terça-feira, julho 24, 2007

Belgrado

E depois há uma música
Que é sempre a mesma
Que são muitas outras
Que é sempre a mesma
Que eras sempre tu
E depois disseste-me com a voz nas pálpebras:
Eu não tenho esses séculos de fronteiras
Eu não tenho a paz de saber das minhas memórias
Eu não sou eu até que me não doa a casa magoada do meu tio
E a grávida morta porque morta antes a mulher do assassino
E por isso dizias-me, sem uma lágrima na voz:
Isto é só isto é a dor da identidade;de que falas, Isabel?

E depois agarravas uma viola e era uma outra voz
Que era sempre a mesma
Que eram muitas outras
Que era muito tua
E o som da tua voz inutilizava o significado das palavras
Que não entendo
E que me dizia tudo
Um tiro de raízes ciganas, pelo meio de todas muçulmanas, croatas, albanesas
E as tuas, isso que projectava a pergunta: de que falas, Isabel?
Os olhos cerrados de um sérvio a recuar aos sons
Que eram tantos
Que eram muitos outros
Que terão sido sempre aqueles
Cantados antes que gritados
Ou chorados
Ou sangrados
De que falas, Dragan?
E tu a dizeres: eu preciso de tempo
E que fosse a partir de um sítio com o nome de lugar novo
E assim a dizeres-me, de viola na mão, que precisas de viver
Com a paz muito sofrida da palavra eu

domingo, julho 15, 2007

angústia

O Céu não é humano
Bohumil Hrabal (Uma solidão demasiado ruidosa)
O mundo tem o tamanho da angústia
(na nossa mesa, ontem, perdi-me dele)
acordei às cinco da manhã
entre a nossa mesa de ontem
(onde me dói sempre menos o medo
onde me dói cada vez mais a mesa)
e uma troca de mensagens ousadas
saindo um pouco nelas
vindo-me depois delas
num espasmo de medo, de desequilíbrio
O mundo tem o tamanho da angústia
hoje diria, meia nua, meia louca:
O céu não é humano
e pediria de volta a puta da mesa
para te recordar nela o livro que te ofereci
O mundo tem o tamanho da angústia
e hoje estou nem mais nem menos
os sacanas enraivecidos, os sinais de trânsito
atiraram-me para uma berma
e eu disse-te: vem visitar-me, como se de partida
vou morrer
– grito, na minha Avenida de Berna
e o sangue corre dentro disto
com força, com pressa, com maldade
um veneno
O mundo tem o tamanho da angústia
O céu não é humano
a angústia dói, corrói, infecta, inflama
sou medopositiva, angustiadopositivia
escorro este demónio atrás dos óculos escuros
hoje acordei às cinco da manhã
e o gajo que me excitava toda
parece que afinal não
o dia amanheceu com uma desilusão banal
muito invulgar, nesta cabeça por um fio
a angústia tem o tamanho do mundo
o céu não pode ser humano
e hoje não há orgasmo que me safe

sábado, julho 07, 2007

20 anos

Para o meu irmão João

Olhei-a na cadeira lá ao fundo, esperando a sua vez de fazer exame
Caracóis desordenados, olhos aflitos com um tempo absurdo:
Vinte minutos
Uma tragédia, a sua ópera: vinte minutos
Saber se depois deles as mensagens serão de vitória ou de derrota
Chora-se muito naqueles corredores
E eu tenho saudades de me vestir assim
Decomponho as pregas de todas as roupas de vinte anos
Por dentro, corações, pulmões, vértebras, fígados
E o sangue no meio deles, tudo a mexer
A sobreviver
Para o mesmo terror: vinte minutos
A merda do exame que chumba outra perspectiva
Chamar, neste dia, ao mundo prova oral
E tremer, tremer, tremer
Odeio isto
Amo isto
Sou isto
Já não sou isto
Envelheci
De noite, um rapaz de vinte anos bebe os vinte minutos vitoriosos
A sua última ópera de sangue: chegou ao fim
Sussurro entre duas lágrimas: chegaste ao início
Tem a pele muito macia, este rapaz
Os olhos quase tristes, de tão vazios de fechaduras
Cruéis, amáveis, por não terem a penumbra dos meus
Deles têm o castanho límpido de há oito anos
Quando enterrei os meus últimos vinte minutos
E parti a conquistar o mundo e a vida
Com um diploma suado na mão
E um saco de energia e esperanças nas costas
De noite, um rapaz de vinte anos olha uma mulher
De vinte anos
Dá-lhe a sua vida por viver
Que é dar-lhe um corredor todo, onde ele mesmo um dia será outro
Ou não
Tem vinte anos este rapaz que de noite entra pelos meus ouvidos
Com os sons dos amigos a gesticularem e a rirem em seu redor
A nossa casa menos eterna
Os nossos pais, de repente
Pareceu-me
A chamarem por nós
Mais uma vez: só me dói o que é verdade
Tenho saudades da minha infância
E depois tenho saudades de doer muito a espera
Pelos meus vinte minutos de horror
De me vestir assim, como a rapariga na cadeira lá ao fundo
E depois tenho saudades do saco que levava às costas
Quando me anoiteceu o dia, como ontem, ao meu irmão

