, ele ainda bate.
Tenho 100 anos e sobrevivi a todos os ataques e respiro a proximidade da morte sentindo-me viva.
Tenho cem anos e por isso sei que finalmente vou morrer a qualquer momento, mas: ele ainda bate, ele ainda bate, ele ainda bate.
Tenho exactamente 100 anos e os meus órgãos desafiam um passado que se abreviou e não encontro um espelho que me explique este salto para o fim.
Finalmente estou velha, tenho 100, tenho cem anos, penso: vou morrer a qualquer momento, é hoje, estou livre, não me lembro de nada da minha vida, paciência, estou livre, ele ainda bate, ele ainda bate, ele ainda bate.
A minha morte interrompe-se abruptamente por um rosto acamado, de perfil, onde me dói o verbo amar.
A minha mãe ainda está viva.

segunda-feira, setembro 01, 2008

tela de dores

trinta e cinco agulhas entram-lhe pelo corpo adormecido na doença; pela doença. de costas, como que adormece num musical sem dores de recordações e de projecções; pelo meio uma irmã aflita; pelo meio um sono que não vinha há muito tempo. agita as pernas não feridas e adormece e acorda corroída de vontades, a dizer: talvez então viver.
deita-se na tela do seu pintor e começa um quadro do seu corpo reanimado. deitam-se, pintor e uma mulher nus, lado a lado, na tela enorme, e as cicatrizes de ambos fazem os cabelos de um só homem com sexo de mulher. cresce a tela com corpos misturados até um só, ela rebola, rebola, grita: pinta-me, pinta-me, e vai atrirando gin para cima de mim, eis-me nesta tela. ele estende-se nela, passa por ela, estreita-lhe as ancas e diz-lhe: aqui morreste, sabes? oferece-lhe o pincel trincado e pingado para um auto-retrato e ela chupa-o e assume a tinta como vinho e confessa que as trinta e cinco agulhas deram forma ao início das suas pernas por dentro: explode a chorar. explodem a chorar. abraçam-se em tinta preta. ela deita-se nas costas do pintor e pressiona o coração dele contra a tela: aqui mataram-te, ou é aqui que te matas, diz-lhe. deitam-se de lado, um contra o outro, dão os lábios molhados de alcool um ao outro, respiram lentamente cobertos de tinta vermelha a descontar passados e vão parando de chorar até só se ouvir a pintura de um uníssono gemido.
fica quieta, ouve.
olha para isto, suspira.

domingo, agosto 24, 2008

Stefan Zweig explica que Goethe tinha medo da música. Fico por aqui.
Embriagada pela música não posso ter medo, apesar de comprender muito bem aquele medo a que se refere o escritor. É que eu já estou, já sou tomada pela incapacidade de prender a razão a certos cuidados preventivos, para que a prosa, a poesia me não mate um dia.
(pausa)
Que linha tão ténue viu hoje no mistério da estrada de Sintra. Parou em todas as fontes. Morreu em todas elas e disse-se: está para muio breve o fechar de olhos sem pesadelos.
Que linha tão ténue.
Que luta tão dura.
Que grito tão opaco.
E disse-se: está para muito breve o meu fechar de olhos.
MÚSICA MUITO ALTA PARA NÃO CAIR SENÃO NELA.

quarta-feira, agosto 20, 2008

chover palavras, enquanto o demónio a consome
para sempre
chover palavras, para combater o monstro, aqui
para sempre
chover palavras, corrompida pelo demónio, a chover
para sempre
chorar o demónio interior, a chover, a chorar palavras
para sempre

terça-feira, julho 29, 2008

Desilusão

Ela pecou sempre por idealizar o outro. Por isso o outro sempre lhe surgiu como cumpridor e leal. Ela projecta-se no outro e faz do outro o que em si é o peso deste juiz interior e que lhe dita não trair, não mentir. Não faltar para com o outro. Eis a história da sua relação com o outro.
O outro não é o eco do nosso projecto interior. Quase nunca. Quando se marca em episódios essa evidência há uma queda na realidade que se chama desilusão e que sangra muito. A cabeça gira, mata-se em memórias de frases ditas, episódios vividos intensamente, pelos vistos só por um outro, e as costas pregam-se no chão, mas à frente do nosso corpo.
Ela lembra-se de há sete anos atrás, esse número maldito e por estes dias invocado: agora tudo é límpido. Os amigos silenciosos nunca foram amigos, nunca telefonaram, nunca apareceram, tudo esqueceram, porque não eram o outro. Recorda o dia em que prestou uma prova difícil e em que olhava para trás à procura de algum dos outros para ver se se via e neles a sua identidade: não estava lá ela nos outros; não estava lá ninguém.
Ficou apenas uma promessa, uma palavra de honra, silenciada e quebrada. Pelo outro inexistente. Lembra-se do N. e pensa: ironize, ironize.
É evidente que chora. É evidente que se chora.

quinta-feira, julho 10, 2008

Sonhos II

Um amor vindo de longe interrompe-se por um amor vindo de uma distância um pouco menos distante. Dilui-se a imagem do primeiro e arranha a pele dos braços para inverter a diluição. Não consegue e por isso recorre ao vício de um terceiro homem, pedindo: beija-me para que todos se afastem e com eles o medo de morrer amando. Ao fundo, uma andorinha desenha a sua vida no céu negro e azul, sem uma nuvem branca que acuda a sua desesperança. O amor antigo ressurge e tem um nome. Começa a chorar e encosta os braços ensanguentados nas costas que conhecia tão bem, tão bem, e diz: ajuda-me a amar sem medo. Ou: beija-me para que o vício do terceiro homem se dilua e com ele o medo de nunca emergir do pântano que é um pânico e que se chama morte lenta nos braços de ninguém. Começa a chorar e encosta os braços ensanguentados nas costas que reconhece tão bem, tão bem, e diz: eu.

quinta-feira, julho 03, 2008

Sonhos I

Uma cápsula por pessoa. Sete anos no seu interior para acordar numa ilha para um jogo.
Estaremos vivos, ouve-se.
Acorda e diz: tenho quarenta anos.
Ao mesmo tempo alguém que nunca a lê risca algumas palavras do seu livro. A caneta é vermelha. O jogo começou e sem dar por isso chega ao fim. Três pessoas a expulsarem-se mutuamente. Pensa: quem morreu, entretanto? Uma voz: o Pedro, o teu pai e sim, ela.
Escreve uma mensagem a um médico e pergunta se sete anos justificam outro tratamento.
O medo não morreu.

quarta-feira, junho 25, 2008

Mais Direito que me interessa: Consequências do Artigo de Opinião "O Ministério Púdico" de Fernanda Câncio

A Fernanda Câncio publicou um artigo onde denunciou o silenciamento a que o meu parecer sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo e o do Luís Duarte D'Almeida foram vetados pela Revista do Ministério Público. Está aqui. Entretanto, houve um esclarecimento da Revista do Ministério Público, tal como o a Fernanda Câncio dá conta, no qual se trancreve um mail que me foi enviado. Está aqui. Por seu turno, a Fernanda Cânciojá recebeu um mail de um membro da redacção da RMP dizendo que votou contra a não publicação dos pareceres e que considerava a proibição legal de casamento entre pessoas do mesmo sexo inconstitucional.
A resposta da RMP é pouco séria, omite dados fundamentais e obriga a esclarecimento rápido. Foi o que fiz nos cinco dias, assim:
Em primeiro lugar, enquanto autora, entre três, do livro apresentado, o meu profundo agradecimento à Fernando Câncio. Ele é duplo, já que para além desta apresentação, com coragem, denunciou o “Ministério Púdico”. Não posso deixar de reagir ao esclarecimento prestado pelo Dr. Rui do Carmo, director da revista, no link que a Fernanda disponibiliza. Vou por pontos.
1. O Dr. Rui do Carmo (DRC) só me respondeu - como transcreve - por insistência minha após semanas de silêncio, quando a proposta de publicação já tinha sido feita.
2. Na proposta tinha sido explicado que só nos interessaria publicar os pareceres tal como estavam apresentados, pois as opiniões contrárias já estavam publicadas e o contraditório, em Portugal, estava por fazer, precisamente, publicando-se, pela primeira vez, esta posição, e permitindo o debate na sociedade enquanto estava a decorrer o julgamento no Tribunal Constitucional, como aconteceria em qualquer país civilizado.
3. Por isso, a resposta, que só chega, repito, por inistência minha, é hipócrita, finge que não leu a proposta inicial - aliás, o DRC já sabia de início que nº da RMP que nos interessaria já estava indisponível, pelo que, talvez com gosto, nos fez perder tempo - e sugere, atropelando a liberdade de expressão e científica dos autores, que transformemos pareceres em futuras críticas de jurisprudência. É como pedir a um pintor que tranforme um quadro numa cadeira.
4. Houve, pois, silenciamento da defesa da inconstitucionalidade da solução legislativa actual.
5. O critério avançado pela Revista do MP de que publicaria os nossos pareceres, mais à frente, cobardemente, após a decisão do TC, desde que acompanhados de posições contrárias é, como à data foi transmitido ao DRC, curioso e inédito: estamos atentos para ver se de futuro a RMP mantém o critério. Sempre que, por exemplo, se publicar um artigo sobre o princípio democrático, terá de se publicar, imagina-se, ao mesmo tempo, um atrigo sobre o princípio autoritário.

sábado, junho 21, 2008

Entrevista com Pedro Rolo Duarte

Obrigada ao Pedro Rolo Duarte que me permitiu, em entrevista na Antena 1 que será transmitida amanhã às 11h, falar, para além do Consolação e dos meus livos, do livro sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo. A entrevista pode ser ouvida
aqui

quinta-feira, junho 12, 2008

Convite

APRESENTAÇÃO DA OBRA O CASAMENTO ENTRE PESSOAS DO MESMO SEXO

Os Autores, Carlos Pamplona Côrte-Real, Isabel Moreira, Luís Duarte d`Almeida, e a Almedina têm o prazer de convidar V.ª Ex.ª para a apresentação da obra O Casamento entre Pessoas do Mesmo Sexo.

A apresentação realizar-se-á na segunda-feira, dia 16 de Junho de 2008, pelas 18h00m, na Livraria Almedina, Atrium Saldanha, Loja 71, em Lisboa.

