terça-feira, maio 06, 2008

a criança magrinha aperta-se no seu corpo,
devolve-lhe a proximidade e pensa:
o afecto dói-me.

quarta-feira, abril 23, 2008

ouve o bater da porta de casa atrás de si,
passa a mão pela cabeça do cão e pensa:
afecto.

quinta-feira, abril 10, 2008

andar, andar, andar. ela está, no entanto,
sempre no mesmo lugar.
felizmente não tem flores - que odeia - em casa.
onde está sempre, há muito ruído e tanto silêncio
que não chega.
nem cai.
por uma jarra que fossse.
a sua.

domingo, abril 06, 2008

Regresso

Hoy como Ayer
Mañana como Hoy

Gustavo A. Bécquer



Ela a querer muito as condições de um regresso.
Como hoje, um acaso.
Anda a lutar contra o tempo com o próprio tempo.
Dói em segredo como a dor de uns pais de sorriso triste.
Dias raros, sem amparo, um pretexto: voltou, trémula.
Atreveu-se. Uma voz, um acaso a dizer-lhe que regresse.
É sempre uma pessoa que a morre; é sempre uma pessoa
Que a perdoa.
Regressa, então.
Lutando contra o tempo com o próprio tempo.
Os dias sem amparos são unidades de tempo.
E talvez um dia um desconhecido a faça parar de tremer
Ou agradeça o seu tremer
Ou entenda o seu tremer
Diria: eu não te estranho.
O luto está feito e ela sabe que hoje é ontem e que
Amanhã é hoje.
Dói. Mas vive-se.

segunda-feira, janeiro 28, 2008

Até um dia

Obrigada a todos os que me lêem.
A contradição é enorme, mas sendo isto o espaço mais público do momento, este vem sendo o meu espaço mais íntimo. Eu escrevo aqui para não perder o que escrevo; o mesmo é dizer para não me perder. Fui a última pessoa da minha geração (que conheço) a perceber o que é um computador e a conseguir aceder à net. Antigamente, escrevia compulsivamente e perdia os escritos pelos cantos. Esta coisa a que chamei de consolação permitiu-me armazenar no espaço o que poderia vir a ser um livro, bocados de um livro, vários livros, páginas de um livro, sem perder, sem deitar fora, sem me perder, porque só me interessa escrever sobre a aprendizagem da dor (disso sabem os poucos que lêem o que escrevo em papel) e por isso não posso parar de escrever, enfim, já escrevi muito sobre isso. Este espaço é, portanto, o meu armário. Não me ocorreu, para concretizar esta sensação de armário, numa pequena entrevista a uma revista semanal, aproveitar para dizer que tenho um blog. Durante meia hora de conversa em que se falou do meu livro e do meu amor pela literatura, não me veio à cabeça o Consolação. Não esperava que este viesse a ser lido por tanta gente. É muita gente considerando os textos em causa. Eu só soletro dor. E a vida das pessoas está cheia de dor. E a dor pesa. E mesmo assim há quem não repouse a dor e passe por aqui. Com gosto. Tantas vezes com coragem.
Obrigada a todos os que me lêem. É uma espécie de amor que existe na minha vida: chama-se intimidade e é muito forte. É uma consolação.
Neste momento, preciso de parar. Preciso de silêncio. Preciso de respirar. Preciso de escrever por dentro. Não sei quando volto. Esta necessidade de um retiro pode durar duas, três, quatro semanas, mais tempo, tanto faz. Mas ainda que apenas uma pessoa me lesse aqui, habituada a uma certa regularidade, não poderia ir embora sem um texto de verdade a dizer obrigada e a querer muito as condições de um regresso.
Até um dia.
Isabel

sábado, janeiro 26, 2008

Assim

Stronger than me
(Amy Winehouse)