segunda-feira, julho 02, 2007

Luto

É excessivo o cerimonial em torno da morte, dizia.

(Velório, missa de corpo presente, funeral, missa do sétimo dia, missa do mês, visitas a casa, choro social, dor colectiva, pancadas a percorrerem um teatro de flagelação)


Um dia, a morte pesou-me como nunca e também aí me pareceu excessiva a marcha lenta em redor daquele corpo, ou daquele acontecimento.

(No entanto, nesses dias é permitido e esperado que se chore de pleno direito, sem espaço para mais nada, o nosso rosto é um espaço exclusivo da dor da perda, dos beijos de consolo, das mãos dos amigos que por ali passam, que compreendem, que se afundam connosco na tragédia do adeus que se adia nas cerimónias inventadas para isso mesmo, entendes?)

Depois de encerrado o capítulo do coração aberto aos amigos próximos e distantes, vem a tragédia do regresso à vida habitual.

(É uma tragédia, porque se vive com o rosto posto na saúde e o coração enterrado na aflição)

Pouco a pouco, é esperado de nós que voltemos a sorrir sem a sombra daquela morte que nos atirou para uma cama a soluçar, porque já passou o dia, a semana e o mês em que o choro tem lugar para ser abraçado, ou para antes disso ser comunicado, ou para antes disso ser esperado, ou para antes disso ser normal. As perguntas acerca de como vai o nosso coração sem ela começam a espaçar, porque cumprimos o devido.

(sorrimos, trabalhamos, bebemos, fumamos, fodemos, somos, em suma, pessoas devolvidas ao mundo dos outros)

Mas, na verdade, há a hora em que chegamos a casa.
(Passado o tempo em que deixa de ser razoável que se pergunte por ti, ou passado o tempo em que a pergunta por ti é uma raridade que espera uma resposta feliz e antes descobre uns olhos a explodirem a dor quotidianamente disfarçada, passado esse tempo, o espaço chama-se silêncio, ou duplicidade, e a verdadeira dor, ou solidão, então começa)

quinta-feira, junho 28, 2007

Diálogos II

- E tu, de onde és?
- Sou de uma terra lá do interior, que não existia até passar a existir, por causa de uma linha de comboio.
- Estás a gostar de Portugal?
- Ainda só conheço Lisboa. Nunca fui à praia. Não sei nadar.
- Tens sido bem tratado?
- Não me tratam mal. Estranham-me. Mas eu estranho-os com mais estranheza. São quase todos casados e são todos dos que levam.
- Tens cuidado contigo?
- Nunca me roubaram nada. Quer dizer, até hoje, só me roubaram oito bicicletas.