A obra será apresentada pela Doutora Fernanda Câncio.

terça-feira, maio 06, 2008

a criança magrinha aperta-se no seu corpo,
devolve-lhe a proximidade e pensa:
o afecto dói-me.

quarta-feira, abril 23, 2008

ouve o bater da porta de casa atrás de si,
passa a mão pela cabeça do cão e pensa:
afecto.

quinta-feira, abril 10, 2008

andar, andar, andar. ela está, no entanto,
sempre no mesmo lugar.
felizmente não tem flores - que odeia - em casa.
onde está sempre, há muito ruído e tanto silêncio
que não chega.
nem cai.
por uma jarra que fossse.
a sua.

domingo, abril 06, 2008

Regresso

Hoy como Ayer
Mañana como Hoy

Gustavo A. Bécquer



Ela a querer muito as condições de um regresso.
Como hoje, um acaso.
Anda a lutar contra o tempo com o próprio tempo.
Dói em segredo como a dor de uns pais de sorriso triste.
Dias raros, sem amparo, um pretexto: voltou, trémula.
Atreveu-se. Uma voz, um acaso a dizer-lhe que regresse.
É sempre uma pessoa que a morre; é sempre uma pessoa
Que a perdoa.
Regressa, então.
Lutando contra o tempo com o próprio tempo.
Os dias sem amparos são unidades de tempo.
E talvez um dia um desconhecido a faça parar de tremer
Ou agradeça o seu tremer
Ou entenda o seu tremer
Diria: eu não te estranho.
O luto está feito e ela sabe que hoje é ontem e que
Amanhã é hoje.
Dói. Mas vive-se.

segunda-feira, janeiro 28, 2008

Até um dia

Obrigada a todos os que me lêem.
A contradição é enorme, mas sendo isto o espaço mais público do momento, este vem sendo o meu espaço mais íntimo. Eu escrevo aqui para não perder o que escrevo; o mesmo é dizer para não me perder. Fui a última pessoa da minha geração (que conheço) a perceber o que é um computador e a conseguir aceder à net. Antigamente, escrevia compulsivamente e perdia os escritos pelos cantos. Esta coisa a que chamei de consolação permitiu-me armazenar no espaço o que poderia vir a ser um livro, bocados de um livro, vários livros, páginas de um livro, sem perder, sem deitar fora, sem me perder, porque só me interessa escrever sobre a aprendizagem da dor (disso sabem os poucos que lêem o que escrevo em papel) e por isso não posso parar de escrever, enfim, já escrevi muito sobre isso. Este espaço é, portanto, o meu armário. Não me ocorreu, para concretizar esta sensação de armário, numa pequena entrevista a uma revista semanal, aproveitar para dizer que tenho um blog. Durante meia hora de conversa em que se falou do meu livro e do meu amor pela literatura, não me veio à cabeça o Consolação. Não esperava que este viesse a ser lido por tanta gente. É muita gente considerando os textos em causa. Eu só soletro dor. E a vida das pessoas está cheia de dor. E a dor pesa. E mesmo assim há quem não repouse a dor e passe por aqui. Com gosto. Tantas vezes com coragem.
Obrigada a todos os que me lêem. É uma espécie de amor que existe na minha vida: chama-se intimidade e é muito forte. É uma consolação.
Neste momento, preciso de parar. Preciso de silêncio. Preciso de respirar. Preciso de escrever por dentro. Não sei quando volto. Esta necessidade de um retiro pode durar duas, três, quatro semanas, mais tempo, tanto faz. Mas ainda que apenas uma pessoa me lesse aqui, habituada a uma certa regularidade, não poderia ir embora sem um texto de verdade a dizer obrigada e a querer muito as condições de um regresso.
Até um dia.
Isabel

sábado, janeiro 26, 2008

Assim

Stronger than me
(Amy Winehouse)

Os sábados são assim
Stronger than me
Ela percorre um corpo devagarinho, cheia de dor, a dela, é uma dor com um epicentro aqui, aqui, enquanto se lembra de um refogado inútil, enquanto se lembra de um pastel de nata que ofereceu à indiferença; não é isso a sua dor, é isso que agudiza a sua dor.
Os sábados são assim
Stronger than me
Enrosca-se no banco de trás do carro e tranca a sua dor numa outra dor: uns olhos a dizerem nada, os seus olhos a dizerem por dois, a sua língua com a devoção de duas, as suas mãos a valerem quatro, uma dor, stronger than me, um dicionário a gritar-lhe a palavra que teme, aquela lá de trás que só se descobre assente em nós depois de mortos por dentro.
Os sábados são assim
Stronger than me
E ocorre-lhe citar a Anna Akhmátova de forma reles, como aquela gaja que disse de uma maneira muito precisa, num poema, assim:

Vinte e um. Segunda-feira. É noite.
No escuro uns contornos de cidade
Algum vagabundo escreveu que na terra pode haver amor

Por tédio ou preguiça todos acreditaram e assim vivem
Esperam encontros, temem a deus
E cantam canções de amor.

Mas a outros revela-se o enigma,
e o silêncio repousará sobre eles …
Descobri isto por acaso
e desde esse momento sinto-me mal

Isto passa, isto passa, isto passa. Stronger than me durante duas horas e meia
De horror,
Tu, de repente, N. Havias de lhe explicar numa mesinha, seja, por que vem ela tomando o lugar dos passarinhos que visitavam as nossas toalhas, a pedirem migalhas. Ela está ali no cantinho da mesa com asas quebradiças a sorrir para uma migalhinha dourada, e às tantas deita-se e a palavra que teme habita-a com tanta força que não se solta completamente quando recolhe as penas.
Não é essa a sua dor. A sua dor é até isto de ser passarinho doer.
Anda a estudar biologia por umas horas: beija e pensa beija-me, abraça e pensa abraça-me, aperta e pensa aperta-me, lambe e pensa lambe-me, assim, assim, assim, não vês que quase cheirou a amor?
- É irrelevante. O amor é uma necessidade passageira, ouve.
Que dor.
Os sábados são assim, N. A partir de hoje dirá sempre que o dia, essa coisa, o dia, essa coisa, correu bem, antes que morta de outros sons.
Despediu-se de ti de um abismo interior. Despediu-se do outro que lhe mostra o que é não amar.
Só dela não se despede.
Não pode.
Stronger than me, N.

terça-feira, janeiro 22, 2008

Separation

You in the high-walled fortress of sleep
I on an island of wakefulness
bird-haunted, trapped by mist

You eyeing the warm milk of suspicion
I drinking the green rain of the seagull’s ocean

You on the red deck of the last ferry going under
I on the amusement pier lost in the crowd

You going forward into the mirror
I crawling backward into the teeth’s cavity

You in sunglasses
walking towards the sea on a street that backs into the sun
I sliding on ice across the abandoned freeway

You in prison waiting for redemption
I in the asylum counting billiard balls

You climbing stairways, humping buckets of soapy fisheyes
I descending the silver elevators, escorted by clouds

You on the night bus that leaves from the ferry wharf and goes
across the stone desert to the other side of the earth
I on the top floor of the brightly lit hospital,
beating the glass with my hands

The night is cold
The poplars are grey in the headlights

You have opened the paragraph of silence
I was closing the volume of inaudible sound

Peter Boyle in Coming home from the world

sábado, janeiro 12, 2008

m a d r u g a d a
3 h 32
disse: a minha intenção de novo ano é esta. por isso foi para casa. conteve-se.
pensou: a noite é o que não aconteceu.
respirou. ou não.
recordou: na mesa foi uma outra pessoa.
(um sorriso a contrariar isto: ser uma pessoa reservada)
um dia é sempre uma véspera. mas só isso.
talvez amanhã.
leu menos do que queria. ou do que poderia
(ser-lhe dirigido)
a solidão a aumentar sem ruído. a solidão engorda.
onde morrer?
numa biblioteca. sem o lado esquerdo da cama a desertar o lado direito da cama.
numa biblioteca não se morre.
morrer então assim, ali a viver, porque outra vida não lhe foi possível.
de noite, aqui, tens razão quanto à palavra tu.
uma voz: tu não és um tu para ninguém.

segunda-feira, dezembro 24, 2007

25 de Dezembro

Lembro-me de uma janela
Na Travessa da Infância
Onde seguindo os rumores dos autocarros
Olhei pela primeira vez o mundo

(José Tolentino Mendonça)

Entram-nos novos olhos pelas esquinas e não entendem a tristeza ou avisam-nos do egoísmo dela. Escondemo-nos numa sala nova, cheios de sorte, o sol muito intenso, livros por ler, e o oratório de natal de bach a fazer coisa nenhuma aos nossos sentidos. É muito difícil explicar aos novos olhos que dói muito ter uma dor que se tem porque se nasce com ela, porque, como já se disse, o mundo nos bate à porta, mas não entra, eu não consigo.
Quando há uma trovoada de palavras a dizerem-nos a causa da nossa alegria esperada, a dor dói mais, mais ainda, porque nós sabemos que na linha de cima da vida temos tudo e que esta dor só se explica numa linha nos subúrbios do traduzível, onde uma infância amedrontada numa pele mal vestida tantos anos, um desamor quando começou a palavra eu, uma solidão nas mesas com uma família de dezenas de pessoas, a tal sorte que nós temos, esta dor é assim. Tudo o que temos por que tantos dariam dá à dor uma nódoa de culpa, de culpa, e assim se vive num cilindro dentro de outro maior cheio de sorrisos e de amor invejado e nós no nosso cilindro de dor e de culpa e, claro, de medo, essa besta. A infância pode ser um quadro móvel, a mesa de Natal no dia 25, uma mesa feliz, que sorte a nossa, mas os anos levam-nos as pessoas, e Deus também, que ficam com o nome de mortos, pendurados nos nossos corpos, e hoje vê-se aquela mesa com os sons feitos ecos, porque de memória, e há uma mão que não agarra o sal que lhe passam porque morreu, essa e outra mão; a mesa da nossa infância, ao longo doa anos, vai ficando cheia de sombras, os nossos mortos, que surgem com muita força no Natal. É por isso que o dia 25 de Dezembro tem de bom apenas a promessa de um 26, é por isso que quem tem uma dor que nasce consigo e vive em cilindros de medo desequilibra-se até à quase loucura nesta época em que o trânsito, as luzes, ou os apelos na rua são apenas os gritos dos mortos que desocuparam as mesas da nossa infância. Para as ocuparem, hoje, como nunca.

segunda-feira, dezembro 17, 2007

Ainda a primavera tão longe e pareceu-lhe sentir uma andorinha no novo parapeito da janela. Dirá: foste, tu, talvez. Ou: és tu, com olhos de azeitona.
Deitou-se no chão muito cansada e ouviu a voz desaparecida: hoje o teu medo é regressar ao medo, minha querida. Respira, respira, respira e não tenhas medo do medo. Esse teu corpo a tremer e essa tua vontade de gritar agarrada a uma fotografia é uma pequena queda num movimento que se dirige a uma promessa. Obedeceu, muito quieta. Agarrou tremendo um cigarro e um copo qualquer e chorou enfiada na pele dela, que dor a sua dor, que difícil não enlouquecer quando sente aquele abandono, quando refaz com o próprio corpo os gestos do outro corpo, muito só, com cigarros trémulos, também. Diz na sua boca a frase que já foi dela: eu sem ti ficaria sem um braço.
(dizemos a frase ao mesmo tempo: uno o som dessa tua frase de há anos ao som da mesma frase agora minha e pergunto: como faço para viver sem um braço, minha querida?)
Depois falou dessa voz desaparecida a uma pessoa que é verdade
(parece-me que ontem quem nunca te viu deu pelas tuas mãos pequeninas).
Foi uma andorinha, minha querida, uma primavera a entrar por aquele parapeito, a aterrar na minha almofada e a transpirar sem demónios na pele. Talvez não tenha dado pela contenção dos meus olhos, mas pousou a cabeça no parapeito do meu peito, senti o peso exacto na minha respiração e nem uma grade, minha querida, nem uma grade.

segunda-feira, dezembro 03, 2007

Para a R.

