tag:blogger.com,1999:blog-334738262008-07-21T18:02:08.796+01:00ConsolaçãoIsabel Moreirahttp://www.blogger.com/profile/00620189560295607699noreply@blogger.comBlogger168125tag:blogger.com,1999:blog-33473826.post-64789275493084285642008-07-10T10:54:00.001+01:002008-07-10T10:56:17.123+01:00Sonhos II<div align="justify">Um amor vindo de longe interrompe-se por um amor vindo de uma distância um pouco menos distante. Dilui-se a imagem do primeiro e arranha a pele dos braços para inverter a diluição. Não consegue e por isso recorre ao vício de um terceiro homem, pedindo: <em>beija-me para que todos se afastem e com eles o medo de morrer amando</em>. Ao fundo, uma andorinha desenha a sua vida no céu negro e azul, sem uma nuvem branca que acuda a sua desesperança. O amor antigo ressurge e tem um nome. Começa a chorar e encosta os braços ensanguentados nas costas que conhecia tão bem, tão bem, e diz: <em>ajuda-me a amar sem medo</em>. Ou: <em>beija-me para que o vício do terceiro homem se dilua e com ele o medo de nunca emergir do pântano que é um pânico e que se chama <strong>morte lenta nos braços de ninguém</strong></em>. Começa a chorar e encosta os braços ensanguentados nas costas que reconhece tão bem, tão bem, e diz: <em><strong>eu</strong></em>. </div>Isabel Moreirahttp://www.blogger.com/profile/00620189560295607699noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-33473826.post-90047172806440928202008-07-03T09:01:00.002+01:002008-07-03T09:06:24.005+01:00Sonhos IUma cápsula por pessoa. Sete anos no seu interior para acordar numa ilha para um jogo.<br /><em>Estaremos vivos</em>, ouve-se.<br />Acorda e diz: <em>tenho quarenta anos</em>.<br />Ao mesmo tempo alguém que nunca a lê risca algumas palavras do seu livro. A caneta é vermelha. O jogo começou e sem dar por isso chega ao fim. Três pessoas a expulsarem-se mutuamente. Pensa: <em>quem morreu, entretanto</em>? Uma voz: <em>o Pedro, o teu pai e sim, ela</em>.<br />Escreve uma mensagem a um médico e pergunta se sete anos justificam outro tratamento.<br />O medo não morreu.Isabel Moreirahttp://www.blogger.com/profile/00620189560295607699noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-33473826.post-64806203223172575292008-06-25T12:23:00.002+01:002008-06-25T12:40:04.182+01:00Mais Direito que me interessa: Consequências do Artigo de Opinião "O Ministério Púdico" de Fernanda CâncioA Fernanda Câncio publicou um artigo onde denunciou o silenciamento a que o meu parecer sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo e o do Luís Duarte D'Almeida foram vetados pela Revista do Ministério Público. Está <a href="http://5dias.net/2008/06/20/o-ministerio-pudico/">aqui</a>. Entretanto, houve um esclarecimento da Revista do Ministério Público, tal como o a Fernanda Câncio dá conta, no qual se trancreve um mail que me foi enviado. Está <a href="http://www.smmp.pt/?p=898">aqui</a>. Por seu turno, a Fernanda Cânciojá recebeu um mail de um membro da redacção da RMP dizendo que votou contra a não publicação dos pareceres e que considerava a proibição legal de casamento entre pessoas do mesmo sexo inconstitucional. <br />A resposta da RMP é pouco séria, omite dados fundamentais e obriga a esclarecimento rápido. Foi o que fiz nos <a href="http://5dias.net/">cinco dias</a>, assim:<br />Em primeiro lugar, enquanto autora, entre três, do livro apresentado, o meu profundo agradecimento à Fernando Câncio. Ele é duplo, já que para além desta apresentação, com coragem, denunciou o “Ministério Púdico”. Não posso deixar de reagir ao esclarecimento prestado pelo Dr. Rui do Carmo, director da revista, no link que a Fernanda disponibiliza. Vou por pontos.