segunda-feira, dezembro 17, 2007

Ainda a primavera tão longe e pareceu-lhe sentir uma andorinha no novo parapeito da janela. Dirá: foste, tu, talvez. Ou: és tu, com olhos de azeitona.
Deitou-se no chão muito cansada e ouviu a voz desaparecida: hoje o teu medo é regressar ao medo, minha querida. Respira, respira, respira e não tenhas medo do medo. Esse teu corpo a tremer e essa tua vontade de gritar agarrada a uma fotografia é uma pequena queda num movimento que se dirige a uma promessa. Obedeceu, muito quieta. Agarrou tremendo um cigarro e um copo qualquer e chorou enfiada na pele dela, que dor a sua dor, que difícil não enlouquecer quando sente aquele abandono, quando refaz com o próprio corpo os gestos do outro corpo, muito só, com cigarros trémulos, também. Diz na sua boca a frase que já foi dela: eu sem ti ficaria sem um braço.
(dizemos a frase ao mesmo tempo: uno o som dessa tua frase de há anos ao som da mesma frase agora minha e pergunto: como faço para viver sem um braço, minha querida?)
Depois falou dessa voz desaparecida a uma pessoa que é verdade
(parece-me que ontem quem nunca te viu deu pelas tuas mãos pequeninas).
Foi uma andorinha, minha querida, uma primavera a entrar por aquele parapeito, a aterrar na minha almofada e a transpirar sem demónios na pele. Talvez não tenha dado pela contenção dos meus olhos, mas pousou a cabeça no parapeito do meu peito, senti o peso exacto na minha respiração e nem uma grade, minha querida, nem uma grade.

segunda-feira, dezembro 03, 2007

Para a R.

In Paris With You

Don't talk to me of love. I've had an earful
And I get tearful when I've downed a drink or two.
I'm one of your talking wounded.
I'm a hostage. I'm maroonded.
But I'm in Paris with you.
Yes I'm angry at the way I've been bamboozled
And resentful at the mess I've been through.
I admit I'm on the rebound
And I don't care where are we bound.
I'm in Paris with you.
Do you mind if we do not go to the Louvre
If we say sod off to sodding Notre Dame,
If we skip the Champs Elysées
And remain here
in this sleazy
Old hotel room
Doing this and that
To what and whom
Learning who you are,
Learning what I am.
Don't talk to me of love. Let's talk of Paris,
The little bit of Paris in our view.
There's that crack across the ceiling
And the hotel walls are peeling
And I'm in Paris with you.
Don't talk to me of love. Let's talk of Paris.
I'm in Paris with the slightest thing you do.
I'm in Paris with your eyes, your mouth,
I'm in Paris with... all points south.
Am I embarrassing you? I'm in Paris with you.
(James Fenton)

quinta-feira, novembro 29, 2007

A funcionária

Quase invisível, dir-se-ia, a sombra de lãs neutras, ali sentada, há trinta e cinco anos. Calhou que os olhos eram olhos de chorar aflito e ela ali a passar encontrou-se nesses olhos, daquela sombra quase invisível, dir-se-ia, uma sombra de lãs neutras. Precisava apenas de uma pergunta – o que tem?- para desensombrar-se num choro então audível, explicando a dor de ouvir uma repreensão injusta depois de trinta e cinco anos a sorrir por fora. Ali, de repente, no espaço de um corpo quase invisível, uma revolução: o parto das dores de uma vida inteira, vida subitamente revelada como uma introdução à mágoa de hoje, Angola abandonada, marido morto tão novinho, uma vida de viúva sozinha, de filhos seus e bastardos por criar, sempre perdoando, e agora isto: uma repreensão injusta a matá-la de vez.

sábado, novembro 24, 2007

Pensamentos imediatos II

As mulheres têm uma coragem muito específica: verbalizam o que sentem. E assim permitem a muitos (finalmente) falarem.
Para concordarem com elas.

quinta-feira, novembro 22, 2007

Pensamentos imediatos I

(Notícia no jornal de hoje: descoberta de fóssil mostra que já existiram escorpiões maiores que um homem)

Ainda existem. Ainda existem.