In Paris With You

Don't talk to me of love. I've had an earful
And I get tearful when I've downed a drink or two.
I'm one of your talking wounded.
I'm a hostage. I'm maroonded.
But I'm in Paris with you.
Yes I'm angry at the way I've been bamboozled
And resentful at the mess I've been through.
I admit I'm on the rebound
And I don't care where are we bound.
I'm in Paris with you.
Do you mind if we do not go to the Louvre
If we say sod off to sodding Notre Dame,
If we skip the Champs Elysées
And remain here
in this sleazy
Old hotel room
Doing this and that
To what and whom
Learning who you are,
Learning what I am.
Don't talk to me of love. Let's talk of Paris,
The little bit of Paris in our view.
There's that crack across the ceiling
And the hotel walls are peeling
And I'm in Paris with you.
Don't talk to me of love. Let's talk of Paris.
I'm in Paris with the slightest thing you do.
I'm in Paris with your eyes, your mouth,
I'm in Paris with... all points south.
Am I embarrassing you? I'm in Paris with you.
(James Fenton)

quinta-feira, novembro 29, 2007

A funcionária

Quase invisível, dir-se-ia, a sombra de lãs neutras, ali sentada, há trinta e cinco anos. Calhou que os olhos eram olhos de chorar aflito e ela ali a passar encontrou-se nesses olhos, daquela sombra quase invisível, dir-se-ia, uma sombra de lãs neutras. Precisava apenas de uma pergunta – o que tem?- para desensombrar-se num choro então audível, explicando a dor de ouvir uma repreensão injusta depois de trinta e cinco anos a sorrir por fora. Ali, de repente, no espaço de um corpo quase invisível, uma revolução: o parto das dores de uma vida inteira, vida subitamente revelada como uma introdução à mágoa de hoje, Angola abandonada, marido morto tão novinho, uma vida de viúva sozinha, de filhos seus e bastardos por criar, sempre perdoando, e agora isto: uma repreensão injusta a matá-la de vez.

sábado, novembro 24, 2007

Pensamentos imediatos II

As mulheres têm uma coragem muito específica: verbalizam o que sentem. E assim permitem a muitos (finalmente) falarem.
Para concordarem com elas.

quinta-feira, novembro 22, 2007

Pensamentos imediatos I

(Notícia no jornal de hoje: descoberta de fóssil mostra que já existiram escorpiões maiores que um homem)

Ainda existem. Ainda existem.

sábado, novembro 17, 2007

tudo o que acontece é um parêntesis na saudade.
presta-se asim muita atenção às portas e às paredes que são isto:
-uma pessoa a dizer até amanhã;
- um sono interrompido;
- a previsão da segunda parte do sono;
- um papel tingido de lápis dos olhos;
- o silêncio de um copo vazio;
- o silêncio de uma carta que não chega;
- o frio a crescer nas costas;
- o silêncio do fumo do cigarro;
- as pessoas ao fundo da fotografia;
- o silêncio dos livros por ler;
- o silêncio;
- os ruídos interiores;
- o silêncio;
- o silêncio.

terça-feira, novembro 13, 2007

Os seus dedos aventuram-se trémulos no teclado. O peso dos sonhos, mesmo os não recordados, dizem-lhe é hoje que te não aguentas. Frases, músicas, choros, sorrisos dela são o estuque deste tremor. Penteia-se ao espelho e imagina a perplexidade alheia: tão nova, tão bonita. Minha querida, por quê?, pensa. Tem um remoinho no centro da cabeça que puxa pelas lágrimas de fora para dentro, as sombras estão no lugar, a chave do carro dita a luta de sempre: um dia por cumprir. Sem enlouquecer. Os corpos todos já não amparam tanto medo físico, chegou o dia em que o peito esmagado por outro não se dá por vencido, nem por quinze minutos. Sim, sim, claro, diz, que interessante, diz, e por dentro a gritar desaparece porque estás a diluir-me. Fica para ali cheia de humidade sem dono ou sem intenção ou sem amor. Na noite anterior, numa estrada ondulada, deu pela sua solidão, não como sempre, mas num tiroteio que a conduziu, silenciosa, até à morte de tudo isto que é dizer boa noite. A invenção do amor é o poema que referencia uma nova manhã.
Pode ser que ninguém dê por tanta pele amedrontada. Pode ser que ao entardecer um sorriso tenha a generosidade de um sentido.

sexta-feira, novembro 09, 2007

Anda a ler exortações. Deus traiu os séculos todos e afinal não existe. É por isso que a cama dói de noite. A dor é sempre uma ausência. Por isso dor e solidão são a mesma coisa. Imagina uma pergunta, o que te fez sofrer?, e sabe a sua resposta, foi o normal, amor e morte, se é que não são sinónimos. De noite concentra-se na mão direita, no antebraço, no pescoço, na testa, nos olhos, e por aí fora, obediente aos exercícios descritos numa folha, vencer a ansiedade, pensa: deus não existe, e masturba-se com rapidez, até matar deus de vez, que já era apenas uma ausência, até dizer, enquanto se esfrega: que restará de deus se pensar nele em minúsculas?
De manhã, quando lhe dizem que o jornal não chegou, perde a cabeça e explode a chorar.

segunda-feira, outubro 29, 2007

Memórias

Um dia encostou a cabeça nos meus joelhos. Quinze anos depois, uma frase de alguém a dizer-nos o que se não ouve: eu estou ali com a tua cabeça nos meus joelhos, enterro os dedos num cabelo muito espesso e espero. O gesto foi apenas esse.
Há pouco tempo dizia-lhe: se tu morresses seria como amputarem-nos um braço. Dias depois, é ela a amputada. Quase a chorar sobre uma lápide e num ápice é já de manhã, houve um serão entre parêntesis, gostava de te ver decomposta? Diz não, pousa os joelhos nas datas brancas e de manhã a tua morte interrompe-se: sou a mãe dele. E numa frase assim começa a escrever: um dia encostou a cabeça nos meus joelhos. Quinze anos depois é o mesmo corpo, talvez mais bonito, e pensa: que bom seria beijar-te.
Ele regressaria à sua vida sem a possibilidade de sentir a dor daquela morte. Dir-te-ia: morreu-me uma mulher. Então, talvez com a cabeça encostada no meu peito nu, me pudesses dizer: fala-me dela.

segunda-feira, outubro 22, 2007

J.

A frase:

- és tão alegre
.

Depois lembrou-se de um texto antigo: você tem um potencial de alegria deslumbrante, mas todos os dias mata a sua felicidade. Nesse texto, reproduzida, a voz que escuta com mais atenção.

E de repente, tantas alegrias mortas, tantas mortes passadas:

- és tão alegre.

No seu silêncio, a escutar a frase, uma contenção violenta para não explodir a chorar. Ou para não assustar aquela boca de sabedoria instintiva dizendo: se tu soubesses a alegria que me dá dares pela minha alegria. Porque de repente sou eu, de novo, assim: tu a fazeres de espelho num lençol desgastado. Entendes isto? Se tu soubesses da missa metade, mas não sabes, pouco importa, estou tão cansada de contar de me contar de contar-me e depois nada, psicologias suadas, inúteis, presunçosas e a falta que afinal me fazia quem antes de saber dessa falta diz de repente:

-és tão alegre.

sábado, outubro 20, 2007

Sábado

E chega uma dessas manhãs. É nelas que se abatem os cinco dias sem tempo para abaterem, sem corredores onde respirar. Respirar. A tristeza é um cobertor que varia em camadas: uma manta fina sexta de noite que acorda feita em lã grossa, muito pesada. As noites de sexta são então o início da tristeza.
E chega uma dessas manhãs. É nelas que se abatem os planos da véspera, morrem, um a um, o peso atira-nos para o chão. Sem ar. Há uma febre que nasceu de noite, quando a vida ficou mais ou menos absurda: uma nova licenciatura por cumprir, à conta de provas de esforço ou uma, duas, três rejeições choradas sem equilíbrio, um não quero ver-te a fazer sangue, a mãe a internar a filha, e assim chega uma dessas manhãs.
É nela que dor a dor se faz cada raiz de cada cabelo. Consciência do corpo é o mandamento em cima de um tapete azul, por isso consciência absoluta da febre, dos pulmões fechados, dos poros sebáceos. Dói, dói, dói e assim começa o início do meio da tarde. Os cinco dias sem tempo, sem tempos, a engrossarem o cobertor até ao segundo muito situado em que a música nos ouvidos fica mais baixa: este grito lancinante acompanha a febre que cresce e o corpo chora pelos olhos, vagueando entre os móveis abandonados, olhando uma fotografia até a desfazer em pedaços.
E acaba uma dessas manhãs. Quase, quase louca: afinal de pé, com todos os planos por incumprir.