Os sábados são assim
Stronger than me
Ela percorre um corpo devagarinho, cheia de dor, a dela, é uma dor com um epicentro aqui, aqui, enquanto se lembra de um refogado inútil, enquanto se lembra de um pastel de nata que ofereceu à indiferença; não é isso a sua dor, é isso que agudiza a sua dor.
Os sábados são assim
Stronger than me
Enrosca-se no banco de trás do carro e tranca a sua dor numa outra dor: uns olhos a dizerem nada, os seus olhos a dizerem por dois, a sua língua com a devoção de duas, as suas mãos a valerem quatro, uma dor, stronger than me, um dicionário a gritar-lhe a palavra que teme, aquela lá de trás que só se descobre assente em nós depois de mortos por dentro.
Os sábados são assim
Stronger than me
E ocorre-lhe citar a Anna Akhmátova de forma reles, como aquela gaja que disse de uma maneira muito precisa, num poema, assim:

Vinte e um. Segunda-feira. É noite.
No escuro uns contornos de cidade
Algum vagabundo escreveu que na terra pode haver amor

Por tédio ou preguiça todos acreditaram e assim vivem
Esperam encontros, temem a deus
E cantam canções de amor.

Mas a outros revela-se o enigma,
e o silêncio repousará sobre eles …
Descobri isto por acaso
e desde esse momento sinto-me mal

Isto passa, isto passa, isto passa. Stronger than me durante duas horas e meia
De horror,
Tu, de repente, N. Havias de lhe explicar numa mesinha, seja, por que vem ela tomando o lugar dos passarinhos que visitavam as nossas toalhas, a pedirem migalhas. Ela está ali no cantinho da mesa com asas quebradiças a sorrir para uma migalhinha dourada, e às tantas deita-se e a palavra que teme habita-a com tanta força que não se solta completamente quando recolhe as penas.
Não é essa a sua dor. A sua dor é até isto de ser passarinho doer.
Anda a estudar biologia por umas horas: beija e pensa beija-me, abraça e pensa abraça-me, aperta e pensa aperta-me, lambe e pensa lambe-me, assim, assim, assim, não vês que quase cheirou a amor?
- É irrelevante. O amor é uma necessidade passageira, ouve.
Que dor.
Os sábados são assim, N. A partir de hoje dirá sempre que o dia, essa coisa, o dia, essa coisa, correu bem, antes que morta de outros sons.
Despediu-se de ti de um abismo interior. Despediu-se do outro que lhe mostra o que é não amar.
Só dela não se despede.
Não pode.
Stronger than me, N.

terça-feira, janeiro 22, 2008

Separation

You in the high-walled fortress of sleep
I on an island of wakefulness
bird-haunted, trapped by mist

You eyeing the warm milk of suspicion
I drinking the green rain of the seagull’s ocean

You on the red deck of the last ferry going under
I on the amusement pier lost in the crowd

You going forward into the mirror
I crawling backward into the teeth’s cavity

You in sunglasses
walking towards the sea on a street that backs into the sun
I sliding on ice across the abandoned freeway

You in prison waiting for redemption
I in the asylum counting billiard balls

You climbing stairways, humping buckets of soapy fisheyes
I descending the silver elevators, escorted by clouds

You on the night bus that leaves from the ferry wharf and goes
across the stone desert to the other side of the earth
I on the top floor of the brightly lit hospital,
beating the glass with my hands

The night is cold
The poplars are grey in the headlights

You have opened the paragraph of silence
I was closing the volume of inaudible sound

Peter Boyle in Coming home from the world

sábado, janeiro 12, 2008

m a d r u g a d a
3 h 32
disse: a minha intenção de novo ano é esta. por isso foi para casa. conteve-se.
pensou: a noite é o que não aconteceu.
respirou. ou não.
recordou: na mesa foi uma outra pessoa.
(um sorriso a contrariar isto: ser uma pessoa reservada)
um dia é sempre uma véspera. mas só isso.
talvez amanhã.
leu menos do que queria. ou do que poderia
(ser-lhe dirigido)
a solidão a aumentar sem ruído. a solidão engorda.
onde morrer?
numa biblioteca. sem o lado esquerdo da cama a desertar o lado direito da cama.
numa biblioteca não se morre.
morrer então assim, ali a viver, porque outra vida não lhe foi possível.
de noite, aqui, tens razão quanto à palavra tu.
uma voz: tu não és um tu para ninguém.

segunda-feira, dezembro 24, 2007

25 de Dezembro

Lembro-me de uma janela
Na Travessa da Infância
Onde seguindo os rumores dos autocarros
Olhei pela primeira vez o mundo