<br />1. O Dr. Rui do Carmo (DRC) só me respondeu - como transcreve - por insistência minha após semanas de silêncio, quando a proposta de publicação já tinha sido feita.<br />2. Na proposta tinha sido explicado que só nos interessaria publicar os pareceres tal como estavam apresentados, pois as opiniões contrárias já estavam publicadas e o contraditório, em Portugal, estava por fazer, precisamente, publicando-se, pela primeira vez, esta posição, e permitindo o debate na sociedade enquanto estava a decorrer o julgamento no Tribunal Constitucional, como aconteceria em qualquer país civilizado.<br />3. Por isso, a resposta, que só chega, repito, por inistência minha, é hipócrita, finge que não leu a proposta inicial - aliás, o DRC já sabia de início que nº da RMP que nos interessaria já estava indisponível, pelo que, talvez com gosto, nos fez perder tempo - e sugere, atropelando a liberdade de expressão e científica dos autores, que transformemos pareceres em futuras críticas de jurisprudência. É como pedir a um pintor que tranforme um quadro numa cadeira.<br />4. Houve, pois, silenciamento da defesa da inconstitucionalidade da solução legislativa actual.<br />5. O critério avançado pela Revista do MP de que publicaria os nossos pareceres, mais à frente, cobardemente, após a decisão do TC, desde que acompanhados de posições contrárias é, como à data foi transmitido ao DRC, curioso e inédito: estamos atentos para ver se de futuro a RMP mantém o critério. Sempre que, por exemplo, se publicar um artigo sobre o princípio democrático, terá de se publicar, imagina-se, ao mesmo tempo, um atrigo sobre o princípio autoritário.Isabel Moreirahttp://www.blogger.com/profile/00620189560295607699noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-33473826.post-20361555844678226802008-06-21T10:10:00.003+01:002008-06-21T10:17:59.311+01:00Entrevista com Pedro Rolo DuarteObrigada ao Pedro Rolo Duarte que me permitiu, em entrevista na Antena 1 que será transmitida amanhã às 11h, falar, para além do Consolação e dos meus livos, do livro sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo. A entrevista pode ser ouvida<br /><a href="http://programas.rtp.pt/EPG/radio/epg-dia.php?datai=&dia=22-06-2008&sem=e&canal=1&gen=&time=">aqui</a>Isabel Moreirahttp://www.blogger.com/profile/00620189560295607699noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-33473826.post-43062654414467595982008-06-12T12:22:00.001+01:002008-06-12T12:25:52.030+01:00Convite<strong>APRESENTAÇÃO DA OBRA O CASAMENTO ENTRE PESSOAS DO MESMO SEXO<br /></strong><br />Os Autores, Carlos Pamplona Côrte-Real, Isabel Moreira, Luís Duarte d`Almeida, e a Almedina têm o prazer de convidar V.ª Ex.ª para a apresentação da obra O Casamento entre Pessoas do Mesmo Sexo.<br /><br />A apresentação realizar-se-á na segunda-feira, dia 16 de Junho de 2008, pelas 18h00m, na Livraria Almedina, Atrium Saldanha, Loja 71, em Lisboa.<br /><br />A obra será apresentada pela Doutora Fernanda Câncio.Isabel Moreirahttp://www.blogger.com/profile/00620189560295607699noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-33473826.post-51796609174646738432008-05-20T12:12:00.002+01:002008-05-20T12:15:45.608+01:00O Direito que me interessa<a href="http://bp3.blogger.com/_IWKWtCfqenY/SDKy2HD3kfI/AAAAAAAAAAk/CKIkF_i20TA/s1600-h/livro.jpg"><img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5202417162244297202" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://bp3.blogger.com/_IWKWtCfqenY/SDKy2HD3kfI/AAAAAAAAAAk/CKIkF_i20TA/s320/livro.jpg" border="0" /></a><br /><div></div><br /><div></div><br /><div></div><br /><div><a