domingo, janeiro 21, 2007

espelho teu

tem calma, dirás?
um frio inesperado: descobrir a mácula do amor.
o frio no quarto do hospital tem a culpa dessa face obscura do amor.
quem permite ver-se amado assim é um tirano disfarçado.
(cambaleante, está a desamar-te).
este frio tão repentino, sombreado de mágoa; que serei para ti que não um espelho?
espelho teu, espelho teu, dois pregos caídos nesta cama, os meus braços sem préstimo, a tua crepitação, a tua respiração ofegante a revogar o medo da meia-idade.
fazer do outro um espelho é despotismo, espelho teu, espelho teu.

quarta-feira, janeiro 10, 2007

como o sentires: assim o mundo

as coisas não estão assim tão negras, minha linda.
eu digo-te isto e não creio em nada do que os meus lábios vão mentindo. queres lá saber se a descrição das imagens, mesmo com sangue nelas, é outra que não um cume cheio de gelo; dirás, como Rimbaud, acredito que estou no inferno, por isso estou nele. vou talvez parar esta boca tão social a querer agarrar-te e dar-te uma outra voz, essa já percorrida na vizinhança da verdadeira realidade: outra há que não a que sentimos? não, pois não, minha linda, e recordo bem a estrada velha de sintra cheia de curvas nos únicos momentos de irreais rectas; então poderia acelerar o carro, o meu corpo ficaria intacto, diria a geografia, mas eu acreditava que estava numa tão precisa curva, por isso estava, que fazer se não travar a fundo, antes que morta, e pior que um corpo dilacerado é um cérebro assustado.
as coisa estão negras, minha linda, se assim o dizes. fala-me desse mundo negro para que foste atirada, chora o que te obrigar a dor e mata sem piedade quem se atrever a dizer-te louca.

sábado, janeiro 06, 2007

liberdade breve II

parece que sim, que se oferece a um carrasco que diz:
já te digo qualquer coisa.
parece que sim, que o dia todo valeria nada sem essa maldade
por que se espera, sempre, e para sempre,
em cada tão magoado e adiado minuto
parece que sim, um barulho seu nas escadas, uma linha de pó
inalar-te sem espelho por baixo, ou tu o espelho,
mas só quando sais e se recorda em ti o que posta lá não foi assim tudo
parece que sim, uma doença que se ausenta num tempo breve
o passeio em liberdade, a resignação ao que possa ser
possa ser um coração menos apressado, uma paz neste palc0
já te digo qualquer coisa, parece que sim
meu amor

vem

não sei se haverá amanhã contigo, nem se sabes que tenho o túmulo que chama uma morte sem agonia, nem se sentes que andas seduzido pela morte errada, nem se entendes que falo de túmulo para te dar um outro lugar para morreres, nem se ouves o que te escrevo, isto que te salva, por trás de cada linha, uma presunção, este túmulo a chamar por ti amanhã e o meu rosto depois uma linda lápide.
não sei se haverá amanhã contigo, sei que me expando hoje de noite para essa possiblididade, sem saber se o aviso de que estás doente quer dizer que não há amanhã contigo, como um barco, prefiro pensar, que não perde o destino à conta do farol, vem ter comigo, estou a pedir, sem o som da tua adesão, sem a certeza de que estás comido pela mesma condição, eu espero que haja amanhã contigo e que morras neste túmulo um pouco cavernoso até que haja amanhã contigo e que possamos morrer a morrer.

sexta-feira, janeiro 05, 2007

retrato

este rosto que vês hoje, assim sem deixar adivinhar que sou magrinha
não sei bem como o vês: talvez nas tuas pálbebras um espelho, e o meu olhar trema como as mãos, assim triste, assim excitado, assim calmo, assim morto, assim a nascer
(para ti)
este rosto que vês hoje passou todo nas minhas costas
e ontem - imagina - os meus dedos não aqueciam, na cama, uma insónia à conta de dedos frios
uma agonia em extremidades
mãos frias, mãos mortas

vai bater àquela porta

não dou pelas mudanças - digo - excepto ontem e hoje, que as sinto todas
esta calma desconhecida, este vazio de ansiedade
este silêncio de medos
fosse uma pele cheia de cheiro a fazer-me assim, hoje tão ondulante,
mas sabes bem que não, que não, que não:
rendi-me.