sábado, junho 23, 2007

TU POSSÍVEL

ONTEM, QUANDO FALEI DE TI, FIQUEI ASSIM POR DENTRO, UMA EXPANSÃO O TU SERES UM TU QUE É POSSÍVEL, MESMO QUANDO ESTÁS FEITO NUMA PALAVRA, QUE É O TEU NOME: DIGO ASSIM: POR ACASO FALEI SOBRE ISSO HOJE COM O N., E QUANDO O TEU NOME SAI DOS MEUS LÁBIOS, INTERROMPO A EXPRESSÃO MUSCULAR QUE OS OUVINTES ESPERAM DAS MINHAS SOBRANCELHAS, PORQUE ME EXPLODES NUMA VAGA DENSA, QUENTE, UMA MEMÓRIA JÁ, COMO SÓ QUEM É UM TU POSSÍVEL PODE SER, ESTOU ALI NUMA MESA, ADORMECES-ME O CORPO PORQUE ME DÓIS, SÓ ME DÓI O QUE É VERDADE, E CRESCES ASSIM SEM AVISO, NO MEIO DE DUAS PALAVRAS: POR ACASO HOJE FALEI SOBRE ISSO COM O N.: E PARECE-ME OUVIR: ISABEL, EM QUE PENSAS?, MAS SERIA MAIS CERTO: ISABEL, ONDE ESTÁS? TU NÃO IMAGINAS O QUE ME ACONTECEU ENTRE DUAS PALAVRAS: POR ACASO HOJE FALEI SOBRE ISSO COM O N.: O MUNDO CONGELOU-SE NUM SEGUNDO E, COMO EXPLICAR?, ESTA DOR, TU, AS NOSSAS MESAS, NÃO, TU, O QUE SINTO POR TI, NÃO, TU, UM INVASOR SEM ARMAS DE FOGO, ATÉ NÃO RESTAR NADA DE MIM, FIQUEI PARA ALI OCUPADA POR TI, QUANDO O TEU NOME SAIU DOS MEUS LÁBIOS ENTRE DUAS PALAVRAS: POR ACASO HOJE FALEI SOBRE ISSO COM O N.: ESTÁ A DOER-ME NÃO CONSEGUIR EXPLICAR ISTO, PORQUE QUASE ME NÃO PERTENCE, TALVEZ ENTENDAS, PORQUE ME ENTENDES TUDO, ERAS TU A ABRANDARES A ÂNSIA COM QUE FALO NAS MESAS TODAS, SEM PARAGENS QUE ME DENUNCIEM, ERAS TU A ACAMARES-ME EM TI, NO QUE SINTO EM TI, CONTIGO, PODE SER ISTO O AMOR?, UMA NOSTALGIA PELA QUAL SE CHORA SEM RESSENTIMENTO, ANTES COM INTENSA COMOÇÃO, ERAS TU, OU A MEMÓRIA DE TI, AS NOSSAS MESAS, UM TU POSSÍVEL, NÃO, ERAS TU, MAS O QUE ME DOEU FOI SENTIR QUE ERAS EU, SEM NINGUÉM PODER ENTENDER UMA COISA DESTAS, ISABEL, ONDE FOSTE?, SABER QUE FUI EU POR DOIS MINUTOS E SABER QUE SÓ TU ENTENDERIAS ESTE TEXTO CARDÍACO E SABER, QUASE CHORANDO, O QUANTO PRECISO DE UM ABRAÇO TEU, FOSSE QUANDO AS COSTAS DAS MINHAS CADEIRAS NÃO ME AMPARAM.

segunda-feira, junho 18, 2007

Diálogos I

- E hoje tens medo de quê?
- Hoje tenho medo de ter chegado a casa.
- Só?
- É muito. Ter medo de ter chegado a casa é muita coisa. E tive medo de ficar de pé numa cozinha a ouvir o som, a voz da mulher de sempre. Tive medo que ela visse o meu medo. Calha que a conversa está presa a uma dor comum e enquanto se aquece a água para o chá cria-se um espaço onde se chora sem estranhar esse choro inaugural. Rompo assim a teia de aço do meu medo.
- Uma bela imagem.
- Uma teia de aço, assim o meu medo. Cheia de fios e buracos desenhados com rigor, o ar a passar entre eles sem que se sinta que passa e o mundo para lá da teia sufocado nela e desenhado por ela: a minha grade. Quando a conversa da dor comum se inicia, o aço rompe-se, explode sem som, e eu começo a chorar, umas lágrimas a descomprimirem a aflição deste peso, e digo o que posso dizer, mas por dentro digo: que alívio, mãe, estava quase a gritar socorro e a dizer-te que estou muitas vezes por um fio, não de aço, um fio fraco como a contenção do meu choro, isto dói que farta.
- E agora?
- Lembrei-me de uma cena desgraçada do filme que quero fazer. Um filme irrealizável. A mão a passar na testa do homem ressuscitado, a descobrir nela duas entradas cavadas num tempo passado longe de mim.
- Tu tens saudades, não tens?
- Tenho uma dor. Uma dor muito forte, uma ilha num mar de gente e de coisas por que devo estar grata, mas como dizia um homem no filme real que vi ontem no cinema, elas não passam da minha pele. O mundo bate-me à porta, a minha pele, e não entra.