sábado, novembro 17, 2007

tudo o que acontece é um parêntesis na saudade.
presta-se asim muita atenção às portas e às paredes que são isto:
-uma pessoa a dizer até amanhã;
- um sono interrompido;
- a previsão da segunda parte do sono;
- um papel tingido de lápis dos olhos;
- o silêncio de um copo vazio;
- o silêncio de uma carta que não chega;
- o frio a crescer nas costas;
- o silêncio do fumo do cigarro;
- as pessoas ao fundo da fotografia;
- o silêncio dos livros por ler;
- o silêncio;
- os ruídos interiores;
- o silêncio;
- o silêncio.

terça-feira, novembro 13, 2007

Os seus dedos aventuram-se trémulos no teclado. O peso dos sonhos, mesmo os não recordados, dizem-lhe é hoje que te não aguentas. Frases, músicas, choros, sorrisos dela são o estuque deste tremor. Penteia-se ao espelho e imagina a perplexidade alheia: tão nova, tão bonita. Minha querida, por quê?, pensa. Tem um remoinho no centro da cabeça que puxa pelas lágrimas de fora para dentro, as sombras estão no lugar, a chave do carro dita a luta de sempre: um dia por cumprir. Sem enlouquecer. Os corpos todos já não amparam tanto medo físico, chegou o dia em que o peito esmagado por outro não se dá por vencido, nem por quinze minutos. Sim, sim, claro, diz, que interessante, diz, e por dentro a gritar desaparece porque estás a diluir-me. Fica para ali cheia de humidade sem dono ou sem intenção ou sem amor. Na noite anterior, numa estrada ondulada, deu pela sua solidão, não como sempre, mas num tiroteio que a conduziu, silenciosa, até à morte de tudo isto que é dizer boa noite. A invenção do amor é o poema que referencia uma nova manhã.
Pode ser que ninguém dê por tanta pele amedrontada. Pode ser que ao entardecer um sorriso tenha a generosidade de um sentido.

sexta-feira, novembro 09, 2007

Anda a ler exortações. Deus traiu os séculos todos e afinal não existe. É por isso que a cama dói de noite. A dor é sempre uma ausência. Por isso dor e solidão são a mesma coisa. Imagina uma pergunta, o que te fez sofrer?, e sabe a sua resposta, foi o normal, amor e morte, se é que não são sinónimos. De noite concentra-se na mão direita, no antebraço, no pescoço, na testa, nos olhos, e por aí fora, obediente aos exercícios descritos numa folha, vencer a ansiedade, pensa: deus não existe, e masturba-se com rapidez, até matar deus de vez, que já era apenas uma ausência, até dizer, enquanto se esfrega: que restará de deus se pensar nele em minúsculas?
De manhã, quando lhe dizem que o jornal não chegou, perde a cabeça e explode a chorar.

segunda-feira, outubro 29, 2007

Memórias

Um dia encostou a cabeça nos meus joelhos. Quinze anos depois, uma frase de alguém a dizer-nos o que se não ouve: eu estou ali com a tua cabeça nos meus joelhos, enterro os dedos num cabelo muito espesso e espero. O gesto foi apenas esse.
Há pouco tempo dizia-lhe: se tu morresses seria como amputarem-nos um braço. Dias depois, é ela a amputada. Quase a chorar sobre uma lápide e num ápice é já de manhã, houve um serão entre parêntesis, gostava de te ver decomposta? Diz não, pousa os joelhos nas datas brancas e de manhã a tua morte interrompe-se: sou a mãe dele. E numa frase assim começa a escrever: um dia encostou a cabeça nos meus joelhos. Quinze anos depois é o mesmo corpo, talvez mais bonito, e pensa: que bom seria beijar-te.
Ele regressaria à sua vida sem a possibilidade de sentir a dor daquela morte. Dir-te-ia: morreu-me uma mulher. Então, talvez com a cabeça encostada no meu peito nu, me pudesses dizer: fala-me dela.

segunda-feira, outubro 22, 2007

J.

A frase:

- és tão alegre
.