terça-feira, janeiro 02, 2007

nos últimos dias

um agrafador une-te a este saco apertado, entre a garganta e o umbigo, fora e dentro, como o teu movimento
e lá fora, bem (lá) fora da minha cabeça, escuto com vaga atenção o cão rafeiro que tinha um nome.
ainda não deste por esta película, tão bonita a tapar o teu buraco, o meu buraco, o que fiz de mim: nos últimos dias.
aquele ganir mansinho que o jackie não abandonava, uma orelha meia comida por uma lepra de cão, o medo que ele tinha de ser apanhado em cima da cadeira dos casacos: saltava de repente e fugia encolhido, com uma pata que nasceu já sem uso a abanar deficiente.
e eu...naquele tempo...não chorava.
passei a mão nas escadas e senti os passos que não tens dado nelas; bati à porta de uma vizinha velha e disse-lhe: vim aqui desejar-lhe um ano de merda e continue a caluniar-me que eu gosto.
um sol de janeiro a acalmar uma margem qualquer, as pálbebras tristes do meu cão ressuscitado, um lenço nas minhas mãos trémulas e um sorriso só a olhar o paredão:
é que eu... naquele tempo...não chorava.

segunda-feira, janeiro 01, 2007

eu te digo

eu te digo, o primeiro dia é um amontoado de terra, escura, fria,
cá de baixo respira-se a ouvir o som de uma guitarra, ao longe um piano a ampará-la
(a amparar-me)
eu te digo, o primeiro dia decompõe em humidade tudo o que era seco no lugar certo, está a pesar, tanta terra, eu vou, já te digo onde porei os meus olhos...
contei todas as pedras de dois metros de calçada, os passos da minha infância, os gestos da tua agressão, os teus dedos a isolarem a unha que traça o corte, um risco, um risco quase fundo e tão arriscado cuspir a merda toda que os pratos da bateria explodem por mim …
eu te digo, o primeiro dia junta no céu a saudade do amor e o grito aflito de prazer, a histeria em que fica o corpo depois de se perder o ar…
arrumei a roupa da cama e descobri uma mancha tua, cheia de séculos, uma cicatriz nos meus lençóis, a pedir um luar que lhe dê menos insanidade…
eu te digo, eu vou tomar banho e enrolar o cordão do chuveiro no pescoço para te sentir passado com uma gaja nua de pescoço atado, antes que sem ar de vez, depois, eu te digo, um espelho, um gelado de laranja por vinte escudos, no fim de dia de praia, e afinal uma mulher já feita, posta para aqui a olhar para o que resta de ti, uma mancha na minha cama, mais morta que merda de pombo,
ou pegar numa fotografia e antes dizer:
eu nada te digo e esfrego-me na tua mancha e devolvo-lhe cheiro e passo-me numa pátria de loucura, a dimensão do teu esquecimento, a aflição do teu recado, eu vou, sem te dizer, eu a rir sem parar, enquanto me esfrego toda, a rir sem parar, i know some day you´ll have a beautiful life, a cantar, a gritar, é assim que me passo…
havias de ver.

sexta-feira, dezembro 29, 2006

uma mulher sente...

uma mulher sente, uma mulher sabe...
hoje pareces-me um outono inclinado, enganado, a véspera do inverno.
uma mulher sente, uma mulher treme...
resta um pouco de dia, uma pompeia por submergir: tu a examinares o quê?
uma mulher sente, uma mulher sabe...
( não há sorriso burguês que apague a certeza que lhes oferece esse silêncio)
uma mulher sente, uma mulher sabe...
hoje pareces-me uma penugem de cisne a pesar como chumbo; hoje pareces-me a bengala de ti mesmo.
uma mulher sente, uma mulher sabe...

insensata toda a palavra que não o grito que não é palavra
insensata toda a desculpa que não a culpa de não ter culpa
insensato todo o pedido que não seja: isso, isso, isso, minha besta...
uma mulher sente, uma mulher sente, uma mullher sente...
tão mais que o sentir que queres que sinta na pergunta: sentes, sentes, SENTES, querida?

uma mulher sente, uma mulher recorda
uma morte pelas pernas, uma vida pela boca
uma mulher insensata sente, uma mulher triste recorda
e sabe que não sentes.

quarta-feira, dezembro 27, 2006

veneno

com uma reforma de dez dias para gozar, pede ajuda sempre que acorda: o silêncio de não ter de se apressar e, nesse silêncio, que é o vazio dos pretextos, está aterrorizada.
saberá alguém dessa (sua) reclusão?
os demónios todos a aproveitarem o carro que não sai do parque em frente:
- hoje ficas por cá?
a cabeça cheia do seu veneno, o medo de se perder nele, o tempo sem o amparo dos horários.
- vais chorar, doida?
talvez ficar de pé, a provar o equilíbrio; talvez correr à frente do medo, a cansar a ansiedade; talvez pegar no telefone, a descobrir uma pessoa.
isto dói.

segunda-feira, dezembro 25, 2006

vício, amor?