href="http://www.almedina.net/catalog/product_info.php?products_id=6652&osCsid=82d5f0293d36f54c81e270206ae3b6e2">http://www.almedina.net/catalog/product_info.php?products_id=6652&osCsid=82d5f0293d36f54c81e270206ae3b6e2</a></div>Isabel Moreirahttp://www.blogger.com/profile/00620189560295607699noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-33473826.post-74001948690622596122008-05-06T11:41:00.002+01:002008-05-06T11:46:13.228+01:00a criança magrinha aperta-se no seu corpo,<br />devolve-lhe a proximidade e pensa:<br />o afecto dói-me.Isabel Moreirahttp://www.blogger.com/profile/00620189560295607699noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-33473826.post-75354175249579395002008-04-23T11:04:00.001+01:002008-04-23T11:06:23.152+01:00ouve o bater da porta de casa atrás de si,<br />passa a mão pela cabeça do cão e pensa:<br /><em>afecto</em>.Isabel Moreirahttp://www.blogger.com/profile/00620189560295607699noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-33473826.post-67239253984210468362008-04-10T19:48:00.002+01:002008-04-10T19:51:25.564+01:00andar, andar, andar. ela está, no entanto,<br />sempre no mesmo lugar.<br />felizmente não tem flores - que odeia - em casa.<br />onde está sempre, há muito ruído e tanto silêncio<br />que não chega.<br />nem cai.<br />por uma jarra que fossse.<br />a sua.Isabel Moreirahttp://www.blogger.com/profile/00620189560295607699noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-33473826.post-20032299597597975732008-04-06T22:24:00.000+01:002008-04-06T22:25:16.901+01:00RegressoHoy como Ayer<br />Mañana como Hoy<br /><br />Gustavo A. Bécquer<br /><br /><br /><br />Ela a querer muito as condições de um regresso.<br />Como hoje, um acaso.<br />Anda a lutar contra o tempo com o próprio tempo.<br />Dói em segredo como a dor de uns pais de sorriso triste.<br />Dias raros, sem amparo, um pretexto: voltou, trémula.<br />Atreveu-se. Uma voz, um acaso a dizer-lhe que regresse.<br />É sempre uma pessoa que a morre; é sempre uma pessoa<br />Que a perdoa.<br />Regressa, então.<br />Lutando contra o tempo com o próprio tempo.<br />Os dias sem amparos são unidades de tempo.<br />E talvez um dia um desconhecido a faça parar de tremer<br />Ou agradeça o seu tremer<br />Ou entenda o seu tremer<br />Diria: eu não te estranho.<br />O luto está feito e ela sabe que hoje é ontem e que<br />Amanhã é hoje.<br />Dói. Mas vive-se.Isabel Moreirahttp://www.blogger.com/profile/00620189560295607699noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-33473826.post-8823288642721520392008-04-04T22:56:00.000+01:002008-04-04T23:01:36.513+01:00<a href="http://www.youtube.com/watch?v=315uXhvbW6s&feature=related">http://www.youtube.com/watch?v=315uXhvbW6s&feature=related</a>Isabel Moreirahttp://www.blogger.com/profile/00620189560295607699noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-33473826.post-34236917965274848942008-01-28T15:57:00.000+01:002008-01-28T19:15:55.695+01:00Até um dia<div align="justify">Obrigada a todos os que me lêem.<br />A contradição é enorme, mas sendo isto o espaço mais público do momento, este vem sendo o meu espaço mais íntimo. Eu escrevo aqui para não perder o que escrevo; o mesmo é dizer para não <em>me</em> perder. Fui a última pessoa da minha geração (que conheço) a perceber o que é um computador e a conseguir aceder à <em>ne</em>t. Antigamente, escrevia compulsivamente e perdia os escritos pelos cantos. Esta coisa a que chamei de <em>consolação </em>permitiu-me armazenar no <em>espaço</em> o que poderia vir a ser um livro, bocados de um livro, vários livros, páginas de um livro, sem perder, sem deitar fora, sem <em>me</em> perder, porque só me interessa