(José Tolentino Mendonça)

Entram-nos novos olhos pelas esquinas e não entendem a tristeza ou avisam-nos do egoísmo dela. Escondemo-nos numa sala nova, cheios de sorte, o sol muito intenso, livros por ler, e o oratório de natal de bach a fazer coisa nenhuma aos nossos sentidos. É muito difícil explicar aos novos olhos que dói muito ter uma dor que se tem porque se nasce com ela, porque, como já se disse, o mundo nos bate à porta, mas não entra, eu não consigo.
Quando há uma trovoada de palavras a dizerem-nos a causa da nossa alegria esperada, a dor dói mais, mais ainda, porque nós sabemos que na linha de cima da vida temos tudo e que esta dor só se explica numa linha nos subúrbios do traduzível, onde uma infância amedrontada numa pele mal vestida tantos anos, um desamor quando começou a palavra eu, uma solidão nas mesas com uma família de dezenas de pessoas, a tal sorte que nós temos, esta dor é assim. Tudo o que temos por que tantos dariam dá à dor uma nódoa de culpa, de culpa, e assim se vive num cilindro dentro de outro maior cheio de sorrisos e de amor invejado e nós no nosso cilindro de dor e de culpa e, claro, de medo, essa besta. A infância pode ser um quadro móvel, a mesa de Natal no dia 25, uma mesa feliz, que sorte a nossa, mas os anos levam-nos as pessoas, e Deus também, que ficam com o nome de mortos, pendurados nos nossos corpos, e hoje vê-se aquela mesa com os sons feitos ecos, porque de memória, e há uma mão que não agarra o sal que lhe passam porque morreu, essa e outra mão; a mesa da nossa infância, ao longo doa anos, vai ficando cheia de sombras, os nossos mortos, que surgem com muita força no Natal. É por isso que o dia 25 de Dezembro tem de bom apenas a promessa de um 26, é por isso que quem tem uma dor que nasce consigo e vive em cilindros de medo desequilibra-se até à quase loucura nesta época em que o trânsito, as luzes, ou os apelos na rua são apenas os gritos dos mortos que desocuparam as mesas da nossa infância. Para as ocuparem, hoje, como nunca.

segunda-feira, dezembro 17, 2007

Ainda a primavera tão longe e pareceu-lhe sentir uma andorinha no novo parapeito da janela. Dirá: foste, tu, talvez. Ou: és tu, com olhos de azeitona.
Deitou-se no chão muito cansada e ouviu a voz desaparecida: hoje o teu medo é regressar ao medo, minha querida. Respira, respira, respira e não tenhas medo do medo. Esse teu corpo a tremer e essa tua vontade de gritar agarrada a uma fotografia é uma pequena queda num movimento que se dirige a uma promessa. Obedeceu, muito quieta. Agarrou tremendo um cigarro e um copo qualquer e chorou enfiada na pele dela, que dor a sua dor, que difícil não enlouquecer quando sente aquele abandono, quando refaz com o próprio corpo os gestos do outro corpo, muito só, com cigarros trémulos, também. Diz na sua boca a frase que já foi dela: eu sem ti ficaria sem um braço.
(dizemos a frase ao mesmo tempo: uno o som dessa tua frase de há anos ao som da mesma frase agora minha e pergunto: como faço para viver sem um braço, minha querida?)
Depois falou dessa voz desaparecida a uma pessoa que é verdade
(parece-me que ontem quem nunca te viu deu pelas tuas mãos pequeninas).
Foi uma andorinha, minha querida, uma primavera a entrar por aquele parapeito, a aterrar na minha almofada e a transpirar sem demónios na pele. Talvez não tenha dado pela contenção dos meus olhos, mas pousou a cabeça no parapeito do meu peito, senti o peso exacto na minha respiração e nem uma grade, minha querida, nem uma grade.

segunda-feira, dezembro 03, 2007

Para a R.