Eu não consigo.

quarta-feira, junho 06, 2007

Intervalo

Os dias perderam-se numa torneira ferrugenta
E sinto o gotejar deles, os dias, dia-a-dia
Numa torneira ferrugenta, a minha garganta
A minha memória feita em cano cheio de atritos
Os atritos a sentirem aquele gotejar neles, por eles
Protection – Massive Attack, ouço
Por um fio, massive, massive attack, penso
Os dias são plurais, não por serem muitos
Uns atrás dos outros
Os dias são muitos porque tudo isto e eles também
Pesa de mais
Um mais um são dois a pesar, são dois a doer
A corroer
Pingos muito lentos, de noite, na minha cama
Cada dia mais difícil, cada noite mais escura
Mais pesada
A pedir protecção, a pedir por uma protecção
Cansada de medo: massive, massive attack
Até que acontece qualquer coisa
Uma mesa muito familiar, a hora antes da hora
Das outras mesas
E uma pessoa que me vence o tremer e o temer
E há um desejo forte de ficar ali para sempre
Ou ficar para sempre como ali
Sem tremer nem temer
Hoje é dia de intervalo, penso
Os dias uns atrás dos outros caídos numa torneira
Numa torneira ferrugenta, a minha garganta
O meu corpo, a minha angústia, isso: a minha vida
Mas hoje é dia de intervalo
E ainda se dá o caso de ter dado por não haver sal
Na minha mesa familiar
E de ter recordado o sal que ali fazia falta
Nuns poros tão aflitos como os meus

quarta-feira, maio 30, 2007

de manhã

levanta-se o medo da almofada e a besta assume a forma de meio crânio. é ali que pesa, é ali que insiste em enlouquecê-la quase, em bater-lhe quase, em matá-la quase. os gestos de sempre, de manhã, palavras gastas, os gestos de sempre, tomar banho, com medo, medo, medo, medo, palavras gastas, o ralo da banheira, já o escreveu, já o temeu, já se morreu ali, o carro, sempre o carro, palavras gastas, a música a ferver, hoje de manhã, fervia muito, cantava mais alto que os pregos a começarem no seu colo, a fazerem-na trepar-se por eles, até ao céu, perder o chão. não está a escorrer nada, nada, nada do que sente, este medo, estes pregos, a ferrugem deles seria boa, agora que pensa, esfregar-se toda nela, e sentir, que é como quem diz sentir-se, que é como quem diz salvar-se. todos os dias uma guerra, uma guerra com o medo como sangue, o desequilíbrio como inimigo, o desequilíbrio como ocupante, uma potência, uma guerra tão sofrida, pai, uma guerra tão violenta, mãe, e de manhã apetece muito desistir e dar o crânio ao inimigo, ou oferecê-lo a uma nova pátria, e depois de um longo e enlouquecido grito chorar, chorar e chorar no ombro que escuto com mais atenção.

terça-feira, maio 29, 2007

de noite

tinha o corpo muito curvado, com medo dos espaços que sobram entre as dobras do edredão. nesses espaços o ar arrefece com intenção e o silêncio dele pesa entre os joelhos, entre as axilas, entre o queixo e o ombro, entre ela e ela, um espaço a dizer o seu medo, ou um amontoado de espaços a dizerem que é ela que sobra, ou a dizerem que é ela que lhes sobra; uma dor assim apertada, a noite expande-se pastosa, maligna, por cima da curva que é o seu corpo a suster a respiração, a suster a aflição, a suster a duração limitada do seu equilíbrio; uma dor assim apertada, a pedir muito por uma voz, a pedir muito por um corpo, a pedir muito por uma expiração, a pedir muito por um amparo, antes que solto aquele demónio, aquele demónio feminino, que espreita ocasionalmente, está ali atrás da porta, está ali por cima da cama, está ali por entre as dobras do edredão; uma dor assim apertada, a noite é uma procissão sem velas, ou ela um corpo não velado, ou ela uns olhos a explodirem o grito de terror, ou ela uns dedos comidos na sua guerra meticulosa; uma dor assim apertada, chamada solidão, entre os joelhos e entre as dobras do edredão, o desequilíbrio a qualquer momento, num momento imenso, quando o telefone não toca, uma dor assim muito apertada, com a consistência do medo, com o preço de duas lágrimas, de duas longas lágrimas.

domingo, maio 20, 2007

Ouve-se Sempre a Distância Numa Voz (Rui Nunes)