terça-feira, outubro 09, 2007

Consolação

Está à beira de um ataque. Um ataque é uma loucura instalada a prazo nesse corpo. Ser a prazo não alivia em nada a dor do ataque, porque nesse prazo a dor é infinita, mas hoje o espaço é o que se sente antes, mesmo antes do ataque.
Está onde deve estar. O que inicia a sensação real de peso interior é estar onde deve estar. A sua pele, os seus olhos, pior, o seu olhar, tudo isso deve estar aqui, onde um computador dita ordens por cumprir e onde uma porta se abre de dez em dez minutos a marcar a normalidade que é isto: trabalhar.
O que seria normal, no entanto, está a dizer-se por dentro, mudo, mas com a força de uma gritaria numa sala almofadada, um quadrado perfeito, branca, muito só. O que seria normal está a desenhar uma fuga: o carro aqui tão perto, pensa, era só ter forças para chegar a ele, acelerar, passar a cancela, entrar em casa e mergulhar na prisão voluntária da sua cama, ali onde vomita o peso do medo e hoje, particularmente, o peso do cansaço, que também é medo.
(Tudo é medo).
Não quer morrer. Quer adormecer. Parece simples este querer, mas não é, porque o demónio do quotidiano sai-lhe pelos lábios verbalizado num sim, claro, almoço às horas tal e tal.
Engole um remédio branco para aliviar a exigência de descanso que saiu do remédio azul e para poder circular sem cair dos saltos dos sapatos, a pedir aos gritos que a levem daqui para um lugar onde possa dormir; não é morrer, é dormir.
Os sonhos da noite passada estão magoados por uma voz materna que lhe diz estás louca, é esse o sonho que treme nos nós dos dedos e que se interrompe quando o rapaz entra na sua sala e pergunta: estás bem?
Não mente, diz que está como está, mas a resposta sem a fronteira da sobrevivência num vestido, mesmo de algodão, seria assim: hoje estou com a cabeça pesada, mas pesada num sentido que não dá para esvaziar em palavras. Olha, estou com o peso que me avisa que a qualquer momento vou gritar e dizer eu não posso mais, eu ando para aqui cheia de medo e de mortos às costas, a minha cabeça parece uma areia movediça e engole-me pelos pés. Vou ali e já volto, mergulhar no mar, ou numa cama, e preciso de chorar muito, e preciso de ganhar coragem e dizer que este ano devia estar sossegada e não fazer mais que isto. Eu odeio chegar a casa às onze da noite com medo do meu corpo, do meu corpo dentro da minha cabeça. Eu preciso de fugir de mim, da minha família, do sangue lento que é a dor de todos eles, eu preciso de fugir das minhas plateias, eu preciso de agredir a ausência a que me agarrei tantos anos, e que se chama Deus, esse filho da mãe, literalmente, e culpá-lo de tudo, foder a pensar nele, ou Nele, já viste que alívio e que dor culpar uma ausência por esta merda toda?
É isto. A dor antes do ataque é assim.
Eu não quero morrer. Eu quero, eu preciso de adormecer.

quarta-feira, outubro 03, 2007

Evangelho

silêncio. silêncio. silêncio. depois, adormeceu. então, o silêncio deixou de dizer-lhe o que magoa.
de manhã, o silêncio chama-se contenção. à hora do almoço, o peso do silêncio finalmente parte-se. consegue. chorar.
dá com o evagelho de hoje. lembra-se de quando era seguidora.
lê:
Evangelho segundo S. Lucas 9,57-62.
Enquanto iam a caminho, disse-lhe alguém: «Hei-de seguir-te para onde quer que
fores.»
Jesus respondeu-lhe: «As raposas têm tocas e as aves do céu têm ninhos, mas o
Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça.»
E disse a outro: «Segue-me.» Mas ele respondeu: «Senhor, deixa-me ir primeiro
sepultar o meu pai.»
Jesus disse-lhe: «Deixa que os mortos sepultem os seus mortos. Quanto a ti,
vai anunciar o Reino de Deus.»
Disse-lhe ainda outro: «Eu vou seguir-te, Senhor, mas primeiro permite que me
despeça da minha família.»
Jesus respondeu-lhe: «Quem olha para trás, depois de deitar a mão ao arado,
não está apto para o Reino de Deus.»
termina a leitura. recorda-se das interpretações que salvavam o texto.
sente uma vaga náusea.
e regressa ao silêncio.

terça-feira, setembro 25, 2007

Segredo

Às quatro da tarde diz volto já
E só ela sabe daquele deserto
Os lençóis para tremer até passar, até passar, vai passar?
Vou passar-me
Depois volta,como se nada fosse
Do mundo,ali,sob o edredão
Onde se conta: duas horas para recuperar e dizer
Então, sempre fazemos assim ou assado?
Dizem-lhe: que bonita
Pensa: que alívio
Os lábios da sua mãe são também lábios de mulher
Perdido um, dois, três
Não grita, antes sussurra: podias ser
E escuta: não sou bonito
E olha as mãos que comandam as dela
Ao sexo
Ali onde de muitos em muitos anos
Repousa também uma cabeça
E escreve: que literária, a minha dor
A minha perda
A minha vida
Uma dia afogou-o no peito e respondeu:
Claro que sim, também gosto
E noutro dia queimaram-se em delírios
Encharcados, sovados, engolidos
E fez-lhe um corte na nuca, escondido pelos cabelos
Lambeu-lhe o sangue a gemer isto é tudo um sonho
E chorou

Amanhã espera sobreviver às quatro da tarde

quarta-feira, setembro 12, 2007

sete meses hoje

sete são as chagas de nome meses que correram entretanto. numa mesa, por acaso, dizia-me alguém que deu muito por ti. aterras de repente, nesses instantes, no meu corpo, um estrondo sem som, antes muito peso, és uma bomba atómica de dor. tanto de deus neste número sete, descansado ao sétimo dia, ausente os dias todos, grito. nunca te conjugarei no passado. amo-te.

sábado, setembro 08, 2007

Regresso de uma viagem de muito longe

Afinal sempre se regressa e só por duas vezes o medo me encolheu, como hoje, já regressada, entre um golo de vinho e uma passa de cigarro, os restaurantes são os meus campos de concentração, sobretudo quando é novo o vizinho em frente e, por isso, de repente, ali no espaço entre um golo de vinho e uma passa de cigarro, o sangue encosta-se todo na camadinha superior das veias e o medo corre sem aviso, cá estou eu outra vez, digo, e aguento, aguento, afinal aguentei o oriente a seco e, passado o medo, digo vem cá e dou cabo da dor que me fica como sei.

sexta-feira, agosto 17, 2007

Agosto II

em Agosto é usual, dizem-lhe, tirar um dia de férias para isto. uma multidão no número da primeira de três senhas: 365. um ano de pessoas e agarrada à sua vez, senta-se a um canto
E pensa:

- vem aí, vem aí, vem aí.

(as costelas apertam lentamente, mais e mais, o seu coração, respira a lutar contra essa opressão)

E pensa:

- nunca vou ficar boa, nunca vou ficar boa, nunca vou ficar boa.

(não vê as pessoas, mas os pormenores delas que as matam, que a deixam viva em agonia, vê o salto agulha de uma menina apressada, vê o som do verniz a escamar, da mulher ao lado, vê os olhos cegos da rapariga “prioritária”, vê o choro da criança ao colo de um colo qualquer, vê o homem de olhos amarelos, esbugalhados, a ser medido e a gritar um metro e sessenta, vê a pessoa que lhe morreu nisso tudo, vê a sua própria lágrima cair-lhe nas costas da mão que treme, vai à casa de banho e sai de lá um avental a dizer que aquela é só de serviço, mas o avental tem pena dela e diz sente-se aqui e chore à vontade)

E pensa:
- isto dói tanto, isto dói tanto, isto dói tanto.
(às vezes pensa na sua mãe, pensa no seu pai, dizendo, muda, mãe, pai, pai, mãe; às vezes entre dois gritos agudos da máquina que dita o número do cidadão a atender vê-se morta, um alívio, diz: porque não aguento mais esta dor. mas dói mais saber que não morrerá, pai, mãe, mãe, pai; às vezes o telefone toca e há uma voz que lhe permite explodir a chorar e confessar)

O que pensa:
- eu não ando nada bem. nada. tenho muito medo. estou muito só. eu não ando nada bem e tenho ataques de pânico difíceis de soletrar.

E ouve:
- por que não telefonas? é que não me interessa nada viver assim.

E pensa:
- preciso tanto do meu irmão.

(alargou as costelas depois das cinco, já sem febre, e do número 365, chorando muito este ano de morte, de medo e de desencontros)

quinta-feira, agosto 16, 2007

Agosto

Esteve fora e hoje parece-lhe que nunca saiu do parapeito da janela
Lá onde se acumula o pó a contar a sua ausência
E hoje a dizer-lhe: regressaste e olha o que fizeste
O que nos fizeste
Ou: por onde andaste?
Andou por um lugar qualquer e desses dias interessa apenas
O instante em que olhou o céu
Estava caída numa areia branca muito preta pela noite
E não sentiu absolutamente nada
Sorriu para umas palavras que lhe chegavam de cima
Numa outra língua
Não as ouviu
Ou ouviu o rumor delas a não atrapalhar aquele céu
E pensou: eu, aqui.
Depois voltou e disse
Estive fora e parece-me que nunca saí do parapeito da janela
Estou para aqui decomposta neste pó que me conta a ausência
Andei por um lugar qualquer a amassar-me toda
Um dia deixei de respirar
Depois dormi muito e nadei o mais que pude
E houve o instante em que olhei o céu
Cheio de estrelas mudas, estava tudo muito quieto
E eu não sentia nada, nada, nada
Olhava e pensava: eu, aqui.

terça-feira, julho 24, 2007

Belgrado

E depois há uma música
Que é sempre a mesma
Que são muitas outras
Que é sempre a mesma
Que eras sempre tu
E depois disseste-me com a voz nas pálpebras:
Eu não tenho esses séculos de fronteiras
Eu não tenho a paz de saber das minhas memórias
Eu não sou eu até que me não doa a casa magoada do meu tio
E a grávida morta porque morta antes a mulher do assassino
E por isso dizias-me, sem uma lágrima na voz:
Isto é só isto é a dor da identidade;de que falas, Isabel?