In Paris With You

Don't talk to me of love. I've had an earful
And I get tearful when I've downed a drink or two.
I'm one of your talking wounded.
I'm a hostage. I'm maroonded.
But I'm in Paris with you.
Yes I'm angry at the way I've been bamboozled
And resentful at the mess I've been through.
I admit I'm on the rebound
And I don't care where are we bound.
I'm in Paris with you.
Do you mind if we do not go to the Louvre
If we say sod off to sodding Notre Dame,
If we skip the Champs Elysées
And remain here
in this sleazy
Old hotel room
Doing this and that
To what and whom
Learning who you are,
Learning what I am.
Don't talk to me of love. Let's talk of Paris,
The little bit of Paris in our view.
There's that crack across the ceiling
And the hotel walls are peeling
And I'm in Paris with you.
Don't talk to me of love. Let's talk of Paris.
I'm in Paris with the slightest thing you do.
I'm in Paris with your eyes, your mouth,
I'm in Paris with... all points south.
Am I embarrassing you? I'm in Paris with you.
(James Fenton)

quinta-feira, novembro 29, 2007

A funcionária

Quase invisível, dir-se-ia, a sombra de lãs neutras, ali sentada, há trinta e cinco anos. Calhou que os olhos eram olhos de chorar aflito e ela ali a passar encontrou-se nesses olhos, daquela sombra quase invisível, dir-se-ia, uma sombra de lãs neutras. Precisava apenas de uma pergunta – o que tem?- para desensombrar-se num choro então audível, explicando a dor de ouvir uma repreensão injusta depois de trinta e cinco anos a sorrir por fora. Ali, de repente, no espaço de um corpo quase invisível, uma revolução: o parto das dores de uma vida inteira, vida subitamente revelada como uma introdução à mágoa de hoje, Angola abandonada, marido morto tão novinho, uma vida de viúva sozinha, de filhos seus e bastardos por criar, sempre perdoando, e agora isto: uma repreensão injusta a matá-la de vez.

sábado, novembro 24, 2007

Pensamentos imediatos II

As mulheres têm uma coragem muito específica: verbalizam o que sentem. E assim permitem a muitos (finalmente) falarem.
Para concordarem com elas.

quinta-feira, novembro 22, 2007

Pensamentos imediatos I

(Notícia no jornal de hoje: descoberta de fóssil mostra que já existiram escorpiões maiores que um homem)

Ainda existem. Ainda existem.

sábado, novembro 17, 2007

tudo o que acontece é um parêntesis na saudade.
presta-se asim muita atenção às portas e às paredes que são isto:
-uma pessoa a dizer até amanhã;
- um sono interrompido;
- a previsão da segunda parte do sono;
- um papel tingido de lápis dos olhos;
- o silêncio de um copo vazio;
- o silêncio de uma carta que não chega;
- o frio a crescer nas costas;
- o silêncio do fumo do cigarro;
- as pessoas ao fundo da fotografia;
- o silêncio dos livros por ler;
- o silêncio;
- os ruídos interiores;
- o silêncio;
- o silêncio.

terça-feira, novembro 13, 2007

Os seus dedos aventuram-se trémulos no teclado. O peso dos sonhos, mesmo os não recordados, dizem-lhe é hoje que te não aguentas. Frases, músicas, choros, sorrisos dela são o estuque deste tremor. Penteia-se ao espelho e imagina a perplexidade alheia: tão nova, tão bonita. Minha querida, por quê?, pensa. Tem um remoinho no centro da cabeça que puxa pelas lágrimas de fora para dentro, as sombras estão no lugar, a chave do carro dita a luta de sempre: um dia por cumprir. Sem enlouquecer. Os corpos todos já não amparam tanto medo físico, chegou o dia em que o peito esmagado por outro não se dá por vencido, nem por quinze minutos. Sim, sim, claro, diz, que interessante, diz, e por dentro a gritar desaparece porque estás a diluir-me. Fica para ali cheia de humidade sem dono ou sem intenção ou sem amor. Na noite anterior, numa estrada ondulada, deu pela sua solidão, não como sempre, mas num tiroteio que a conduziu, silenciosa, até à morte de tudo isto que é dizer boa noite. A invenção do amor é o poema que referencia uma nova manhã.
Pode ser que ninguém dê por tanta pele amedrontada. Pode ser que ao entardecer um sorriso tenha a generosidade de um sentido.