escrever sobre a aprendizagem da dor (disso sabem os poucos que lêem o que escrevo em papel) e por isso não posso parar de escrever, enfim, já escrevi muito sobre isso. Este espaço é, portanto, o meu armário. Não me ocorreu, para concretizar esta sensação de armário, numa pequena entrevista a uma revista semanal, <em>aproveitar</em> para dizer que tenho um blog. Durante meia hora de conversa em que se falou do meu livro e do meu amor pela literatura, não me veio à cabeça o <em>Consolação</em>. Não esperava que este viesse a ser lido por tanta gente. É muita gente considerando os textos em causa. Eu só soletro dor. E a vida das pessoas está cheia de dor. E a dor pesa. E mesmo assim há quem não repouse a dor e passe por aqui. Com gosto. Tantas vezes com coragem.<br />Obrigada a todos os que me lêem. É uma espécie de amor que existe na minha vida: chama-se intimidade e é muito forte. É uma consolação.<br />Neste momento, preciso de parar. Preciso de silêncio. Preciso de respirar. Preciso de escrever por dentro. Não sei quando volto. Esta necessidade de um retiro pode durar duas, três, quatro semanas, mais tempo, tanto faz. Mas ainda que apenas uma pessoa me lesse aqui, habituada a uma certa regularidade, não poderia ir embora sem um texto de verdade a dizer obrigada e a querer muito as condições de um regresso.<br />Até um dia.<br />Isabel </div>Isabel Moreirahttp://www.blogger.com/profile/00620189560295607699noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-33473826.post-8459166422817285472008-01-26T23:38:00.000+01:002008-01-26T23:42:52.598+01:00Assim<div align="justify"><em>Stronger than me<br />(Amy Winehouse)<br /></em><br />Os sábados são assim<br /><em>Stronger than me<br /></em>Ela percorre um corpo devagarinho, cheia de dor, a dela, é uma dor com um epicentro aqui, aqui, enquanto se lembra de um refogado inútil, enquanto se lembra de um pastel de nata que ofereceu à indiferença; não é isso a sua dor, é isso que agudiza a sua dor.<br />Os sábados são assim<br /><em>Stronger than me<br /></em>Enrosca-se no banco de trás do carro e tranca a sua dor numa outra dor: uns olhos a dizerem nada, os seus olhos a dizerem por dois, a sua língua com a devoção de duas, as suas mãos a valerem quatro, uma dor, <em>stronger than me</em>, um dicionário a gritar-lhe a palavra que teme, aquela lá de trás que só se descobre assente em nós depois de mortos por dentro.<br />Os sábados são assim<br /><em>Stronger than me<br /></em>E ocorre-lhe citar a Anna Akhmátova de forma reles, como aquela gaja que disse de uma maneira muito precisa, num poema, assim:<br /><br /><span style="font-size:78%;">Vinte e um. Segunda-feira. É noite.<br />No escuro uns contornos de cidade<br />Algum vagabundo escreveu que na terra pode haver amor<br /><br />Por tédio ou preguiça todos acreditaram e assim vivem<br />Esperam encontros, temem a deus<br />E cantam canções de amor.<br /><br />Mas a outros revela-se o enigma,<br />e o silêncio repousará sobre eles …<br />Descobri isto por acaso<br />e desde esse momento sinto-me mal<br /></span><br />Isto passa, isto passa, isto passa. <em>Stronger than me</em> durante duas horas e meia<br />De horror,<br />Tu, de repente, N. Havias de lhe explicar numa mesinha, seja, por que vem ela tomando o lugar dos passarinhos que visitavam as nossas toalhas, a pedirem migalhas. Ela está ali no cantinho da mesa com asas quebradiças a sorrir para uma migalhinha dourada, e às tantas deita-se e a palavra que teme habita-a com tanta força que não se solta completamente quando recolhe as penas. </div><div align="justify">Não é essa a sua dor. A sua dor é até isto de ser passarinho doer.