E depois agarravas uma viola e era uma outra voz
Que era sempre a mesma
Que eram muitas outras
Que era muito tua
E o som da tua voz inutilizava o significado das palavras
Que não entendo
E que me dizia tudo
Um tiro de raízes ciganas, pelo meio de todas muçulmanas, croatas, albanesas
E as tuas, isso que projectava a pergunta: de que falas, Isabel?
Os olhos cerrados de um sérvio a recuar aos sons
Que eram tantos
Que eram muitos outros
Que terão sido sempre aqueles
Cantados antes que gritados
Ou chorados
Ou sangrados
De que falas, Dragan?
E tu a dizeres: eu preciso de tempo
E que fosse a partir de um sítio com o nome de lugar novo
E assim a dizeres-me, de viola na mão, que precisas de viver
Com a paz muito sofrida da palavra eu

domingo, julho 15, 2007

angústia

O Céu não é humano
Bohumil Hrabal (Uma solidão demasiado ruidosa)
O mundo tem o tamanho da angústia
(na nossa mesa, ontem, perdi-me dele)
acordei às cinco da manhã
entre a nossa mesa de ontem
(onde me dói sempre menos o medo
onde me dói cada vez mais a mesa)
e uma troca de mensagens ousadas
saindo um pouco nelas
vindo-me depois delas
num espasmo de medo, de desequilíbrio
O mundo tem o tamanho da angústia
hoje diria, meia nua, meia louca:
O céu não é humano
e pediria de volta a puta da mesa
para te recordar nela o livro que te ofereci
O mundo tem o tamanho da angústia
e hoje estou nem mais nem menos
os sacanas enraivecidos, os sinais de trânsito
atiraram-me para uma berma
e eu disse-te: vem visitar-me, como se de partida
vou morrer
– grito, na minha Avenida de Berna
e o sangue corre dentro disto
com força, com pressa, com maldade
um veneno
O mundo tem o tamanho da angústia
O céu não é humano
a angústia dói, corrói, infecta, inflama
sou medopositiva, angustiadopositivia
escorro este demónio atrás dos óculos escuros
hoje acordei às cinco da manhã
e o gajo que me excitava toda
parece que afinal não
o dia amanheceu com uma desilusão banal
muito invulgar, nesta cabeça por um fio
a angústia tem o tamanho do mundo
o céu não pode ser humano
e hoje não há orgasmo que me safe

sábado, julho 07, 2007

20 anos

Para o meu irmão João

Olhei-a na cadeira lá ao fundo, esperando a sua vez de fazer exame
Caracóis desordenados, olhos aflitos com um tempo absurdo:
Vinte minutos
Uma tragédia, a sua ópera: vinte minutos
Saber se depois deles as mensagens serão de vitória ou de derrota
Chora-se muito naqueles corredores
E eu tenho saudades de me vestir assim
Decomponho as pregas de todas as roupas de vinte anos
Por dentro, corações, pulmões, vértebras, fígados
E o sangue no meio deles, tudo a mexer
A sobreviver
Para o mesmo terror: vinte minutos
A merda do exame que chumba outra perspectiva
Chamar, neste dia, ao mundo prova oral
E tremer, tremer, tremer
Odeio isto
Amo isto
Sou isto
Já não sou isto
Envelheci
De noite, um rapaz de vinte anos bebe os vinte minutos vitoriosos
A sua última ópera de sangue: chegou ao fim
Sussurro entre duas lágrimas: chegaste ao início
Tem a pele muito macia, este rapaz
Os olhos quase tristes, de tão vazios de fechaduras
Cruéis, amáveis, por não terem a penumbra dos meus
Deles têm o castanho límpido de há oito anos
Quando enterrei os meus últimos vinte minutos
E parti a conquistar o mundo e a vida
Com um diploma suado na mão
E um saco de energia e esperanças nas costas
De noite, um rapaz de vinte anos olha uma mulher
De vinte anos
Dá-lhe a sua vida por viver
Que é dar-lhe um corredor todo, onde ele mesmo um dia será outro
Ou não
Tem vinte anos este rapaz que de noite entra pelos meus ouvidos
Com os sons dos amigos a gesticularem e a rirem em seu redor
A nossa casa menos eterna
Os nossos pais, de repente
Pareceu-me
A chamarem por nós
Mais uma vez: só me dói o que é verdade
Tenho saudades da minha infância
E depois tenho saudades de doer muito a espera
Pelos meus vinte minutos de horror
De me vestir assim, como a rapariga na cadeira lá ao fundo
E depois tenho saudades do saco que levava às costas
Quando me anoiteceu o dia, como ontem, ao meu irmão

segunda-feira, julho 02, 2007

Luto

É excessivo o cerimonial em torno da morte, dizia.

(Velório, missa de corpo presente, funeral, missa do sétimo dia, missa do mês, visitas a casa, choro social, dor colectiva, pancadas a percorrerem um teatro de flagelação)


Um dia, a morte pesou-me como nunca e também aí me pareceu excessiva a marcha lenta em redor daquele corpo, ou daquele acontecimento.

(No entanto, nesses dias é permitido e esperado que se chore de pleno direito, sem espaço para mais nada, o nosso rosto é um espaço exclusivo da dor da perda, dos beijos de consolo, das mãos dos amigos que por ali passam, que compreendem, que se afundam connosco na tragédia do adeus que se adia nas cerimónias inventadas para isso mesmo, entendes?)

Depois de encerrado o capítulo do coração aberto aos amigos próximos e distantes, vem a tragédia do regresso à vida habitual.

(É uma tragédia, porque se vive com o rosto posto na saúde e o coração enterrado na aflição)

Pouco a pouco, é esperado de nós que voltemos a sorrir sem a sombra daquela morte que nos atirou para uma cama a soluçar, porque já passou o dia, a semana e o mês em que o choro tem lugar para ser abraçado, ou para antes disso ser comunicado, ou para antes disso ser esperado, ou para antes disso ser normal. As perguntas acerca de como vai o nosso coração sem ela começam a espaçar, porque cumprimos o devido.

(sorrimos, trabalhamos, bebemos, fumamos, fodemos, somos, em suma, pessoas devolvidas ao mundo dos outros)

Mas, na verdade, há a hora em que chegamos a casa.
(Passado o tempo em que deixa de ser razoável que se pergunte por ti, ou passado o tempo em que a pergunta por ti é uma raridade que espera uma resposta feliz e antes descobre uns olhos a explodirem a dor quotidianamente disfarçada, passado esse tempo, o espaço chama-se silêncio, ou duplicidade, e a verdadeira dor, ou solidão, então começa)

quinta-feira, junho 28, 2007

Diálogos II

- E tu, de onde és?
- Sou de uma terra lá do interior, que não existia até passar a existir, por causa de uma linha de comboio.
- Estás a gostar de Portugal?
- Ainda só conheço Lisboa. Nunca fui à praia. Não sei nadar.
- Tens sido bem tratado?
- Não me tratam mal. Estranham-me. Mas eu estranho-os com mais estranheza. São quase todos casados e são todos dos que levam.
- Tens cuidado contigo?
- Nunca me roubaram nada. Quer dizer, até hoje, só me roubaram oito bicicletas.

sábado, junho 23, 2007

TU POSSÍVEL

ONTEM, QUANDO FALEI DE TI, FIQUEI ASSIM POR DENTRO, UMA EXPANSÃO O TU SERES UM TU QUE É POSSÍVEL, MESMO QUANDO ESTÁS FEITO NUMA PALAVRA, QUE É O TEU NOME: DIGO ASSIM: POR ACASO FALEI SOBRE ISSO HOJE COM O N., E QUANDO O TEU NOME SAI DOS MEUS LÁBIOS, INTERROMPO A EXPRESSÃO MUSCULAR QUE OS OUVINTES ESPERAM DAS MINHAS SOBRANCELHAS, PORQUE ME EXPLODES NUMA VAGA DENSA, QUENTE, UMA MEMÓRIA JÁ, COMO SÓ QUEM É UM TU POSSÍVEL PODE SER, ESTOU ALI NUMA MESA, ADORMECES-ME O CORPO PORQUE ME DÓIS, SÓ ME DÓI O QUE É VERDADE, E CRESCES ASSIM SEM AVISO, NO MEIO DE DUAS PALAVRAS: POR ACASO HOJE FALEI SOBRE ISSO COM O N.: E PARECE-ME OUVIR: ISABEL, EM QUE PENSAS?, MAS SERIA MAIS CERTO: ISABEL, ONDE ESTÁS? TU NÃO IMAGINAS O QUE ME ACONTECEU ENTRE DUAS PALAVRAS: POR ACASO HOJE FALEI SOBRE ISSO COM O N.: O MUNDO CONGELOU-SE NUM SEGUNDO E, COMO EXPLICAR?, ESTA DOR, TU, AS NOSSAS MESAS, NÃO, TU, O QUE SINTO POR TI, NÃO, TU, UM INVASOR SEM ARMAS DE FOGO, ATÉ NÃO RESTAR NADA DE MIM, FIQUEI PARA ALI OCUPADA POR TI, QUANDO O TEU NOME SAIU DOS MEUS LÁBIOS ENTRE DUAS PALAVRAS: POR ACASO HOJE FALEI SOBRE ISSO COM O N.: ESTÁ A DOER-ME NÃO CONSEGUIR EXPLICAR ISTO, PORQUE QUASE ME NÃO PERTENCE, TALVEZ ENTENDAS, PORQUE ME ENTENDES TUDO, ERAS TU A ABRANDARES A ÂNSIA COM QUE FALO NAS MESAS TODAS, SEM PARAGENS QUE ME DENUNCIEM, ERAS TU A ACAMARES-ME EM TI, NO QUE SINTO EM TI, CONTIGO, PODE SER ISTO O AMOR?, UMA NOSTALGIA PELA QUAL SE CHORA SEM RESSENTIMENTO, ANTES COM INTENSA COMOÇÃO, ERAS TU, OU A MEMÓRIA DE TI, AS NOSSAS MESAS, UM TU POSSÍVEL, NÃO, ERAS TU, MAS O QUE ME DOEU FOI SENTIR QUE ERAS EU, SEM NINGUÉM PODER ENTENDER UMA COISA DESTAS, ISABEL, ONDE FOSTE?, SABER QUE FUI EU POR DOIS MINUTOS E SABER QUE SÓ TU ENTENDERIAS ESTE TEXTO CARDÍACO E SABER, QUASE CHORANDO, O QUANTO PRECISO DE UM ABRAÇO TEU, FOSSE QUANDO AS COSTAS DAS MINHAS CADEIRAS NÃO ME AMPARAM.

segunda-feira, junho 18, 2007

Diálogos I

- E hoje tens medo de quê?
- Hoje tenho medo de ter chegado a casa.
- Só?
- É muito. Ter medo de ter chegado a casa é muita coisa. E tive medo de ficar de pé numa cozinha a ouvir o som, a voz da mulher de sempre. Tive medo que ela visse o meu medo. Calha que a conversa está presa a uma dor comum e enquanto se aquece a água para o chá cria-se um espaço onde se chora sem estranhar esse choro inaugural. Rompo assim a teia de aço do meu medo.
- Uma bela imagem.
- Uma teia de aço, assim o meu medo. Cheia de fios e buracos desenhados com rigor, o ar a passar entre eles sem que se sinta que passa e o mundo para lá da teia sufocado nela e desenhado por ela: a minha grade. Quando a conversa da dor comum se inicia, o aço rompe-se, explode sem som, e eu começo a chorar, umas lágrimas a descomprimirem a aflição deste peso, e digo o que posso dizer, mas por dentro digo: que alívio, mãe, estava quase a gritar socorro e a dizer-te que estou muitas vezes por um fio, não de aço, um fio fraco como a contenção do meu choro, isto dói que farta.
- E agora?
- Lembrei-me de uma cena desgraçada do filme que quero fazer. Um filme irrealizável. A mão a passar na testa do homem ressuscitado, a descobrir nela duas entradas cavadas num tempo passado longe de mim.
- Tu tens saudades, não tens?
- Tenho uma dor. Uma dor muito forte, uma ilha num mar de gente e de coisas por que devo estar grata, mas como dizia um homem no filme real que vi ontem no cinema, elas não passam da minha pele. O mundo bate-me à porta, a minha pele, e não entra.