É a segunda vez que escrevo sobre um livro de Rui Nunes. Escrevi, a primeira, sobre o “A Boca na Cinza”, no Jornal de Notícias, explicando que não tenho pretensões de crítica literária, nem posso, explicando que falta, ou pode haver, o espaço do diálogo directo escritor/leitor, este último atirando-se ao texto, em resposta, na genuína intimidade que o escrito gera.
Escrever sobre este livro é, como sempre, escrever sobre o Autor, que nos marca pela verdade dura dos seus textos, textos escritos contra o medo, talvez o medo que se pressente tentado contra o escritor; sem sucesso. Haja tempo para ler este livro.
O Livro, então:
Esta é a soma, ou o percurso por todos os livros de Rui Nunes. Quem os conhece, termina a leitura com essa amargura: há aqui uma procissão pelas palavras da sua vida e nela se reconstrói uma vida, numa nova história, que é a mesma, a soma de todas, para dizer adeus, com o peso de todas, a dor a atravessar nestas linhas as outras a que se chamou Enredos, ou Grito, ou Álbum de Retratos, ou o Mensageiro Diferido, um legado de legados, e se se ouve sempre aquela distância, quem lê o livro com a voz dele não pode deixar de escutar o anúncio de um qualquer último suspiro.
O espectro do livro é um quarto, onde estão um homem e uma mulher, os únicos corpos que poderiam ter proximidade nesta história, o casulo aberto da história, o lugar onde o diálogo acontece, onde o esquecimento é soletrado no presente, o lugar onde as coisas aparentemente são reais, porque há cheiro, porque há sexo, o lugar onde a pele é molhada, mas o quarto é o ponto de partida para o percurso da memória pela história da sua vida, mesmo quando a história da sua vida é o olhar que pesa muito a pousar sobre as vidas outras, como a metáfora do abandono do nosso tempo, os ucranianos e croatas, as gentes dos subúrbios, os emigrantes a morrerem nas praias prometidas; não é importante, para o efeito, o olhar sim, eles todos, ou elas, as descrições são o que entra pelo quarto adentro, pelas paredes móveis deste quarto alucinado, a fazerem uma pessoa, o homem que está ali, posto naquela mulher, morto pelas suas histórias, que o não deixam ter a proximidade de alguém e por isso a descrição do frio das mãos tem o capítulo da perspectiva dele e o capítulo da perspectiva dela, e na distância de um capítulo pelo meio também se constrói a distância de duas vozes, é ele que obriga a essa distância, sem remédio, ele não se esqueceu da sua história, a sua história esqueceu-o e por isso diz: o meu tu é um desejo (p. 59).
Da memória há dois quadros que vão crescendo ao longo do livro, entrando e saindo do quarto, talvez os quadros que mais vincam a criança que se espreita pela janela feito homem. Duas histórias de abuso, um caçador e um padre, ou dois caçadores, afinal, caçadores de uma memória inocente: o que nos assalta com violência não é a criança a perder-se em dois crimes, é a perspectiva dessa criança: é a descrição minuciosa dessa perspectiva, porque a minúcia é o preço da dor, e por isso quando o caçador se aproxima do rapaz que sabia os nomes das árvores todas, que ia apenas no seu caminho para casa, a dor não é saber que a sua cabeça foi empurrada até um sexo, a dor é sobretudo ler que esse gesto é recordado com a visão exacta da poeira nos atacadores do caçador, com o olfacto presente da pólvora, com a textura ainda na pele da mão que começou nesse dia a matar-lhe a ternura. A ausência dessa ternura é um peso para a vida toda, para as paisagens que se escolhe sem escolher, pára-se onde falta a ternura. Por isso, quando se regressa à infância e se reinventa o pai, reinventa-se o pai com uma ternura que não teve lugar: invento, invento o meu pai e a sua ternura, carrego um gesto e a sua ternura, carrego um gesto que existiu de uma ternura que não lhe pertence (p. 90).
Custa muito soletrar estes episódios, ou os episódios são duros a soletrarem esta pessoa, e por isso eles vão crescendo, devagar, cheios de dor, parecem um terço e as suas contas, suspenso para descansarmos noutras distâncias. Entre nós e o outro há estas distâncias todas: a batina do padre a interromper a voz da mulher – é aqui a tua casa? -, os botões dessa batina ao som das perguntas: quantas vezes pecaste por pensamentos? Quantas por palavras? Quantas por obras? As perguntas a empurrarem a cabeça do rapaz, as perguntas empurram mais do que a mão, para baixo, e o homem que está no quarto com a mulher ainda sabe quantos botões tinha, e tem, aquela batina.
Deus também morre nestes episódios. Ou nunca houve um episódio que permitisse Deus. Este livro tem a memória carregada da memória da dor, da memória de dores continuadas, do pai doente muitos anos, a morte adiada é uma mortalha daquela infância, este homem que tem no tu um desejo está carregado de mortos, dos seus e dos mortos dos outros, os mortos herdados. A morte da avó é um quadro que se constrói a dar-nos a densidade da memória da morte, do que ela faz às pessoas que morrem, às pessoas que ficam – E aquilo acabou. A minha avó (p. 102).
Finalmente, as palavras: dir-se-ia que restam as palavras a uma pessoa cheia de memórias a interromperem o outro, para salvarem a sua proximidade possível, ou para explicarem essa impossibilidade, ou para se pedir perdão, mas cada palavra é também uma memória: é preciso ter medo de algumas palavras (p. 102), as palavras são também o rosto e a voz que a disse, um Hitler a conferi-lhe uma intenção, até essa palavra se tornar inofensiva, e voltar outra vez, a disfarçar o peso daquele rosto e daquela voz, daquela intenção, e crescer de repente com o terror de quem a disse em 1939, no dia em que morreram tantos, à conta da palavra, que agora reaparece numa boca nova. Por isso as palavras estão também cheias de distâncias, há palavras que são sempre murmúrios como outras são sempre imprecações (p. 103), e aqui uma luz imensa sobre este e todos os livros de Rui Nunes: a sua escrita insubordinada, o que ele faz com as palavras, a luta que se sente contra a opressão desta pátria de gramática, porque o que ele quererá, e consegue, é isto: perder as palavras, desorientá-las, destruí-las, desentendê-las, para recomeçar uma palavra que inicie a sua história nos meus lábios (p. 103).
Talvez se consiga com as palavras o que se não consegue com o outro. Nunca se vê o outro: o homem, no quarto, não vê a mulher, a mulher não vê o homem, vê-se sempre o outro perdido noutro qualquer, sem acesso a esse outro, com a raiva de o sentir naquele corpo ao lado. Por isso, a mulher diz, cheia de rancor: acorda, porque me sabe perdido em todos os sinais que te recompõem (p. 108). A história deste homem faz de quem lhe chega perto uma sombra, os fantasmas todos a procurarem na pele ou nos olhos que calhem um lugar para ressurgirem, só numa ficção poderia o homem levar o outro ao quarto e dizer “este é o meu fantasma”, para que uma história começasse ali para os dois ao mesmo tempo, quando ela o visse pela primeira vez, e assim não acontecesse com as pessoas o que acontece com as palavras.
O fim de vida, a velhice, só pode ser um quarto vazio cheio de nomes, salas vazias, e quando a mulher chama pelo seu nome, ninguém aparece, porque o tu nunca se cumpre.
Vou ler este livro o resto da minha vida.