<br />Anda a estudar biologia por umas horas: beija e pensa <em>beija-me</em>, abraça e pensa<em> abraça-me</em>, aperta e pensa <em>aperta-me</em>, lambe e pensa <em>lambe-me</em>, assim, assim, assim, <em>não vês que quase cheirou a amor</em>?<br />- É irrelevante. O amor é uma necessidade passageira, ouve.<br />Que dor.<br />Os sábados são assim, N. A partir de hoje dirá sempre que o dia, essa coisa, o dia, essa coisa, correu bem, antes que morta de outros sons.<br />Despediu-se de ti de um abismo interior. Despediu-se do outro que lhe mostra o que é não amar. <br />Só dela não se despede.<br />Não pode.<br /><em>Stronger than me</em>, N.<br /><br /> </div>Isabel Moreirahttp://www.blogger.com/profile/00620189560295607699noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-33473826.post-82930254031298666012008-01-22T13:02:00.000+01:002008-01-22T13:13:42.158+01:00SeparationYou in the high-walled fortress of sleep<br />I on an island of wakefulness<br />bird-haunted, trapped by mist<br /><br />You eyeing the warm milk of suspicion<br />I drinking the green rain of the seagull’s ocean<br /><br />You on the red deck of the last ferry going under<br />I on the amusement pier lost in the crowd<br /><br />You going forward into the mirror<br />I crawling backward into the teeth’s cavity<br /><br />You in sunglasses<br />walking towards the sea on a street that backs into the sun<br />I sliding on ice across the abandoned freeway<br /><br />You in prison waiting for redemption<br />I in the asylum counting billiard balls<br /><br />You climbing stairways, humping buckets of soapy fisheyes<br />I descending the silver elevators, escorted by clouds<br /><br />You on the night bus that leaves from the ferry wharf and goes<br />across the stone desert to the other side of the earth<br />I on the top floor of the brightly lit hospital,<br />beating the glass with my hands<br /><br />The night is cold<br />The poplars are grey in the headlights<br /><br />You have opened the paragraph of silence<br />I was closing the volume of inaudible sound<br /><br />Peter Boyle <em>in Coming home from the world</em>Isabel Moreirahttp://www.blogger.com/profile/00620189560295607699noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-33473826.post-51381933978784348502008-01-21T13:32:00.000+01:002008-01-21T13:33:18.458+01:00para a T.<a href="http://br.youtube.com/watch?v=6M7qQedSdKk">http://br.youtube.com/watch?v=6M7qQedSdKk</a>Isabel Moreirahttp://www.blogger.com/profile/00620189560295607699noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-33473826.post-48194867045000089052008-01-12T04:31:00.000+01:002008-01-12T04:42:05.425+01:00m a d r u g a d a<br />3 h 32<br />disse: a minha intenção de novo ano é esta. por isso foi para casa. conteve-se.<br />pensou: a noite é o que não aconteceu.<br />respirou. ou não.<br />recordou: na mesa foi uma outra pessoa.<br />(um sorriso a contrariar isto: ser uma pessoa reservada)<br />um dia é sempre uma véspera. mas só isso.<br />talvez amanhã.<br />leu menos do que queria. ou do que poderia<br />(ser-lhe dirigido)<br />a solidão a aumentar sem ruído. a solidão engorda.<br />onde morrer?<br />numa biblioteca. sem o lado esquerdo da cama a desertar o lado direito da cama.<br />numa biblioteca não se morre.<br />morrer então assim, ali a viver, porque outra vida não lhe foi possível.<br />de noite, aqui, tens razão quanto à palavra<em> tu.</em><br />uma voz: <em>tu não és um tu para ninguém.