Eu não consigo.

quarta-feira, junho 06, 2007

Intervalo

Os dias perderam-se numa torneira ferrugenta
E sinto o gotejar deles, os dias, dia-a-dia
Numa torneira ferrugenta, a minha garganta
A minha memória feita em cano cheio de atritos
Os atritos a sentirem aquele gotejar neles, por eles
Protection – Massive Attack, ouço
Por um fio, massive, massive attack, penso
Os dias são plurais, não por serem muitos
Uns atrás dos outros
Os dias são muitos porque tudo isto e eles também
Pesa de mais
Um mais um são dois a pesar, são dois a doer
A corroer
Pingos muito lentos, de noite, na minha cama
Cada dia mais difícil, cada noite mais escura
Mais pesada
A pedir protecção, a pedir por uma protecção
Cansada de medo: massive, massive attack
Até que acontece qualquer coisa
Uma mesa muito familiar, a hora antes da hora
Das outras mesas
E uma pessoa que me vence o tremer e o temer
E há um desejo forte de ficar ali para sempre
Ou ficar para sempre como ali
Sem tremer nem temer
Hoje é dia de intervalo, penso
Os dias uns atrás dos outros caídos numa torneira
Numa torneira ferrugenta, a minha garganta
O meu corpo, a minha angústia, isso: a minha vida
Mas hoje é dia de intervalo
E ainda se dá o caso de ter dado por não haver sal
Na minha mesa familiar
E de ter recordado o sal que ali fazia falta
Nuns poros tão aflitos como os meus

quarta-feira, maio 30, 2007

de manhã

levanta-se o medo da almofada e a besta assume a forma de meio crânio. é ali que pesa, é ali que insiste em enlouquecê-la quase, em bater-lhe quase, em matá-la quase. os gestos de sempre, de manhã, palavras gastas, os gestos de sempre, tomar banho, com medo, medo, medo, medo, palavras gastas, o ralo da banheira, já o escreveu, já o temeu, já se morreu ali, o carro, sempre o carro, palavras gastas, a música a ferver, hoje de manhã, fervia muito, cantava mais alto que os pregos a começarem no seu colo, a fazerem-na trepar-se por eles, até ao céu, perder o chão. não está a escorrer nada, nada, nada do que sente, este medo, estes pregos, a ferrugem deles seria boa, agora que pensa, esfregar-se toda nela, e sentir, que é como quem diz sentir-se, que é como quem diz salvar-se. todos os dias uma guerra, uma guerra com o medo como sangue, o desequilíbrio como inimigo, o desequilíbrio como ocupante, uma potência, uma guerra tão sofrida, pai, uma guerra tão violenta, mãe, e de manhã apetece muito desistir e dar o crânio ao inimigo, ou oferecê-lo a uma nova pátria, e depois de um longo e enlouquecido grito chorar, chorar e chorar no ombro que escuto com mais atenção.

terça-feira, maio 29, 2007

de noite

tinha o corpo muito curvado, com medo dos espaços que sobram entre as dobras do edredão. nesses espaços o ar arrefece com intenção e o silêncio dele pesa entre os joelhos, entre as axilas, entre o queixo e o ombro, entre ela e ela, um espaço a dizer o seu medo, ou um amontoado de espaços a dizerem que é ela que sobra, ou a dizerem que é ela que lhes sobra; uma dor assim apertada, a noite expande-se pastosa, maligna, por cima da curva que é o seu corpo a suster a respiração, a suster a aflição, a suster a duração limitada do seu equilíbrio; uma dor assim apertada, a pedir muito por uma voz, a pedir muito por um corpo, a pedir muito por uma expiração, a pedir muito por um amparo, antes que solto aquele demónio, aquele demónio feminino, que espreita ocasionalmente, está ali atrás da porta, está ali por cima da cama, está ali por entre as dobras do edredão; uma dor assim apertada, a noite é uma procissão sem velas, ou ela um corpo não velado, ou ela uns olhos a explodirem o grito de terror, ou ela uns dedos comidos na sua guerra meticulosa; uma dor assim apertada, chamada solidão, entre os joelhos e entre as dobras do edredão, o desequilíbrio a qualquer momento, num momento imenso, quando o telefone não toca, uma dor assim muito apertada, com a consistência do medo, com o preço de duas lágrimas, de duas longas lágrimas.

domingo, maio 20, 2007

Ouve-se Sempre a Distância Numa Voz (Rui Nunes)


É a segunda vez que escrevo sobre um livro de Rui Nunes. Escrevi, a primeira, sobre o “A Boca na Cinza”, no Jornal de Notícias, explicando que não tenho pretensões de crítica literária, nem posso, explicando que falta, ou pode haver, o espaço do diálogo directo escritor/leitor, este último atirando-se ao texto, em resposta, na genuína intimidade que o escrito gera.
Escrever sobre este livro é, como sempre, escrever sobre o Autor, que nos marca pela verdade dura dos seus textos, textos escritos contra o medo, talvez o medo que se pressente tentado contra o escritor; sem sucesso. Haja tempo para ler este livro.
O Livro, então:
Esta é a soma, ou o percurso por todos os livros de Rui Nunes. Quem os conhece, termina a leitura com essa amargura: há aqui uma procissão pelas palavras da sua vida e nela se reconstrói uma vida, numa nova história, que é a mesma, a soma de todas, para dizer adeus, com o peso de todas, a dor a atravessar nestas linhas as outras a que se chamou Enredos, ou Grito, ou Álbum de Retratos, ou o Mensageiro Diferido, um legado de legados, e se se ouve sempre aquela distância, quem lê o livro com a voz dele não pode deixar de escutar o anúncio de um qualquer último suspiro.
O espectro do livro é um quarto, onde estão um homem e uma mulher, os únicos corpos que poderiam ter proximidade nesta história, o casulo aberto da história, o lugar onde o diálogo acontece, onde o esquecimento é soletrado no presente, o lugar onde as coisas aparentemente são reais, porque há cheiro, porque há sexo, o lugar onde a pele é molhada, mas o quarto é o ponto de partida para o percurso da memória pela história da sua vida, mesmo quando a história da sua vida é o olhar que pesa muito a pousar sobre as vidas outras, como a metáfora do abandono do nosso tempo, os ucranianos e croatas, as gentes dos subúrbios, os emigrantes a morrerem nas praias prometidas; não é importante, para o efeito, o olhar sim, eles todos, ou elas, as descrições são o que entra pelo quarto adentro, pelas paredes móveis deste quarto alucinado, a fazerem uma pessoa, o homem que está ali, posto naquela mulher, morto pelas suas histórias, que o não deixam ter a proximidade de alguém e por isso a descrição do frio das mãos tem o capítulo da perspectiva dele e o capítulo da perspectiva dela, e na distância de um capítulo pelo meio também se constrói a distância de duas vozes, é ele que obriga a essa distância, sem remédio, ele não se esqueceu da sua história, a sua história esqueceu-o e por isso diz: o meu tu é um desejo (p. 59).
Da memória há dois quadros que vão crescendo ao longo do livro, entrando e saindo do quarto, talvez os quadros que mais vincam a criança que se espreita pela janela feito homem. Duas histórias de abuso, um caçador e um padre, ou dois caçadores, afinal, caçadores de uma memória inocente: o que nos assalta com violência não é a criança a perder-se em dois crimes, é a perspectiva dessa criança: é a descrição minuciosa dessa perspectiva, porque a minúcia é o preço da dor, e por isso quando o caçador se aproxima do rapaz que sabia os nomes das árvores todas, que ia apenas no seu caminho para casa, a dor não é saber que a sua cabeça foi empurrada até um sexo, a dor é sobretudo ler que esse gesto é recordado com a visão exacta da poeira nos atacadores do caçador, com o olfacto presente da pólvora, com a textura ainda na pele da mão que começou nesse dia a matar-lhe a ternura. A ausência dessa ternura é um peso para a vida toda, para as paisagens que se escolhe sem escolher, pára-se onde falta a ternura. Por isso, quando se regressa à infância e se reinventa o pai, reinventa-se o pai com uma ternura que não teve lugar: invento, invento o meu pai e a sua ternura, carrego um gesto e a sua ternura, carrego um gesto que existiu de uma ternura que não lhe pertence (p. 90).
Custa muito soletrar estes episódios, ou os episódios são duros a soletrarem esta pessoa, e por isso eles vão crescendo, devagar, cheios de dor, parecem um terço e as suas contas, suspenso para descansarmos noutras distâncias. Entre nós e o outro há estas distâncias todas: a batina do padre a interromper a voz da mulher – é aqui a tua casa? -, os botões dessa batina ao som das perguntas: quantas vezes pecaste por pensamentos? Quantas por palavras? Quantas por obras? As perguntas a empurrarem a cabeça do rapaz, as perguntas empurram mais do que a mão, para baixo, e o homem que está no quarto com a mulher ainda sabe quantos botões tinha, e tem, aquela batina.
Deus também morre nestes episódios. Ou nunca houve um episódio que permitisse Deus. Este livro tem a memória carregada da memória da dor, da memória de dores continuadas, do pai doente muitos anos, a morte adiada é uma mortalha daquela infância, este homem que tem no tu um desejo está carregado de mortos, dos seus e dos mortos dos outros, os mortos herdados. A morte da avó é um quadro que se constrói a dar-nos a densidade da memória da morte, do que ela faz às pessoas que morrem, às pessoas que ficam – E aquilo acabou. A minha avó (p. 102).
Finalmente, as palavras: dir-se-ia que restam as palavras a uma pessoa cheia de memórias a interromperem o outro, para salvarem a sua proximidade possível, ou para explicarem essa impossibilidade, ou para se pedir perdão, mas cada palavra é também uma memória: é preciso ter medo de algumas palavras (p. 102), as palavras são também o rosto e a voz que a disse, um Hitler a conferi-lhe uma intenção, até essa palavra se tornar inofensiva, e voltar outra vez, a disfarçar o peso daquele rosto e daquela voz, daquela intenção, e crescer de repente com o terror de quem a disse em 1939, no dia em que morreram tantos, à conta da palavra, que agora reaparece numa boca nova. Por isso as palavras estão também cheias de distâncias, há palavras que são sempre murmúrios como outras são sempre imprecações (p. 103), e aqui uma luz imensa sobre este e todos os livros de Rui Nunes: a sua escrita insubordinada, o que ele faz com as palavras, a luta que se sente contra a opressão desta pátria de gramática, porque o que ele quererá, e consegue, é isto: perder as palavras, desorientá-las, destruí-las, desentendê-las, para recomeçar uma palavra que inicie a sua história nos meus lábios (p. 103).
Talvez se consiga com as palavras o que se não consegue com o outro. Nunca se vê o outro: o homem, no quarto, não vê a mulher, a mulher não vê o homem, vê-se sempre o outro perdido noutro qualquer, sem acesso a esse outro, com a raiva de o sentir naquele corpo ao lado. Por isso, a mulher diz, cheia de rancor: acorda, porque me sabe perdido em todos os sinais que te recompõem (p. 108). A história deste homem faz de quem lhe chega perto uma sombra, os fantasmas todos a procurarem na pele ou nos olhos que calhem um lugar para ressurgirem, só numa ficção poderia o homem levar o outro ao quarto e dizer “este é o meu fantasma”, para que uma história começasse ali para os dois ao mesmo tempo, quando ela o visse pela primeira vez, e assim não acontecesse com as pessoas o que acontece com as palavras.
O fim de vida, a velhice, só pode ser um quarto vazio cheio de nomes, salas vazias, e quando a mulher chama pelo seu nome, ninguém aparece, porque o tu nunca se cumpre.
Vou ler este livro o resto da minha vida.

