tag:blogger.com,1999:blog-33473826.post-47542483318070958562007-12-17T14:43:00.000+01:002007-12-17T14:48:46.213+01:002007-12-17T14:48:46.213+01:00<div align="justify">Ainda a primavera tão longe e pareceu-lhe sentir uma andorinha no novo parapeito da janela. Dirá: foste, tu, talvez. Ou: és tu, com olhos de azeitona.<br />Deitou-se no chão muito cansada e ouviu a voz desaparecida: <em>hoje o teu medo é regressar ao medo, minha querida. Respira, respira, respira e não tenhas medo do medo. Esse teu corpo a tremer e essa tua vontade de gritar agarrada a uma fotografia é uma pequena queda num movimento que se dirige a uma promessa. </em>Obedeceu, muito quieta. Agarrou tremendo um cigarro e um copo qualquer e chorou enfiada na pele dela, que dor a sua dor, que difícil não enlouquecer quando sente aquele abandono, quando refaz com o próprio corpo os gestos do outro corpo, muito só, com cigarros trémulos, também. Diz na sua boca a frase que já foi dela: <em>eu sem ti ficaria sem um braço.<br /></em>(dizemos a frase ao mesmo tempo: uno o som dessa tua frase de há anos ao som da mesma frase agora minha e pergunto: <em>como faço para viver sem um braço, minha querida?)</em><br />Depois falou dessa voz desaparecida a uma pessoa que é verdade<br />(parece-me que ontem quem nunca te viu deu pelas tuas mãos pequeninas).<br />Foi uma andorinha, minha querida, uma primavera a entrar por aquele parapeito, a aterrar na minha almofada e a transpirar sem demónios na pele. Talvez não tenha dado pela contenção dos meus olhos, mas pousou a cabeça no parapeito do meu peito, senti o peso exacto na minha respiração e nem uma grade, minha querida, nem uma grade. </div>Isabel Moreirahttp://www.blogger.com/profile/00620189560295607699noreply@blogger.com