</em>Isabel Moreirahttp://www.blogger.com/profile/00620189560295607699noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-33473826.post-90682104116093498922007-12-24T16:32:00.000+01:002007-12-25T02:54:46.270+01:0025 de Dezembro<span style="font-size:78%;">Lembro-me de uma janela<br />Na Travessa da Infância<br />Onde seguindo os rumores dos autocarros<br />Olhei pela primeira vez o mundo<br /><br />(José Tolentino Mendonça)<br /></span><br /><div align="justify"><span style="font-size:100%;">Entram-nos novos olhos pelas esquinas e não entendem a tristeza ou avisam-nos do egoísmo dela. Escondemo-nos numa sala nova, cheios de sorte, o sol muito intenso, livros por ler, e o <em>oratório de natal</em> de <em>bach</em> a fazer coisa nenhuma aos nossos sentidos. É muito difícil explicar aos novos olhos que dói muito ter uma dor que se tem porque se nasce com ela, porque, como já se disse, o mundo nos bate à porta, mas não entra,<em> eu não consigo.</em><br />Quando há uma trovoada de palavras a dizerem-nos a causa da nossa alegria esperada, a dor dói mais, mais ainda, porque nós sabemos que na linha de cima da vida temos tudo e que esta dor só se explica numa linha nos subúrbios do traduzível, onde uma infância amedrontada numa pele mal vestida tantos anos, um desamor quando começou a palavra <em>eu,</em> uma solidão nas mesas com uma família de dezenas de pessoas, a tal <em>sorte</em> que nós temos, esta dor é assim. Tudo o que temos por que tantos dariam dá à dor uma nódoa de culpa, de culpa, e assim se vive num cilindro dentro de outro maior cheio de sorrisos e de amor invejado e nós no nosso cilindro de dor e de culpa e, claro, de medo, essa besta. A infância pode ser um quadro móvel, a mesa de Natal no dia 25, uma mesa feliz, <em>que sorte a nossa</em>, mas os anos levam-nos as pessoas, e Deus também, que ficam com o nome de <em>mortos</em>, pendurados nos nossos corpos, e hoje vê-se aquela mesa com os sons feitos ecos, porque de memória, e há uma mão que não agarra o sal que lhe passam porque morreu, essa e outra mão; a mesa da nossa infância, ao longo doa anos, vai ficando cheia de sombras, os nossos mortos, que surgem com muita força no Natal. É por isso que o dia 25 de Dezembro tem de bom apenas a promessa de um 26, é por isso que quem tem uma dor que nasce consigo e vive em cilindros de medo desequilibra-se até à quase loucura nesta época em que o trânsito, as luzes, ou os apelos na rua são apenas os gritos dos mortos que desocuparam as mesas da nossa infância. Para as ocuparem, hoje, como nunca. </span></div>Isabel Moreirahttp://www.blogger.com/profile/00620189560295607699noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-33473826.post-47542483318070958562007-12-17T14:43:00.000+01:002007-12-17T14:48:46.213+01:00<div align="justify">Ainda a primavera tão longe e pareceu-lhe sentir uma andorinha no novo parapeito da janela. Dirá: foste, tu, talvez. Ou: és tu, com olhos de azeitona.<br />Deitou-se no chão muito cansada e ouviu a voz desaparecida: <em>hoje o teu medo é regressar ao medo, minha querida. Respira, respira, respira e não tenhas medo do medo. Esse teu corpo a tremer e essa tua vontade de gritar agarrada a uma fotografia é uma pequena queda num movimento que se dirige a uma promessa. </em>Obedeceu, muito quieta. Agarrou tremendo um cigarro e um copo qualquer e chorou enfiada na pele dela, que dor a sua dor, que difícil não enlouquecer quando sente aquele abandono, quando refaz com o próprio corpo os gestos do outro corpo, muito só, com cigarros trémulos, também. Diz na sua boca a frase que já foi dela: <em>eu sem ti ficaria sem um braço.<br /></em>(dizemos a frase ao mesmo tempo: uno o som dessa tua frase de há anos ao som da mesma frase agora minha e pergunto: <em>como faço para viver sem um braço, minha querida?)