quarta-feira, maio 16, 2007

Página 20 do jornal de hoje:a solidão a fazer notícia

A Palmira vive longe de nós. Palmira, nesta história, é um nome a traduzir outros nomes, sobretudo a solidão, a solidão pode ser o seu nome próprio.
A Palmira passou muitos anos triste por não ter marido, por não ter uma casinha, como as irmãs, como as amigas, como deve ser, por não ter os seus filhos, como manda a condição. A Palmira descobriu tardiamente o viúvo e os filhos dele, um calor que a faz emigrar para uma outra terra, no mesmo país esquecido, longe de nós.
O marido morreu há 19 anos, os filhos dele são dele, e por isso partiram, como o pai viúvo da mãe, morto há 19 anos. A solidão da vida da Palmira tinha um espaço, esse antes de encontrar a porta, o viúvo e os filhos dele, e quando se cruza uma porta assim, tem-se por seguro que nunca mais se regressará ao espaço onde se é uma mulher sozinha, sem gosto ou causa para aquecer a comida, a comida que para ser de uma casa deve ser feita e aquecida várias vezes.
A Palmira regressa à dor de ser uma irmã, não mais a mulher do senhor Joaquim, e as pessoas, muito poucas, que lhe sobram começam a morrer. Pensa na chegada da sua sua hora, um dia em que não haverá quem se lembre dela, uma mulher calada, hoje posta num terreno longe de nós, de onde sai aos sábados para comprar pão e fruta, um silêncio invisível seis dias por semana, e por isso conta no futuro com quem conta no presente, ela, ela apenas. Compra uma campa num terreno seu, no cemitério, inscreve o que um seu sobrevivente deveria inscrever, ou desejar: à memória de Palmira. Paz à sua alma.
Tarda em morrer. Vai tratando da sua campa, onde se vê mais à fente, morta, como agora, uma fotografia oval. Limpa a pedra de mármore e traz flores para a Palmira a pedir paz.
Pode ser que assim não se esqueça dela. Pelo menos ela.

domingo, maio 13, 2007

Ontem não consegui arrancar-te da minha mão

Ontem não consegui arrancar-te da minha mão
Noventa dias idos, visitei o silêncio onde ficou o teu corpo
Um lugar apenas
Muito só, tu, sem nome a avisar uma pessoa, a clamar uma fogueira
Ontem não consegui arrancar-te da minha mão
Uma palavra escrita, a tua mão, pela minha, a assinar este papel
Dir-te-ia agora o nome do poeta que escreve: a mão a assinar este papel
Queria apenas que tivesses sentido o peso da tua mão
A impressão dela num papel
Queria apenas que tivesses telefonado, como nunca fazias
Até ser eu a adivinhar que chegava aquela dor, aquela dor
que descobre sítios inesperados nos ossos
Ou uma outra voz a avisar por ti, queria muito abraçar-te
Noventa dias antes de ontem
Para voltar a abraçar-te hoje, que te soletro cheia de medo
Cheia de medo de te perder
Sem a tua voz a recordar-me dela

quarta-feira, maio 09, 2007

a noite com árvores na boca (Mário Cesariny)

como no verso, a noite com árvores na boca. a casa a entrar pelos teus olhos iluminados na fotografia tua, muito viva, o verde aflito com o sol e com a lâmpada que te avisa da minha entrada. como no verso, a noite com árvores na boca, os teus olhos a reconhecerem o choro dos meus, hoje vindos de outros, muito aflitos, sossegados, quase, até que na boca, pelos olhos cativa, se desenha a frase da minha emigração. como no verso, a noite com árvores na boca, vou chorar, meu amor: estás a chorar, minha querida: cheia de árvores na boca, estou tão cansada, estou tão cansada, estou tão cansada. falasses comigo para dizeres: o teu cansaço é a tua tristeza, eu a responder que a minha tristeza é o meu cansaço, e os olhos de onde venho também iludem com o poder imenso das palavras, o poder intenso das palavras, o poder mortal das palavras: uma frase, a frase, aquela frase, sabes?: sei, dizes, e eu, minha querida vejo uma superfície nas pessoas que é a aceitação desta história toda, até que essa superfície me diz: não existo, mas vais conseguir e um dia vou ver-te de longe, porque de perto não consigo. como no verso, a noite com árvores na boca, o ar que circula contra o meu equilíbrio, este peso a ser soletrado por uma voz tão doce, minha querida, que me não beija, a voz, ninguém me beija, e no silêncio cheio do espaço de um carro projecto-me para trás, lá onde tudo era a dobrar, até entrar em casa e explodir a chorar, nos teus olhos muito verdes, vinda de outros muito azuis, cheia de árvores na boca, a dizer-te, a querer dizer-te que estou tão cansada, tão cansada, tão triste, eu estou tão cansada.

terça-feira, maio 08, 2007

Grito

A única secção do jornal sobre a qual poderia escrever oferece a Diana, lindíssima, a dar aos olhos interessados o fio dental onde se vai pondo os dedos suados; a Andreia, brasileira, com um busto 40, exótica na nacionalidade, coisa boa para o provinciano que as bate todas em português; a caboverdiana mulata clara, que saberá, na sua triste condição, que apetece a muita carteira comer uma coisa dessas; a Alice, que atende para os lados do Campo Grande, afirmando-se pequenina e de seios grandes; a derrotada ex-modelo de “23 a”, a poupar três letras no anúncio; a Marisa com um rabinho pura tentação, pronta para apanhar as bofetadas e os trocos; a gordinha, discreta no superlativo, porque há gente para tudo; a Raquel de Oeiras; ou a senhora portuguesa, a única que oferece a cara como amostra, e ali uma respiração contida, muito contida.
A única secção do jornal sobre a qual poderia escrever recorda-me que a escrita não pode ser apenas bonita, sob pena de ser uma mentira inútil e recorda-me que um dia escrevi a vontade de fazer explodir atomicamente as paisagens que engasgam esta ansiedade de descrever, de descrever a doença, que é sempre a mesma, a solidão silenciosa de tantas condições, e leio mais à frente acerca dos lucros do jornal com estes anúncios e digo: os lucros dos jornais com estas pessoas.
Este é um belo texto?

sábado, maio 05, 2007

Naquele quarto escuro II

O que interessa é que há sempre rosas.
Sempre ouviu da boca de quem usava a sua a mesma frase: o que interessa é que há sempre rosas. Os dias passavam vistos tão de longe que o seu corpo magro ia pelo ar, como uma sombra côncava, para trás, para trás, para trás, enquanto o dia corria, lá fora, distante, longe de si, do seu ser uma pessoa.
O que interessa é que há sempre rosas, dizia-lhe a boca que fechava a noite com a tranca do medo e que caminhava até aos seus lençóis abafando a rua algures e o rasto dos eléctricos do bairro. O dia era uma vida árdua, lenta, demaisado lenta , sem promessa de outra vida, pior, com a certeza de uma mesma morte que sempre se repetia.

- Pousa a boneca.
- Está frio.
- Chega-te ao pé do tio, linda.
- Está muito frio e eu tenho medo.
- Eu não te faço mal.
- Hoje posso não imitar aquela cassete de vídeo?
- Linda, sabes que o tio precisa. Dá cá a mão.
- Eu tenho medo.
- Não chores. Não sejas piegas. Eu não te faço mal.
- Mas ISSO dói!

Apenas para os outros habitantes da casa amarelo gasto a manhã nasce subitamente. Cheira a leite quente com café. Os passos nas escadas são de quem quer que seja até serem os dele, porque esses batem no soalho como batem nas tábuas do quarto de todas as vésperas.

Olha pela porta quase aberta da cozinha:

- Passa-me o pão.
- O que tens?
- Nada, querida.
- Andas distante. Não me recordo da última que demos.
- Não me incomodes. Sabes bem que a enfermaria anda num alvoroço. Um homem não anda sempre de pau feito.
- Estás cada vez mais vulgar. O meu desejo por ti derrete como esta manteiga ao calor.
- E tu estás cada vez mais velha.
- A minha idade não avança sozinha, sabes?
- Pois sinto-me uma criança. Assim como a Mariana. Olha a pequena ali a espreitar atrás da porta.
- Vem cá, Mariana.