quarta-feira, maio 16, 2007

Página 20 do jornal de hoje:a solidão a fazer notícia

A Palmira vive longe de nós. Palmira, nesta história, é um nome a traduzir outros nomes, sobretudo a solidão, a solidão pode ser o seu nome próprio.
A Palmira passou muitos anos triste por não ter marido, por não ter uma casinha, como as irmãs, como as amigas, como deve ser, por não ter os seus filhos, como manda a condição. A Palmira descobriu tardiamente o viúvo e os filhos dele, um calor que a faz emigrar para uma outra terra, no mesmo país esquecido, longe de nós.
O marido morreu há 19 anos, os filhos dele são dele, e por isso partiram, como o pai viúvo da mãe, morto há 19 anos. A solidão da vida da Palmira tinha um espaço, esse antes de encontrar a porta, o viúvo e os filhos dele, e quando se cruza uma porta assim, tem-se por seguro que nunca mais se regressará ao espaço onde se é uma mulher sozinha, sem gosto ou causa para aquecer a comida, a comida que para ser de uma casa deve ser feita e aquecida várias vezes.
A Palmira regressa à dor de ser uma irmã, não mais a mulher do senhor Joaquim, e as pessoas, muito poucas, que lhe sobram começam a morrer. Pensa na chegada da sua sua hora, um dia em que não haverá quem se lembre dela, uma mulher calada, hoje posta num terreno longe de nós, de onde sai aos sábados para comprar pão e fruta, um silêncio invisível seis dias por semana, e por isso conta no futuro com quem conta no presente, ela, ela apenas. Compra uma campa num terreno seu, no cemitério, inscreve o que um seu sobrevivente deveria inscrever, ou desejar: à memória de Palmira. Paz à sua alma.
Tarda em morrer. Vai tratando da sua campa, onde se vê mais à fente, morta, como agora, uma fotografia oval. Limpa a pedra de mármore e traz flores para a Palmira a pedir paz.
Pode ser que assim não se esqueça dela. Pelo menos ela.