</em><br />Depois falou dessa voz desaparecida a uma pessoa que é verdade<br />(parece-me que ontem quem nunca te viu deu pelas tuas mãos pequeninas).<br />Foi uma andorinha, minha querida, uma primavera a entrar por aquele parapeito, a aterrar na minha almofada e a transpirar sem demónios na pele. Talvez não tenha dado pela contenção dos meus olhos, mas pousou a cabeça no parapeito do meu peito, senti o peso exacto na minha respiração e nem uma grade, minha querida, nem uma grade. </div>Isabel Moreirahttp://www.blogger.com/profile/00620189560295607699noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-33473826.post-25694150329882355932007-12-10T00:20:00.000+01:002007-12-10T01:17:34.192+01:00elatu.<br />tu.<br />tu.Isabel Moreirahttp://www.blogger.com/profile/00620189560295607699noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-33473826.post-83588867823308937992007-12-03T16:16:00.000+01:002007-12-03T16:23:11.572+01:00Para a R.<div align="justify">In Paris With You<br /><br />Don't talk to me of love. I've had an earful</div><div align="justify">And I get tearful when I've downed a drink or two.</div><div align="justify">I'm one of your talking wounded.</div><div align="justify">I'm a hostage. I'm maroonded.</div><div align="justify">But I'm in Paris with you.</div><div align="justify"> </div><div align="justify">Yes I'm angry at the way I've been bamboozled</div><div align="justify">And resentful at the mess I've been through.</div><div align="justify">I admit I'm on the rebound</div><div align="justify">And I don't care where are we bound.</div><div align="justify">I'm in Paris with you.</div><div align="justify"> </div><div align="justify">Do you mind if we do not go to the Louvre</div><div align="justify">If we say sod off to sodding Notre Dame,</div><div align="justify"> If we skip the Champs Elysées</div><div align="justify">And remain here</div><div align="justify"> in this sleazy</div><div align="justify"> </div><div align="justify">Old hotel room</div><div align="justify">Doing this and that</div><div align="justify">To what and whom</div><div align="justify">Learning who you are, </div><div align="justify">Learning what I am.</div><div align="justify"> </div><div align="justify">Don't talk to me of love. Let's talk of Paris, </div><div align="justify">The little bit of Paris in our view.</div><div align="justify">There's that crack across the ceiling</div><div align="justify">And the hotel walls are peeling</div><div align="justify">And I'm in Paris with you.</div><div align="justify"> </div><div align="justify">Don't talk to me of love. Let's talk of Paris.</div><div align="justify">I'm in Paris with the slightest thing you do.</div><div align="justify">I'm in Paris with your eyes, your mouth, </div><div align="justify">I'm in Paris with... all points south.</div><div align="justify">Am I embarrassing you? I'm in Paris with you. </div><div align="justify"> </div><div align="justify">(James Fenton) </div>Isabel Moreirahttp://www.blogger.com/profile/00620189560295607699noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-33473826.post-26958700963534713122007-11-29T12:21:00.000+01:002007-11-29T12:23:34.085+01:00A funcionária<div align="justify">Quase invisível, dir-se-ia, a sombra de lãs neutras, ali sentada, há trinta e cinco anos. Calhou que os olhos eram olhos de chorar aflito e ela ali a passar encontrou-se nesses olhos, daquela sombra quase invisível, dir-se-ia, uma sombra de lãs neutras. Precisava apenas de uma pergunta – <em>o que tem?