tag:blogger.com,1999:blog-33473826.post-90682104116093498922007-12-24T16:32:00.000+01:002007-12-25T02:54:46.270+01:002007-12-25T02:54:46.270+01:0025 de Dezembro<span style="font-size:78%;">Lembro-me de uma janela<br />Na Travessa da Infância<br />Onde seguindo os rumores dos autocarros<br />Olhei pela primeira vez o mundo<br /><br />(José Tolentino Mendonça)<br /></span><br /><div align="justify"><span style="font-size:100%;">Entram-nos novos olhos pelas esquinas e não entendem a tristeza ou avisam-nos do egoísmo dela. Escondemo-nos numa sala nova, cheios de sorte, o sol muito intenso, livros por ler, e o <em>oratório de natal</em> de <em>bach</em> a fazer coisa nenhuma aos nossos sentidos. É muito difícil explicar aos novos olhos que dói muito ter uma dor que se tem porque se nasce com ela, porque, como já se disse, o mundo nos bate à porta, mas não entra,<em> eu não consigo.</em><br />Quando há uma trovoada de palavras a dizerem-nos a causa da nossa alegria esperada, a dor dói mais, mais ainda, porque nós sabemos que na linha de cima da vida temos tudo e que esta dor só se explica numa linha nos subúrbios do traduzível, onde uma infância amedrontada numa pele mal vestida tantos anos, um desamor quando começou a palavra <em>eu,</em> uma solidão nas mesas com uma família de dezenas de pessoas, a tal <em>sorte</em> que nós temos, esta dor é assim. Tudo o que temos por que tantos dariam dá à dor uma nódoa de culpa, de culpa, e assim se vive num cilindro dentro de outro maior cheio de sorrisos e de amor invejado e nós no nosso cilindro de dor e de culpa e, claro, de medo, essa besta. A infância pode ser um quadro móvel, a mesa de Natal no dia 25, uma mesa feliz, <em>que sorte a nossa</em>, mas os anos levam-nos as pessoas, e Deus também, que ficam com o nome de <em>mortos</em>, pendurados nos nossos corpos, e hoje vê-se aquela mesa com os sons feitos ecos, porque de memória, e há uma mão que não agarra o sal que lhe passam porque morreu, essa e outra mão; a mesa da nossa infância, ao longo doa anos, vai ficando cheia de sombras, os nossos mortos, que surgem com muita força no Natal. É por isso que o dia 25 de Dezembro tem de bom apenas a promessa de um 26, é por isso que quem tem uma dor que nasce consigo e vive em cilindros de medo desequilibra-se até à quase loucura nesta época em que o trânsito, as luzes, ou os apelos na rua são apenas os gritos dos mortos que desocuparam as mesas da nossa infância. Para as ocuparem, hoje, como nunca. </span></div>Isabel Moreirahttp://www.blogger.com/profile/00620189560295607699noreply@blogger.com