domingo, maio 13, 2007

Ontem não consegui arrancar-te da minha mão

Ontem não consegui arrancar-te da minha mão
Noventa dias idos, visitei o silêncio onde ficou o teu corpo
Um lugar apenas
Muito só, tu, sem nome a avisar uma pessoa, a clamar uma fogueira
Ontem não consegui arrancar-te da minha mão
Uma palavra escrita, a tua mão, pela minha, a assinar este papel
Dir-te-ia agora o nome do poeta que escreve: a mão a assinar este papel
Queria apenas que tivesses sentido o peso da tua mão
A impressão dela num papel
Queria apenas que tivesses telefonado, como nunca fazias
Até ser eu a adivinhar que chegava aquela dor, aquela dor
que descobre sítios inesperados nos ossos
Ou uma outra voz a avisar por ti, queria muito abraçar-te
Noventa dias antes de ontem
Para voltar a abraçar-te hoje, que te soletro cheia de medo
Cheia de medo de te perder
Sem a tua voz a recordar-me dela

quarta-feira, maio 09, 2007

a noite com árvores na boca (Mário Cesariny)

como no verso, a noite com árvores na boca. a casa a entrar pelos teus olhos iluminados na fotografia tua, muito viva, o verde aflito com o sol e com a lâmpada que te avisa da minha entrada. como no verso, a noite com árvores na boca, os teus olhos a reconhecerem o choro dos meus, hoje vindos de outros, muito aflitos, sossegados, quase, até que na boca, pelos olhos cativa, se desenha a frase da minha emigração. como no verso, a noite com árvores na boca, vou chorar, meu amor: estás a chorar, minha querida: cheia de árvores na boca, estou tão cansada, estou tão cansada, estou tão cansada. falasses comigo para dizeres: o teu cansaço é a tua tristeza, eu a responder que a minha tristeza é o meu cansaço, e os olhos de onde venho também iludem com o poder imenso das palavras, o poder intenso das palavras, o poder mortal das palavras: uma frase, a frase, aquela frase, sabes?: sei, dizes, e eu, minha querida vejo uma superfície nas pessoas que é a aceitação desta história toda, até que essa superfície me diz: não existo, mas vais conseguir e um dia vou ver-te de longe, porque de perto não consigo. como no verso, a noite com árvores na boca, o ar que circula contra o meu equilíbrio, este peso a ser soletrado por uma voz tão doce, minha querida, que me não beija, a voz, ninguém me beija, e no silêncio cheio do espaço de um carro projecto-me para trás, lá onde tudo era a dobrar, até entrar em casa e explodir a chorar, nos teus olhos muito verdes, vinda de outros muito azuis, cheia de árvores na boca, a dizer-te, a querer dizer-te que estou tão cansada, tão cansada, tão triste, eu estou tão cansada.

terça-feira, maio 08, 2007

Grito

A única secção do jornal sobre a qual poderia escrever oferece a Diana, lindíssima, a dar aos olhos interessados o fio dental onde se vai pondo os dedos suados; a Andreia, brasileira, com um busto 40, exótica na nacionalidade, coisa boa para o provinciano que as bate todas em português; a caboverdiana mulata clara, que saberá, na sua triste condição, que apetece a muita carteira comer uma coisa dessas; a Alice, que atende para os lados do Campo Grande, afirmando-se pequenina e de seios grandes; a derrotada ex-modelo de “23 a”, a poupar três letras no anúncio; a Marisa com um rabinho pura tentação, pronta para apanhar as bofetadas e os trocos; a gordinha, discreta no superlativo, porque há gente para tudo; a Raquel de Oeiras; ou a senhora portuguesa, a única que oferece a cara como amostra, e ali uma respiração contida, muito contida.
A única secção do jornal sobre a qual poderia escrever recorda-me que a escrita não pode ser apenas bonita, sob pena de ser uma mentira inútil e recorda-me que um dia escrevi a vontade de fazer explodir atomicamente as paisagens que engasgam esta ansiedade de descrever, de descrever a doença, que é sempre a mesma, a solidão silenciosa de tantas condições, e leio mais à frente acerca dos lucros do jornal com estes anúncios e digo: os lucros dos jornais com estas pessoas.
Este é um belo texto?