Depois lembrou-se de um texto antigo: você tem um potencial de alegria deslumbrante, mas todos os dias mata a sua felicidade. Nesse texto, reproduzida, a voz que escuta com mais atenção.

E de repente, tantas alegrias mortas, tantas mortes passadas:

- és tão alegre.

No seu silêncio, a escutar a frase, uma contenção violenta para não explodir a chorar. Ou para não assustar aquela boca de sabedoria instintiva dizendo: se tu soubesses a alegria que me dá dares pela minha alegria. Porque de repente sou eu, de novo, assim: tu a fazeres de espelho num lençol desgastado. Entendes isto? Se tu soubesses da missa metade, mas não sabes, pouco importa, estou tão cansada de contar de me contar de contar-me e depois nada, psicologias suadas, inúteis, presunçosas e a falta que afinal me fazia quem antes de saber dessa falta diz de repente:

-és tão alegre.

sábado, outubro 20, 2007

Sábado

E chega uma dessas manhãs. É nelas que se abatem os cinco dias sem tempo para abaterem, sem corredores onde respirar. Respirar. A tristeza é um cobertor que varia em camadas: uma manta fina sexta de noite que acorda feita em lã grossa, muito pesada. As noites de sexta são então o início da tristeza.
E chega uma dessas manhãs. É nelas que se abatem os planos da véspera, morrem, um a um, o peso atira-nos para o chão. Sem ar. Há uma febre que nasceu de noite, quando a vida ficou mais ou menos absurda: uma nova licenciatura por cumprir, à conta de provas de esforço ou uma, duas, três rejeições choradas sem equilíbrio, um não quero ver-te a fazer sangue, a mãe a internar a filha, e assim chega uma dessas manhãs.
É nela que dor a dor se faz cada raiz de cada cabelo. Consciência do corpo é o mandamento em cima de um tapete azul, por isso consciência absoluta da febre, dos pulmões fechados, dos poros sebáceos. Dói, dói, dói e assim começa o início do meio da tarde. Os cinco dias sem tempo, sem tempos, a engrossarem o cobertor até ao segundo muito situado em que a música nos ouvidos fica mais baixa: este grito lancinante acompanha a febre que cresce e o corpo chora pelos olhos, vagueando entre os móveis abandonados, olhando uma fotografia até a desfazer em pedaços.
E acaba uma dessas manhãs. Quase, quase louca: afinal de pé, com todos os planos por incumprir.

terça-feira, outubro 09, 2007

Consolação

Está à beira de um ataque. Um ataque é uma loucura instalada a prazo nesse corpo. Ser a prazo não alivia em nada a dor do ataque, porque nesse prazo a dor é infinita, mas hoje o espaço é o que se sente antes, mesmo antes do ataque.
Está onde deve estar. O que inicia a sensação real de peso interior é estar onde deve estar. A sua pele, os seus olhos, pior, o seu olhar, tudo isso deve estar aqui, onde um computador dita ordens por cumprir e onde uma porta se abre de dez em dez minutos a marcar a normalidade que é isto: trabalhar.
O que seria normal, no entanto, está a dizer-se por dentro, mudo, mas com a força de uma gritaria numa sala almofadada, um quadrado perfeito, branca, muito só. O que seria normal está a desenhar uma fuga: o carro aqui tão perto, pensa, era só ter forças para chegar a ele, acelerar, passar a cancela, entrar em casa e mergulhar na prisão voluntária da sua cama, ali onde vomita o peso do medo e hoje, particularmente, o peso do cansaço, que também é medo.
(Tudo é medo).
Não quer morrer. Quer adormecer. Parece simples este querer, mas não é, porque o demónio do quotidiano sai-lhe pelos lábios verbalizado num sim, claro, almoço às horas tal e tal.
Engole um remédio branco para aliviar a exigência de descanso que saiu do remédio azul e para poder circular sem cair dos saltos dos sapatos, a pedir aos gritos que a levem daqui para um lugar onde possa dormir; não é morrer, é dormir.
Os sonhos da noite passada estão magoados por uma voz materna que lhe diz estás louca, é esse o sonho que treme nos nós dos dedos e que se interrompe quando o rapaz entra na sua sala e pergunta: estás bem?
Não mente, diz que está como está, mas a resposta sem a fronteira da sobrevivência num vestido, mesmo de algodão, seria assim: hoje estou com a cabeça pesada, mas pesada num sentido que não dá para esvaziar em palavras. Olha, estou com o peso que me avisa que a qualquer momento vou gritar e dizer eu não posso mais, eu ando para aqui cheia de medo e de mortos às costas, a minha cabeça parece uma areia movediça e engole-me pelos pés. Vou ali e já volto, mergulhar no mar, ou numa cama, e preciso de chorar muito, e preciso de ganhar coragem e dizer que este ano devia estar sossegada e não fazer mais que isto. Eu odeio chegar a casa às onze da noite com medo do meu corpo, do meu corpo dentro da minha cabeça. Eu preciso de fugir de mim, da minha família, do sangue lento que é a dor de todos eles, eu preciso de fugir das minhas plateias, eu preciso de agredir a ausência a que me agarrei tantos anos, e que se chama Deus, esse filho da mãe, literalmente, e culpá-lo de tudo, foder a pensar nele, ou Nele, já viste que alívio e que dor culpar uma ausência por esta merda toda?
É isto. A dor antes do ataque é assim.
Eu não quero morrer. Eu quero, eu preciso de adormecer.