</em>- para desensombrar-se num choro então audível, explicando a dor de ouvir uma repreensão injusta depois de trinta e cinco anos a sorrir por fora. Ali, de repente, no espaço de um corpo quase invisível, uma revolução: o parto das dores de uma vida inteira, vida subitamente revelada como uma <em>introdução</em> à mágoa de hoje, Angola abandonada, marido morto tão novinho, uma vida de viúva sozinha, de filhos seus e bastardos por criar, sempre perdoando, e agora isto: uma repreensão injusta a matá-la de vez.</div>Isabel Moreirahttp://www.blogger.com/profile/00620189560295607699noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-33473826.post-17694113814036217932007-11-24T00:16:00.000+01:002007-11-24T00:22:20.568+01:00Pensamentos imediatos II<div align="justify">As mulheres têm uma coragem muito específica: verbalizam o que sentem. E assim permitem a muitos (finalmente) falarem.</div><div align="justify">Para concordarem com elas.</div>Isabel Moreirahttp://www.blogger.com/profile/00620189560295607699noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-33473826.post-60409170948105370552007-11-22T12:29:00.000+01:002007-11-22T12:35:34.000+01:00Pensamentos imediatos I<div align="justify">(Notícia no jornal de hoje: <em>descoberta de fóssil mostra que já existiram escorpiões maiores que um homem</em>)<br /><br /><strong>Ainda</strong> existem. Ainda <strong>existem</strong>. </div>Isabel Moreirahttp://www.blogger.com/profile/00620189560295607699noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-33473826.post-18597114259706911262007-11-17T04:57:00.000+01:002007-11-17T05:10:02.490+01:00tudo o que acontece é um parêntesis na saudade.<br />presta-se asim muita atenção às portas e às paredes que são isto:<br />-uma pessoa a dizer até amanhã;<br />- um sono interrompido;<br />- a previsão da segunda parte do sono;<br />- um papel tingido de lápis dos olhos;<br />- o silêncio de um copo vazio;<br />- o silêncio de uma carta que não chega;<br />- o frio a crescer nas costas;<br />- o silêncio do fumo do cigarro;<br />- as pessoas ao fundo da fotografia;<br />- o silêncio dos livros por ler;<br />- o silêncio;<br />- os ruídos interiores;<br />- o silêncio;<br />- o silêncio.Isabel Moreirahttp://www.blogger.com/profile/00620189560295607699noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-33473826.post-9291298840068697912007-11-13T10:35:00.000+01:002007-11-13T10:40:21.338+01:00<div align="justify">Os seus dedos aventuram-se trémulos no teclado. O peso dos sonhos, mesmo os não recordados, dizem-lhe <em>é hoje que te não aguentas</em>. Frases, músicas, choros, sorrisos dela são o estuque deste tremor. Penteia-se ao espelho e imagina a perplexidade alheia: <em>tão nova, tão bonita</em>. <em>Minha querida, por quê?</em>, pensa. Tem um remoinho no centro da cabeça que puxa pelas lágrimas de fora para dentro, as sombras estão no lugar, a chave do carro dita a luta de sempre: um dia por cumprir. Sem enlouquecer. Os corpos todos já não amparam tanto medo físico, chegou o dia em que o peito esmagado por outro não se dá por vencido, nem por quinze minutos. <em>Sim, sim, claro</em>, diz, <em>que interessante</em>, diz, e por dentro a gritar <em>desaparece porque estás a diluir-me</em>. Fica para ali cheia de humidade sem dono ou sem intenção ou sem amor. Na noite anterior, numa estrada ondulada, deu pela sua solidão, não como sempre, mas num tiroteio que a conduziu, silenciosa, até à morte de tudo isto que é dizer <em>boa noite</em>. <em>A invenção do amor</em> é o poema que referencia uma nova manhã.<br />Pode ser que ninguém dê por tanta pele amedrontada. Pode ser que ao entardecer um sorriso tenha a generosidade de um sentido.</div>Isabel Moreirahttp://www.blogger.com/profile/00620189560295607699noreply@blogger.com