sábado, maio 05, 2007

Naquele quarto escuro II

O que interessa é que há sempre rosas.
Sempre ouviu da boca de quem usava a sua a mesma frase: o que interessa é que há sempre rosas. Os dias passavam vistos tão de longe que o seu corpo magro ia pelo ar, como uma sombra côncava, para trás, para trás, para trás, enquanto o dia corria, lá fora, distante, longe de si, do seu ser uma pessoa.
O que interessa é que há sempre rosas, dizia-lhe a boca que fechava a noite com a tranca do medo e que caminhava até aos seus lençóis abafando a rua algures e o rasto dos eléctricos do bairro. O dia era uma vida árdua, lenta, demaisado lenta , sem promessa de outra vida, pior, com a certeza de uma mesma morte que sempre se repetia.

- Pousa a boneca.
- Está frio.
- Chega-te ao pé do tio, linda.
- Está muito frio e eu tenho medo.
- Eu não te faço mal.
- Hoje posso não imitar aquela cassete de vídeo?
- Linda, sabes que o tio precisa. Dá cá a mão.
- Eu tenho medo.
- Não chores. Não sejas piegas. Eu não te faço mal.
- Mas ISSO dói!

Apenas para os outros habitantes da casa amarelo gasto a manhã nasce subitamente. Cheira a leite quente com café. Os passos nas escadas são de quem quer que seja até serem os dele, porque esses batem no soalho como batem nas tábuas do quarto de todas as vésperas.

Olha pela porta quase aberta da cozinha:

- Passa-me o pão.
- O que tens?
- Nada, querida.
- Andas distante. Não me recordo da última que demos.
- Não me incomodes. Sabes bem que a enfermaria anda num alvoroço. Um homem não anda sempre de pau feito.
- Estás cada vez mais vulgar. O meu desejo por ti derrete como esta manteiga ao calor.
- E tu estás cada vez mais velha.
- A minha idade não avança sozinha, sabes?
- Pois sinto-me uma criança. Assim como a Mariana. Olha a pequena ali a espreitar atrás da porta.
- Vem cá, Mariana.

(Bom dia).

A dor é a dor do segredo. O segredo projecta-se no lugar exacto onde fixa o olhar aguado de oito anos envelhecidos. Por exemplo: a Mariana fixa os quadrados pretos e brancos do chão da cozinha e espalha a sua memória naquela geometria.

Todos os dias.

Mas não hoje, porque a Mariana morreu de manhã.

quinta-feira, maio 03, 2007

Naquele quarto escuro I

- Despe-te, não tenhas medo.
- Despeço-me?
- Não. Despe-te, fofinha.
- Está muito frio e os meus pés estão azuis, não vês?
- Eu estou quentinho, linda.
- Tens a barba da cor da do meu avô.
- Tenho a barba da cor da do pai natal.
- Não quero.
- Queres.
- Dói.
- Já passa.

quarta-feira, maio 02, 2007

Côncava

Assusta muito conhecer uma pessoa.
Assusta muito que nos conheçam.
Assusta muito que nos assaltem.
Assusta muito a intimidade: a primeira indignação
Chama-se intimidade.
E assusta muito
Os gestos imperfeitos a ganharem uma forma.
Assusta muito recordarem-nos de uma memória curta
Para ter por igual, por idêntico, por normal
O que nesse dia nos atiram, de repente, num gesto perfeito
Com uma forma que tem um nome:
Intimidade
E que assusta muito: dar como sempre
O corpo antes da cabeça, ou da alma,
Do que se queira chamar a isso
A isso que dizemos eu
A que o outro chama de tu
Essa palavra quase impossível
Assusta muito que se escureça a distância
Entre um corpo muito veloz nas curvas
E um tu a que se chega por uma estrada longa
E nessa escuridão sai um gesto perfeito
Com a forma da intimidade
Antes de existir um eu ou um tu
E por isso assusta tanto
Assusta, assalta, ataca
E mata o gesto muito imperfeito
Que ia a caminho, no seu caminho
Da intimidade outra,
Que é esta mais à frente
E que assusta muito.
E que assuta tanto.