pode o amor nascer de um vício? ou: pode o amor ser já esse vício? ou: pode um vício ser amor?
querer repetir é miserável, de pouco que exprime o querer da viciada; quer que a repetição seja só o princípio da pronunciação da próxima vez. transportada nesse momento incerto, não lhe chega a memória aflita da pele a arder; quer, é isso que quer, dar mais, provar mais fundo, ousar como se não ousa, dar-se até ao gesto que o outro se proíbe, menos ali, onde se vê adiada, suada.
pode o amor ser um vício?
tantas histórias de amor, os sintomas todos outros, aqui um pulsar diferente, por ver no outro o mesmo abismo: quem se mata primeiro, meu amor?
pode o amor ser pensar pela boca, pode o amor ser respirar pelo cérebro? não é desejo, porque o desejo não mata os cenários depois dele, e os cenários andam mutilados, aos bocados, uma guerra: uma guerra pacífica, por isso de amor?
querer, querer, querer, em paz, isso, em paz, querer, fazer tudo o que nos seja exigido, por este fogo, pelo outro, por nós, por uma cabeça assim como a nossa, a mesma transgressão, e a paz de se saber um espelho, e a paz de querer o repouso e o verbo naqueles braços: é isso, o amor?
ou: isso também é amor?
mesmo sem a imposição de dar nome a um bicho novo, não sei o que faça com os antigos.

sábado, dezembro 23, 2006

eclipse

- estou tão doente, minha querida. que é feito do negro dos meus cabelos?
o outro homem, na cadeira a metro e meio de distância opaca, olha a frase a cortar o ar do quarto e vinca com a sua dor todas as rugas que lhe mascaram as agressões.
- tu tens a beleza e a força da juventude e sim, vê-se bem a tua violência, não te darei o que esperarias de mim, uma ilegitimidade, os meus lábios nos teus, digo-te apenas que estou tão doente, minha querida, que me pesa o silêncio do telefone.
a mulher pousa a mão nos dedos dele, treme, como sempre, a não se atrever no gesto longo sem o medo de quebrar a rotina da solidão.
- arrisca-te, nesta violência, pior não ficas, conta-me todas as tuas mortes.
- essa tua crença nas palavras, que eu não tenho, estou tão doente, minha querida, essa tua crença na confissão, católica, eu não acredito em nada disso.
- o que queres de mim?
- que fiques aí, a ouvir, a dar-me proximidade; eu acredito no poder da proximidade, esquece a possibilidade de uma história, a minha vida tramada, estou tão doente, minha querida.
o outro homem lambe a mortalha e apaga-se do cenário, até ser chamado, um grito numa mão que lhe ampara as costas, a da mulher, que lhe inveja o corpo, o único que o outro não estranha.
- ajuda-me, diz.
seis janelas após o alcool a calar os argumentos; seis tumores sobre o mundo daquela sala: os olhos deles.
a segurança de se receber um corpo novo pela mão de um antigo.

quinta-feira, dezembro 21, 2006

Quietos: ele chegou

porque te vi, todos os outros, hoje, são uma ironia.
podia dizer-lhes:
- parem quietos, não percebem que não sou nada disto?
um beijo, o teu, o de ninguém, estou aqui, como sabes.
até ao teu próximo regresso.

quarta-feira, dezembro 20, 2006

os teus regressos

regressaste.
cansado, sempre, ausente desta pátria contenciosa, a tua voz, alguns minutos, a permitirem na minha voz uma pátria?
a geografia reduzida a poucos metros, mas os teus sons são tão estrangeiros nesta terra, por que sofres, por que ficas longe, tão longe, quando te aproximas?
irei ter contigo, a rotina nunca rotineira, a nossa calçada, o medo da tua morte, ou nada disso, o medo que morras sem diluires este peso?
talvez o rio, o travão do carro a travar-me, talvez a tua palavra a calar-me, talvez o teu silêncio a dizer tudo?
voltaremos, mais uma vez, a doer, a doer, a doer: os nossos passos?