quarta-feira, outubro 03, 2007

Evangelho

silêncio. silêncio. silêncio. depois, adormeceu. então, o silêncio deixou de dizer-lhe o que magoa.
de manhã, o silêncio chama-se contenção. à hora do almoço, o peso do silêncio finalmente parte-se. consegue. chorar.
dá com o evagelho de hoje. lembra-se de quando era seguidora.
lê:
Evangelho segundo S. Lucas 9,57-62.
Enquanto iam a caminho, disse-lhe alguém: «Hei-de seguir-te para onde quer que
fores.»
Jesus respondeu-lhe: «As raposas têm tocas e as aves do céu têm ninhos, mas o
Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça.»
E disse a outro: «Segue-me.» Mas ele respondeu: «Senhor, deixa-me ir primeiro
sepultar o meu pai.»
Jesus disse-lhe: «Deixa que os mortos sepultem os seus mortos. Quanto a ti,
vai anunciar o Reino de Deus.»
Disse-lhe ainda outro: «Eu vou seguir-te, Senhor, mas primeiro permite que me
despeça da minha família.»
Jesus respondeu-lhe: «Quem olha para trás, depois de deitar a mão ao arado,
não está apto para o Reino de Deus.»
termina a leitura. recorda-se das interpretações que salvavam o texto.
sente uma vaga náusea.
e regressa ao silêncio.

terça-feira, setembro 25, 2007

Segredo

Às quatro da tarde diz volto já
E só ela sabe daquele deserto
Os lençóis para tremer até passar, até passar, vai passar?
Vou passar-me
Depois volta,como se nada fosse
Do mundo,ali,sob o edredão
Onde se conta: duas horas para recuperar e dizer
Então, sempre fazemos assim ou assado?
Dizem-lhe: que bonita
Pensa: que alívio
Os lábios da sua mãe são também lábios de mulher
Perdido um, dois, três
Não grita, antes sussurra: podias ser
E escuta: não sou bonito
E olha as mãos que comandam as dela
Ao sexo
Ali onde de muitos em muitos anos
Repousa também uma cabeça
E escreve: que literária, a minha dor
A minha perda
A minha vida
Uma dia afogou-o no peito e respondeu:
Claro que sim, também gosto
E noutro dia queimaram-se em delírios
Encharcados, sovados, engolidos
E fez-lhe um corte na nuca, escondido pelos cabelos
Lambeu-lhe o sangue a gemer isto é tudo um sonho
E chorou

Amanhã espera sobreviver às quatro da tarde

quarta-feira, setembro 12, 2007

sete meses hoje

sete são as chagas de nome meses que correram entretanto. numa mesa, por acaso, dizia-me alguém que deu muito por ti. aterras de repente, nesses instantes, no meu corpo, um estrondo sem som, antes muito peso, és uma bomba atómica de dor. tanto de deus neste número sete, descansado ao sétimo dia, ausente os dias todos, grito. nunca te conjugarei no passado. amo-te.