(Bom dia).

A dor é a dor do segredo. O segredo projecta-se no lugar exacto onde fixa o olhar aguado de oito anos envelhecidos. Por exemplo: a Mariana fixa os quadrados pretos e brancos do chão da cozinha e espalha a sua memória naquela geometria.

Todos os dias.

Mas não hoje, porque a Mariana morreu de manhã.

quinta-feira, maio 03, 2007

Naquele quarto escuro I

- Despe-te, não tenhas medo.
- Despeço-me?
- Não. Despe-te, fofinha.
- Está muito frio e os meus pés estão azuis, não vês?
- Eu estou quentinho, linda.
- Tens a barba da cor da do meu avô.
- Tenho a barba da cor da do pai natal.
- Não quero.
- Queres.
- Dói.
- Já passa.

quarta-feira, maio 02, 2007

Côncava

Assusta muito conhecer uma pessoa.
Assusta muito que nos conheçam.
Assusta muito que nos assaltem.
Assusta muito a intimidade: a primeira indignação
Chama-se intimidade.
E assusta muito
Os gestos imperfeitos a ganharem uma forma.
Assusta muito recordarem-nos de uma memória curta
Para ter por igual, por idêntico, por normal
O que nesse dia nos atiram, de repente, num gesto perfeito
Com uma forma que tem um nome:
Intimidade
E que assusta muito: dar como sempre
O corpo antes da cabeça, ou da alma,
Do que se queira chamar a isso
A isso que dizemos eu
A que o outro chama de tu
Essa palavra quase impossível
Assusta muito que se escureça a distância
Entre um corpo muito veloz nas curvas
E um tu a que se chega por uma estrada longa
E nessa escuridão sai um gesto perfeito
Com a forma da intimidade
Antes de existir um eu ou um tu
E por isso assusta tanto
Assusta, assalta, ataca
E mata o gesto muito imperfeito
Que ia a caminho, no seu caminho
Da intimidade outra,
Que é esta mais à frente
E que assusta muito.
E que assuta tanto.

segunda-feira, abril 30, 2007

diálogos

acordar a chover, por dentro, e alguma sintonia no frio, numa água muito precisa a bater-lhe no rosto. pensar a vida ou escrever a vida passa por ti, por ela, tão novinha, pela outra, que pena, por um avô a tossir, uma visão, por um centenário anacrónico, pelos tios que não conheceu, deles só as mortes violentas, a marcarem os rostos dos que ficaram, a tuberculose maldita, no norte do norte de um país cem anos atrás, a tia de que lhe fala, adolescente, a morrer tossindo, numa cama aflita, lá onde pão queria significar centeio.
pensar na vida ou escrever a vida passa sempre por um diálogo com os mortos, os conhecidos dela, os conhecidos dos conhecidos, os passos na calçada a ecoarem as caminhadas desaparecidas, nos carris dos eléctricos parece-lhe ver a criança procurar o berlinde, antes de morrer sem ar, tão pequena, uma pena, e tanto ruído calado pelos mortos, com a arma do seu silêncio que é um grito contínuo, abafado, a suportar a imagem, a suportar o calor, a suportar o cheiro a peixe frito da vizinha velha, da vizinha má, da vizinha simplesmente cansada.
pensar na vida e escrever a vida com a voz dos mortos é muito deprimente, ouve, mas deprimente parece-lhe antes não ver a vida cheia de mortos, ou não querer dar por eles, ou não dar som ao seu silêncio. os mortos de cada um, cada um dos mortos, a desenharem as paisagens de manhã, a adormecerem numa almofada paralela à nossa, a viverem, a viverem com muita força entre os nossos corpos.

domingo, abril 29, 2007

Se me surgisses

Talvez – não sei – se regresse um dia ao nosso lugar
Ou: ando aflita a ter por certa essa recordação
Nunca sei dizer se posso amar e parar de recordar
Sei que serias o meu lugar: és o meu lugar a dizer não.
É isto o amor?
Vou beber um copo de vinho que seria branco, contigo
Arranho a língua com os dentes magoados de sangue
e vendo-te muito cansado de te veres em tudo o que sigo
pergunto, muito alto: é isto o amor?
Dizes que sim, e dizes: minha querida. Minha querida?
Começo a chorar, muito choras tu, passo-te o copo sem cor
E a tua boca muita amável acede em beber vinho tinto
Mas eu só vejo a tua boca, que nunca dirá a palavra amor
Por isso procuro a mesma coisa na tua imobilidade antiga
E pergunto, baixinho: pode ser isto, o amor?

quinta-feira, abril 26, 2007

Entras e (não me) sais

Esta dor que sinto hoje, depois de ontem, não é uma dor por dentro,
um sofrimento
é a mesma que se move como uma aflição quando entras por aqui
e me olhas e ficas,
uma imagem: as tuas palavras, enquanto falas, não são uma voz
uma imagem
uma voz, antes, os teus olhos que são os meus, vistos por outro,
há tantos anos,
ébano, os teus olhos, dizia-me.
Esta dor que sinto hoje veio toda do silêncio dos meus olhos,
queimados
E feitos teus
Que bonitos, os teus olhos, pretos de castanhos,
Castanhos quando falas, pretos quando há uma pausa,
Aí, uma queimadura, aquela aflição de que te falava,
Começa a doer com o ritmo de uma aceleração
E sei que não, que não, que não
Sei que te não posso sentir assim
Uma queimadura pelos teus olhos que eram meus há muitos anos
uma dor, quando entras
E me olhas e falas e sentas-te e não dizes nada
Ou tudo calas, de propósito, quando tudo é uma fluência
na tua garganta quieta
Pronta para fugir, para se matar numa língua aflita,
a mentirmos muito, dizendo
Isto é só um momento
E esta dor que sinto hoje, depois de ontem,
que não é uma dor por dentro
Um sofrimento
Tem este ritmo alucinado, uma dor que dói enquanto excita
Ou és tu que me excitas, ou és tu a minha dor,
quando entras por aqui e me olhas e ficas
Depois de saíres
E antes disso, quando estabilizas o olhar
a minha dor a crescer encontra uma porta de medo
Ou um espelho
Ou o medo desse espelho
O meu desejo a perder a postura: o meu medo
Um sofrimento.

segunda-feira, abril 23, 2007

O Verão persegue-te

Gostei muito, leio.
Depois há uma palavra: o meu nome.
Gostei muito soa sem soar e o meu nome dá um grito harmonioso: escrito por ti.
A tua voz surge toda no final da frase que me envias, um nome, as sílabas dele na minha língua a derrotarem quatro fronteiras, a aplanarem uma dor, tu, ou o teu nome, andas a escrever, dizes.
O espaço do que dizes é todo depois do espaço onde aparecem as palavras de hoje, porque andas a escrever: eu posta então nas margens do teu caderno, versos, pergunto, e sei que sim, e recordo já os contornos da tua caligrafia, os versos abandonados, os versos que ficaram, o poema que vai contar uma verdade, numa síntese, as tuas sínteses; gostei muito, leio, e escuto com atenção esta palavra,
essa palavra,
esse nome que me dás no final da frase,
e vejo-te em movimento, a fazeres o que dizes, a tua síntese alongada, sem outra pausa senão a do silêncio, perseguido pelo Verão, dizes.

quarta-feira, abril 18, 2007

Hoje sempre

Uma voz na rádio, de manhã, cheia de silêncio, ou ela uma cabeça a dizer basta, os sons que são imagens, ou falta de vontade, custa muito meter a segunda e a terceira e abrandar e rever o sinal vermelho e dobrar a esquina de ontem, de sempre, de amanhã, custa muito viver.
Uma voz na rádio, um palco para outra voz com a forma de duas mãos em frente, olhadas num acaso, recordadas por acaso, dá-me as tuas mãos que eu trato delas, recorda. O peso dos seus passos é muito, ou é insuficiente, morre ou flutua, já não sabe, arrasta-se, custa muito dizer o que esperam de nós, custa muito aguentar o rímel no lugar, custa muito tanto medo, custa muito viver.
Uma voz na rádio, de manhã, uma esperança, às vezes, um crescendo, uma queda, depois, os fins em todos os começos, custa muito acreditar, custa muito sair do carro, custa muito pensar nas pessoas, custa tanto não chorar, custa muito viver.

terça-feira, abril 17, 2007

Um II

o dia menos frágil, depois de um corredor cumprido todo
ao comprido, cumprido todo,
corredores entrelaçados
e o dia menos frágil, sempre me sentes, como eu,
depois de me sentires a face apenas
diria, ou dizia
enquanto te movias, me movias,
uma história comprida e breve, muito breve, muito longa,
comprida, cumprida,
naquele corredor, nestes passos decifrados
o teu olhar recolhido, o meu grito rendido
e hoje um dia menos frágil

domingo, abril 15, 2007

sobras

Os poros de lã contra os dela, de pele.
Uma frase a soltar-se: dá-me uma dose, dá-me uma dose, só uma dose.
As mãos suaves, a dosearem a raiva, nos ombros desossados.
Dá-me uma dose, só uma dose, só uma dose.
Naquela sacristia, o suor a borbulhar nos poros de lã.
O medo: a sua dose.

quinta-feira, abril 12, 2007

domingo, abril 01, 2007

ainda não é hoje que os ossos saem do lugar deles, tão depositados, ferrugem, aqui, num cotovelo, onde a vontade se encolhe toda a dizer que não quer ler, nem escrever, nem pensar, nem escrever;
uma sinfonia, alguém a construir por eles alguma coisa, a crescer, numa lágrima arrancada a custo o sentido de se ser gente, gente, que esgotada a palavra pessoa;
compassos aflitos, ou não: pausas para a nossa aflição ganhar um lugar.
o vazio.
o lugar.
os anos que faltam encurtam-se subitamente e vê-se uma vida numa régua, muito pequena, e nada a fazer para trás, a doer de fora a brevidade e a incógnita do futuro, ou antes: o presente a esfumar-se numa lágrima arrancada a custo.

um

um assalto, muito doce, os teus passos; não: o som deles, ontem feitos, ao meu encontro.
aquele corredor.
palavras, as tuas, de repente, encadeadas por um olhar que te mata em redor dele.
aquele corredor.
nunca nos sentimos, ou talvez também me sintas depois de me sentires a face apenas.
naquele corredor.