domingo, dezembro 17, 2006

o tempo que resta ou o poço numa mulher

pedes-me que escreva sobre o poço que vês no sexo de uma mulher. escuto-te e sei do que falas, sei do que sentes. mas não posso escapar à minha madrugada, despertei inquieta, tão cedo, e revisitei o filme que sempre me faz pedir aos olhares cativos que experimentem, que experimentem, sair de outros poços que não este de que falamos e que ousem sentir as esquinas de corações de carne igual, em corpos que vivem nos quadros que são atirados para o que não merece acolhimento. o amor de dois homens, ali, no filme, o desejo de dois corpos masculinos, só um sabendo que o tem no abismo do tempo que lhe resta; estou em silêncio, começo a chorar, antes de ser pela morte anunciada, já pela solidão a que está sempre vetado quem ama fora das imagens que merecem a partilha abençoada de todos, começo a chorar por todos os tempos esgotados em amores vividos sem um gesto paterno, um sorriso materno, uma refeição familiar, e este filme sem cedência alguma, a dar espaço à ganância de dois corpos masculinos sempre indigna de imagem.
o tempo a esgotar-se e só uma avó sabe dele, escolhida para o anúncio por estar próxima também da morte - diz; mentira, escolhida por ter vivido também fora de uma moldura, a fugir do filho que lhe recordava todas as expressões do marido morto, a entregar a viuvez ao sexo inconsequente, uma puta, enfim; antes uma mulher a sobreviver, para quem tem olhos de gente, um poço misterioso a contar uma história, o sexo desta velha.
o morto em breve sempre a regressar-se à infância, sem espaços nessa voz muda, o outro eu a consolá-lo, os poços dele, as memórias, as metáforas que fez dos ensinamentos da infância; como tu, com os teus poços, o perigo deles, o mistério neles, a vertigem da morte, hoje, para ti, o sexo de uma mulher. como um poço, uma viagem certa, uma dependência, com avisos na inclinação, não se vá nele cair, ninguém nada no fundo de um poço, ninguém conhece o fundo de um poço, ninguém se salva no fundo de um poço, e todas as crianças espreitam os poços na tentação do mistério desse fundo escuro, como em adulto espreitas o sexo de uma mulher, sabendo bem que dele só conhecerás as franjas, por mais que o mistério de um útero inteiro te derrote, não saberias sobreviver nele, podem apenas os teus dedos e o teu sexo entrar e sair, espreitar a morte e regressar à vida, ou tocar a vida antes de um espaço mais longínquo de morte e voltar à ignorância do exterior.
talvez morra, numa praia, com a mão no meu sexo.

sexta-feira, dezembro 15, 2006

até tudo

eu seco o teu cabelo. eu limpo os cantos da tua boca. eu desato os nós desses dedos.
se quiseres, fico calado, a assistir ao teu silêncio, quietinho, com um copo de leite morno na mão, à espera que digas passa-mo cá, à espera que nada digas e que o leite arrefeça, como os teus pés, azuis de frios.
eu lavo as tuas axilas. eu perfumo a tua barriga. eu humedeço as tuas chagas com a minha língua.
se quiseres, fico deitado, como tu, a olhar o mesmo tecto, e não me permito movimento algum, apenas o da tua respiração, até que me digas chega-te para lá, até que mais alguém te seja desconfortável.
eu massajo os teus joelhos. eu lavo os teus dentes. eu limpo os teus ouvidos.
se quiseres, levanto esse corpo da cama e levo-o a passear pelo corredor, até que me digas estamos exaustos, até que me digas deixa-me partir.

segunda-feira, dezembro 11, 2006

desejo

volta sempre à tua porta. esse mistério antes dela, as agulhas a baterem no chão, a cronometrarem o seu desejo. olha-te e na primeira pausa já entrou no teu cérebro: a dizer sim, a dizer isso mesmo.

sábado, dezembro 09, 2006

perdes(-me) o medo

que bom saber que o meu corpo te integra. imagina tu que quando o faço, mais não quero que integrar o meu.
que amizade, esta?
um esplendor.

quinta-feira, dezembro 07, 2006

o tempo do medo

entre a casa e a secretária onde trabalha, há uma fila de carros. no meio, um espaço, o carro dela, ela, um intervalo, um sítio para se não evitar. são longos minutos de medo. chove, trava-se a fundo, a cor que obriga é redonda: um sinal de trânsito, um sinal de loucura, a chegar, enquanto o trânsito estagna, ali, no intervalo, ganha tempo, esse habitante ocasional. um veneno a desfigurar o trajecto que queria breve, que tem de ser breve, antes que doente, outra vez, que medo, que medo tem destas paragens.
chega, limpa a lágrima da resistência, sobrevive: e começa o dia.

quarta-feira, dezembro 06, 2006

mesmo que te doa

é a segunda vez que promete amar como não se ama; isto é: não te tentando.
amar é querer o bem do outro, diz a banal e cristã sabedoria. mas amar não é senão querer o outro, mesmo contra o outro, e ela aceita tentar não tentá-lo apenas para o não perder e não para o poupar.
(a tua dor é-me apenas uma ameaça)
vai andando.
com estas pernas.

sábado, dezembro 02, 2006

Ontem

nunca cumpre as noites de sexta e de sábado.
morre nessas noites.
como a burocracia.
uma tarde salva-lhe o silêncio.
a memória. sempre.
o seu corredor.