sábado, setembro 08, 2007

Regresso de uma viagem de muito longe

Afinal sempre se regressa e só por duas vezes o medo me encolheu, como hoje, já regressada, entre um golo de vinho e uma passa de cigarro, os restaurantes são os meus campos de concentração, sobretudo quando é novo o vizinho em frente e, por isso, de repente, ali no espaço entre um golo de vinho e uma passa de cigarro, o sangue encosta-se todo na camadinha superior das veias e o medo corre sem aviso, cá estou eu outra vez, digo, e aguento, aguento, afinal aguentei o oriente a seco e, passado o medo, digo vem cá e dou cabo da dor que me fica como sei.

sexta-feira, agosto 17, 2007

Agosto II

em Agosto é usual, dizem-lhe, tirar um dia de férias para isto. uma multidão no número da primeira de três senhas: 365. um ano de pessoas e agarrada à sua vez, senta-se a um canto
E pensa:

- vem aí, vem aí, vem aí.

(as costelas apertam lentamente, mais e mais, o seu coração, respira a lutar contra essa opressão)

E pensa:

- nunca vou ficar boa, nunca vou ficar boa, nunca vou ficar boa.

(não vê as pessoas, mas os pormenores delas que as matam, que a deixam viva em agonia, vê o salto agulha de uma menina apressada, vê o som do verniz a escamar, da mulher ao lado, vê os olhos cegos da rapariga “prioritária”, vê o choro da criança ao colo de um colo qualquer, vê o homem de olhos amarelos, esbugalhados, a ser medido e a gritar um metro e sessenta, vê a pessoa que lhe morreu nisso tudo, vê a sua própria lágrima cair-lhe nas costas da mão que treme, vai à casa de banho e sai de lá um avental a dizer que aquela é só de serviço, mas o avental tem pena dela e diz sente-se aqui e chore à vontade)

E pensa:
- isto dói tanto, isto dói tanto, isto dói tanto.
(às vezes pensa na sua mãe, pensa no seu pai, dizendo, muda, mãe, pai, pai, mãe; às vezes entre dois gritos agudos da máquina que dita o número do cidadão a atender vê-se morta, um alívio, diz: porque não aguento mais esta dor. mas dói mais saber que não morrerá, pai, mãe, mãe, pai; às vezes o telefone toca e há uma voz que lhe permite explodir a chorar e confessar)

O que pensa:
- eu não ando nada bem. nada. tenho muito medo. estou muito só. eu não ando nada bem e tenho ataques de pânico difíceis de soletrar.

E ouve:
- por que não telefonas? é que não me interessa nada viver assim.

E pensa:
- preciso tanto do meu irmão.

(alargou as costelas depois das cinco, já sem febre, e do número 365, chorando muito este ano de morte, de medo e de desencontros)

quinta-feira, agosto 16, 2007

Agosto

Esteve fora e hoje parece-lhe que nunca saiu do parapeito da janela
Lá onde se acumula o pó a contar a sua ausência
E hoje a dizer-lhe: regressaste e olha o que fizeste
O que nos fizeste
Ou: por onde andaste?
Andou por um lugar qualquer e desses dias interessa apenas
O instante em que olhou o céu
Estava caída numa areia branca muito preta pela noite
E não sentiu absolutamente nada
Sorriu para umas palavras que lhe chegavam de cima
Numa outra língua
Não as ouviu
Ou ouviu o rumor delas a não atrapalhar aquele céu
E pensou: eu, aqui.
Depois voltou e disse
Estive fora e parece-me que nunca saí do parapeito da janela
Estou para aqui decomposta neste pó que me conta a ausência
Andei por um lugar qualquer a amassar-me toda
Um dia deixei de respirar
Depois dormi muito e nadei o mais que pude
E houve o instante em que olhei o céu
Cheio de estrelas mudas, estava tudo muito quieto
E eu não sentia nada, nada, nada
Olhava e pensava: eu, aqui.